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obra:ga41:newton

Newton

O pensamento moderno não apareceu de um momento para o outro. Os primórdios fazem-se sentir no século XV, na escolástica tardia. O século XVI trouxe, de forma intervalada, investidas e recaídas. No século XVII, pela primeira vez, realizam-se as clarificações e as fundamentações decisivas. Todo este acontecer encontrou a sua primeira conclusão sistemática e criadora com o matemático e físico inglês Newton; isto aconteceu com a sua obra principal Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, publicada em 1686/87. Neste título, «philosophia» significa a ciência universal (cf. philosophia experimentalis); «principia» são os primeiros fundamentos, os mais originários, quer dizer, os fundamentos mais iniciais. Com estes primeiros fundamentos não se trata, de modo algum, de uma introdução para principiantes. A obra não foi apenas a conclusão de esforços precedentes, mas também a fundamentação da ciência da natureza que veio depois, e teve o seu desenvolvimento tão favorecido como impedido. Quando hoje falamos da física clássica, temos em vista a figura do saber, do questionar e do fundar, estabelecida por Newton. (…) A obra é precedida por um curto parágrafo, intitulado «Definitiones», que dizem respeito à «quantitas materiae», à «quantitas motus», à força e, acima de tudo, à «vis centripeta». Segue-se ainda um «Scholium», que contém a série das célebres definições conceptuais acerca do tempo absoluto e relativo, do espaço absoluto e relativo, acerca do lugar absoluto e relativo e, finalmente, acerca do movimento absoluto e relativo. Segue-se, então, um parágrafo intitulado «Axiomata, sive leges motus», «Axiomas ou leis do movimento». A ele liga-se o conteúdo próprio da obra. Esta está dividida em três livros: os dois primeiros tratam do movimento dos corpos, «de motu corporum», o terceiro trata do sistema do mundo, «de mundi systemate». Aqui, deitamos somente uma olhadela ao primeiro axioma, quer dizer, àquela lei do movimento que Newton coloca no início da sua obra. Ela tem o seguinte teor: «Corpus omne perseverare in statu suo quiescendi vel movendi uniformiter in directum, nisi quatenus a umbus impressas cogitur statum illum mutare.» «Cada corpo permanece no seu estado de repouso, ou no movimento uniforme em linha recta, quando não é e na medida em que não é forçado, por forças nele impressas, a mudar do estado em que se encontra.» Chama-se a esta lei, a lei da persistência (ou, com menos felicidade, «lex inertiae», lei da inércia). A segunda edição da obra foi publicada ainda em vida de Newton, no ano de 1713, por Cotes, o então professor de Astronomia em Cambridge, acompanhada por um prefácio introdutório. Aí, Cotes escreveu, acerca desta lei, o seguinte: «naturae lex est ab omnibus recepta philosophia», «é uma lei da natureza ceite por todos os investigadores». (GA41 83)

Newton escreve (Principia, Líber III; regulae IV): «In philosophia experimentale propositiones ex phaenomenis per inductionem collectae non obstantibus contrariis hypothesibus pro vens aut accurate aut quamproxime haberi debent, donec alia occurrerint phaenomena, per quae aut accuratiores reddantur aut exceptionibus obnoxiae.» «Na investigação experimental, as observações obtidas a partir dos fenómenos, através de uma aproximação em relação a eles, devem ser tomadas por verdadeiras, ou de modo suficiente, ou de modo aproximado, quando não existem pressupostos que se lhes oponham, até ao momento em que apareçam outros fenómenos, pelos quais elas se tornem ou mais exactas, ou sujeitas a excepções.» Mas, apesar da atitude básica idêntica quanto ao modo de proceder, a posição de fundo de Aristóteles é essencialmente diversa da de Newton, porque aquilo que, em ambos os casos, é por assim dizer tomado por fenómeno e o modo como isso é interpretado não é, num e noutro lado, o mesmo. (GA41 87)

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