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obra:ga41:a.2

A.2 Sentidos "coisa"

A. DIVERSAS MANEIRAS DE INTERROGAR EM DIREÇÃO À COISA

II. OS MÚLTIPLOS SENTIDOS EM QUE SE FALA DA COISA

O termo «coisa» apresenta uma amplitude semântica que vai desde os objetos imediatamente apreensíveis e visíveis até tudo aquilo que, de algum modo, é algo e não nada, impondo por isso a distinção entre um sentido estreito, um sentido amplo e um sentido maximamente amplo, antes que a pergunta «O que é uma coisa?» possa adquirir determinação suficiente.

  • No uso mais imediato, «coisa» designa objetos como um pedaço de madeira, uma pedra, uma faca, um relógio, uma bola, um dardo, um parafuso ou um fio de arame, mas pode igualmente nomear algo de grandes proporções, como o saguão de uma estação ou um abeto gigantesco, bem como os diversos entes presentes numa pradaria, um quadro pendurado na parede ou as obras acabadas e inacabadas no ateliê de um escultor.
  • Em contraste, hesita-se inicialmente em chamar de coisa ao número 5, pois ele não pode ser agarrado, visto ou ouvido; tampouco parecem coisas uma proposição como «O tempo está ruim», uma palavra isolada como «casa», uma atitude ou uma opinião que se mantém ou eventualmente se abandona, uma vez que se distingue espontaneamente entre a coisa denominada e a palavra que a nomeia.
  • O uso corrente, contudo, ultrapassa esse sentido estreito quando se afirma que «coisas estranhas estão acontecendo» numa situação em que se prepara uma traição, ou quando, diante de uma decisão, se considera que determinada questão deve vir «antes de todas as outras coisas», pois aqui «coisa» já significa circunstância, consideração, resolução ou assunto, e não um objeto material.
  • O mesmo sentido ampliado aparece na expressão alemã daß es nicht mit rechten Dingen zugehe, quando se considera que as coisas não estão se passando como deveriam, revelando um emprego de Ding próximo de seu sentido antigo de debate judicial, controvérsia, assunto ou negócio.
  • A proximidade etimológica entre o alemão Ding e o inglês thing conserva esse sentido de questão, assunto ou negócio, reconhecível ainda em expressões como «esclarecer as coisas» ou no provérbio alemão Gut Ding will Weile haben, segundo o qual uma boa coisa precisa de tempo, isto é, toda tarefa, empreendimento ou assunto requer seu próprio tempo.
  • Também na expressão guter Dinge, aplicada a alguém de bom ânimo, Ding não designa um objeto material, mas o conjunto de seus assuntos, desejos e trabalhos, considerados em boa ordem.
  • No sentido estreito, «coisa» significa aquilo que é apreensível, visível e imediatamente dado à presença, isto é, o subsistente ou simplesmente presente (das Vorhandene); no sentido mais amplo, abrange todo assunto, tudo aquilo que de algum modo se passa, os fatos e acontecimentos que advêm no «mundo».
  • Há ainda um terceiro uso, o mais amplo possível, preparado há muito tempo e tornado especialmente corrente na filosofia do século XVIII, no qual «coisa» significa simplesmente «algo» (etwas), isto é, aquilo que não é nada.
  • Nesse sentido maximamente amplo, Kant distingue a «coisa em si» da «coisa para nós», isto é, daquilo que se manifesta enquanto fenômeno (Erscheinung), sendo a coisa em si aquilo que não se torna acessível à experiência humana do mesmo modo que pedras, plantas ou animais.
  • Toda coisa para nós é também, enquanto coisa, coisa em si, na medida em que poderia ser conhecida de modo absoluto pelo conhecimento absoluto de Deus, embora nem toda coisa em si possa tornar-se coisa para nós.
  • Deus constitui, para Kant e no horizonte da teologia cristã, um exemplo de coisa em si, sem que «coisa» signifique aqui qualquer formação material ou entidade fisicamente localizada, mas apenas algo em geral, um X que pode ser pensado embora não possa ser experimentado do modo como se experimenta um pedaço de giz e se verificam conjuntamente proposições acerca de sua queda.
  • No mesmo sentido maximamente amplo, também o número é uma coisa, a fé é uma coisa, a fidelidade é uma coisa, e igualmente são «algo» os símbolos > e <, a conjunção «e» e a alternativa «ou… ou».
  • A pergunta «O que é uma coisa?» mostra-se, assim, inicialmente mal determinada, pois aquilo que deve ser interrogado precisa antes estar suficientemente delimitado; do mesmo modo que não se pode procurar «o cachorro» sem saber se se trata do próprio cachorro ou do cachorro do vizinho, também não se pode perguntar adequadamente pela coisa sem determinar em qual sentido a palavra está sendo empregada.
  • Distinguem-se, portanto, três significações ainda provisoriamente delimitadas:
  • 1º A coisa no sentido do subsistente ou simplesmente presente (das Vorhandene): pedra, pedaço de madeira, tesoura, relógio, maçã, crosta de pão, incluindo tanto coisas inanimadas quanto animadas, como rosa, arbusto, faia, abeto, lagarto ou vespa.
  • 2º A coisa em sentido mais amplo, abrangendo tanto o anteriormente enumerado quanto planos, resoluções, reflexões, disposições, ações e aquilo que pertence ao histórico.
  • 3º A coisa no sentido maximamente amplo, incluindo tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, é algo e não nada.
  • A delimitação dessas três significações permanece, por enquanto, em certa medida arbitrária, e tanto o domínio quanto a direção da interrogação dependerão da extensão concedida ao termo «coisa».
  • Segundo o uso predominante da linguagem atual, o sentido mais natural é o primeiro e mais estreito, no qual pedra, relógio, maçã ou rosa são coisas e, ao mesmo tempo, algo, enquanto nem todo algo — como o número 5, a felicidade ou a coragem — constitui uma coisa nesse sentido.
  • A pergunta «O que é uma coisa?» será, por isso, conduzida a partir dessa primeira significação, não apenas por sua proximidade com o uso corrente, mas também porque mesmo as investigações em que «coisa» assume sentido mais amplo costumam começar pela região mais estreita do imediatamente dado.
  • A investigação dirige-se, assim, às coisas que circundam imediatamente e que se oferecem como aquilo que está mais próximo e diretamente apreensível, reconhecendo-se nisso, de modo significativo, a lição contida no riso da serva trácia: antes de voltar o pensamento para regiões distantes, cumpre prestar atenção ao ambiente mais próximo.
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