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obra:ga33:ga33-5

GA33: §5

§ 5. Unidade do ser — não como gênero, mas como analogia

  • As considerações anteriores delimitam o âmbito da investigação aristotélica sobre potência e efetividade, mostrando que essa questão é uma pergunta pelo ente, que tal pergunta é no fundo pergunta pelo ser, que o ente deve ser interrogado enquanto ente, que o ser é o uno primeiro a ser dito do ente, que o ser é simultaneamente dito de múltiplas maneiras e que essa multiplicidade possui tanto o sentido quádruplo das maneiras do ser quanto o sentido múltiplo das categorias.
  • A questão preparatória final consiste em saber como Aristóteles compreende a unidade do ser enquanto múltiplo, qual espécie de multiplicidade orienta a redução ao uno e de que modo o ser é entendido nessa decisão sobre a unidade da multiplicidade.
  • Quando o ente é dito de múltiplas maneiras, o ser também é expresso de múltiplos modos, como ser verdadeiro, ser possível, ser presente-subsistente ou ser acidental, mas essa pluralidade não equivale a uma simples identidade sonora da palavra ser, como ocorre com palavras que possuem sentidos totalmente diversos.
  • O ser dito em significações diversas não apresenta mera igualdade de nome, pois nas várias acepções há uma unidade persistente de significado compreendido, ainda que essa unidade não se deixe apreender de modo imediato.
  • A unidade comum do ser não é do tipo que se encontra quando se diz que o boi e o camponês são seres vivos, pois nesse caso o termo ser vivo é dito univocamente de ambos, como gênero comum que se diferencia em espécies.
  • O ser não é uma unidade de gênero supremo, nem se obtém extraindo das diversas maneiras de ser um elemento comum que funcione como gênero, razão pela qual Aristóteles demonstra indiretamente que a unidade do ser não pode ser unidade genérica.
  • Se o ser fosse um gênero, suas maneiras diversas, como ser verdadeiro e ser possível, seriam espécies formadas por diferenças específicas acrescentadas ao gênero, mas tais diferenças também precisariam ser algo que é, e assim o ser já as incluiria, impossibilitando que funcionasse como gênero distinto delas.
  • Como o ser é o mais universalmente dizível de tudo aquilo que não é nada, e até mesmo do nada em certo sentido, ele inclui também aquilo que deveria diferenciar suas supostas espécies, tornando impossível concebê-lo como gênero e as maneiras do ser como espécies.
  • O ser não pode ser tomado como conceito no sentido comum de universal genérico, e por isso toda definição do ser deve necessariamente fracassar, exigindo outro modo de apreensão que será encontrado na investigação sobre potência e efetividade.
  • A demonstração do caráter não genérico do ser indica apenas aquilo que a unidade do ser não é, mas já basta para mostrar que a pergunta pela unidade do ser se tornou uma questão real em Aristóteles e marca um afastamento decisivo da compreensão platônica do ser como gênero.
  • O ser não é dito nem por mera homonímia nem por sinonímia genérica, embora permaneça entendido como algo comum e até como o que se diz mais universalmente de tudo, sem que Aristóteles jamais o chame de categoria.
  • O ser não é uma categoria, mas aquilo que vigora na categoria, permanecendo a questão de como compreender a relação entre esse uno universalíssimo e suas muitas maneiras diferenciadas.
  • Aristóteles não esclarece diretamente a relação do ser com a multiplicidade de suas maneiras, mas conduz o olhar para significações linguísticas que reúnem muitos sentidos sem constituírem um gênero comum.
  • A palavra saúde exemplifica uma unidade de muitos sentidos, pois pode ser dita do coração como estado corporal, da erva medicinal como aquilo que produz saúde, da cor do rosto como sinal de saúde e do passeio como aquilo que conserva ou promove a saúde.
  • Os vários sentidos de saudável não são espécies de um gênero saúde, pois não se dizem da mesma maneira, mas se referem diversamente a um primeiro sentido, que é a saúde como estado do corpo.
  • A linguagem mostra relações de significado que parecem lógicas, mas excedem a lógica habitual, indicando que a própria linguagem não pode ser reduzida a uma apreensão lógica e que suas categorias precisam ser liberadas da concepção lógica herdada.
  • A transferência de sentido em expressões como uma surra saudável mostra que os vínculos significativos podem multiplicar-se de modo ainda mais complexo, pois saudável passa a significar algo favorável à educação por analogia com aquilo que promove ou conserva saúde.
  • A unidade presente nos diversos sentidos de saudável tem o caráter da analogia, pois Aristóteles reconhece, além da unidade numérica, específica e genérica, uma unidade dos diferentes segundo analogia.
  • Na analogia, um primeiro sentido assume a função de unificar os demais, não como gênero, mas como significado condutor ao qual os outros correspondem de maneiras distintas e determinadas.
  • O sentido primeiro não paira acima dos demais como uma significação geral, pois cada sentido derivado responde ao primeiro segundo uma relação particular, como sinal, produção, conservação ou promoção da saúde.
  • A correspondência analógica consiste em reconduzir o significado ao primeiro e nele fixá-lo, de modo que esse primeiro funciona como princípio condutor e sustentador a partir do qual os demais sentidos podem ser compreendidos e ditos.
  • A analogia realiza uma unidade do comum que não é a comunidade simples do gênero, mas uma espécie de comunhão em que o mesmo mantém reunidas as correspondências múltiplas.
  • A explicação preliminar da analogia mostra apenas uma forma de unidade, pois o caráter analógico do ser em Aristóteles não é esclarecido diretamente, mas novamente por meio de uma analogia.
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