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1.3 QUESTÃO-GUIA DA FILOSOFIA

PRIMEIRA PARTE: DETERMINAÇÃO POSITIVA DA FILOSOFIA A PARTIR DO CONTEÚDO DA QUESTÃO DA LIBERDADE. O PROBLEMA DA LIBERDADE HUMANA E A QUESTÃO FUNDAMENTAL DA FILOSOFIA

TERCEIRO CAPÍTULO: A ELABORAÇÃO DA QUESTÃO-GUIA DA METAFÍSICA PARA A QUESTÃO FUNDAMENTAL DA FILOSOFIA

11. A QUESTÃO FUNDAMENTAL DA FILOSOFIA COMO A PERGUNTA PELA CONEXÃO ORIGINÁRIA ENTRE SER E TEMPO

A análise da questão-guia revelou que o ser é compreendido como presença constante (beständige Anwesenheit), o que remete imediatamente aos caracteres temporais da presença (Gegenwart) e da constância (Beständigkeit). Essa constatação, longe de encerrar a investigação, abre o abismo da problematividade da questão-guia, pois a compreensão do ser no horizonte do tempo exige que se pergunte pela própria essência do tempo e pela sua relação originária com o ser. A questão fundamental da filosofia, portanto, não é mais “o que é o ente?”, mas “qual é a conexão originária entre ser e tempo?”, um problema que a tradição, embora tenha perguntado pelo ser e pelo tempo separadamente, nunca colocou em sua radicalidade como a questão do “e” que os une.

  • A compreensão do ser como presença constante, que orienta toda a metafísica ocidental, implica uma compreensão do ser a partir do tempo, mais especificamente a partir do caráter temporal da presença (Gegenwart) e da constância (Beständigkeit), que são determinações do tempo.
  • A pergunta pela fonte da luz que ilumina a compreensão do ser conduz à pergunta pelo tempo, pois a presença e a constância são modos de ser do tempo, e a própria possibilidade de o ser ser compreendido como presença constante depende de uma relação fundamental com o tempo.
  • A questão fundamental “Ser e Tempo” (Sein und Zeit) não é uma justaposição de dois temas, mas a pergunta pela unidade originária que os conecta, pelo “e” (Und) que os mantém juntos e que aponta para o fundamento comum de ambos.
  • A tradição filosófica, embora tenha perguntado pelo ser (ousia) e pelo tempo (chronos), nunca perguntou pela relação originária entre ambos, permanecendo presa a uma compreensão implícita e não tematizada do ser a partir do tempo, o que constitui o núcleo da questão fundamental.
  • A elaboração da questão-guia para a questão fundamental, portanto, não é um mero refinamento teórico, mas uma virada radical que expõe a fragilidade da tradição e exige um novo questionamento que parta da própria conexão entre ser e tempo, em vez de assumi-la como algo dado.

12. O HOMEM COMO LUGAR DA QUESTÃO FUNDAMENTAL. A COMPREENSÃO DO SER COMO FUNDAMENTO DA POSSIBILIDADE DA ESSÊNCIA DO HOMEM

12. A questão fundamental, ao perguntar pelo “e” entre ser e tempo, desemboca necessariamente na pergunta pelo homem, pois a compreensão do ser (Seinsverständnis), que é o acesso ao ser, só ocorre no homem, enquanto a própria essência do tempo remete ao homem como seu lugar (Stätte). Essa pergunta pelo homem, no entanto, não é uma pergunta antropológica qualquer, mas uma pergunta metafísica radical que visa o fundamento da possibilidade da essência do homem, ou seja, a própria compreensão do ser como condição de possibilidade de todo comportamento humano em relação ao ente. Desse modo, a questão fundamental, ao interrogar o “e” entre ser e tempo, interroga também o homem em sua raiz, revelando um potencial caráter de ataque (Angriffscharakter) que a simples pergunta pelo ente, no âmbito da questão-guia, não poderia alcançar.

  • A pergunta pelo ser, desdobrada na questão fundamental “Ser e Tempo”, leva inevitavelmente à pergunta pelo homem, pois o tempo, como horizonte da compreensão do ser, só pode ser compreendido a partir do homem, que é o lugar (Stätte) onde essa compreensão se dá.
  • A compreensão do ser não é uma propriedade acidental do homem, mas a condição de possibilidade de seu próprio ser, pois é ela que permite ao homem comportar-se em relação a si mesmo e aos demais entes, constituindo o fundamento de sua essência.
  • A pergunta pelo homem na perspectiva da questão fundamental não pergunta pelo homem como um ente entre outros, mas pergunta pelo fundamento de seu ser, pela raiz (Wurzel) que o constitui como o ente que compreende o ser.
  • Essa pergunta radical pelo homem, ao contrário da pergunta antropológica tradicional, não busca uma classificação ou descrição do homem, mas visa o próprio acontecimento da compreensão do ser, que é o que verdadeiramente o define e o coloca em questão.
  • A questão fundamental, ao colocar o homem em seu fundamento, revela o caráter de ataque (Angriffscharakter) da filosofia, pois não se trata de uma mera especulação abstrata, mas de uma interrogação que atinge o homem em sua existência concreta, ainda que essa dimensão permaneça inicialmente encoberta pela generalidade da questão.

13. O CARÁTER DE ATAQUE DA QUESTÃO DO SER (QUESTÃO FUNDAMENTAL) E DO PROBLEMA DA LIBERDADE. A AMPLITUDE ABRANGENTE DO SER (O IR AO TODO) E O ISOLAMENTO ATACANTE (O IR À RAIZ) DO TEMPO COMO HORIZONTE DA COMPREENSÃO DO SER

13. A questão fundamental “Ser e Tempo”, por sua radicalidade, revela a tensão interna entre a amplitude abrangente do ser e o isolamento atacante do tempo. O ser, como o mais amplo e universal, abarca todo o ente, mas essa amplitude só se dá no horizonte do tempo, que, por sua vez, é sempre o tempo de alguém, o tempo individual e concreto (je meine Zeit). Essa característica do tempo, de ser sempre “meu” ou “teu”, e de concentrar o homem em sua singularidade, confere à questão fundamental um caráter de ataque (Angriff), pois ela não apenas aborda o todo do ente, mas atinge cada homem individualmente em sua raiz, colocando-o em questão como o lugar onde a compreensão do ser acontece. Assim, o ir ao todo (Aufs-Ganze-Gehen) é, ao mesmo tempo e essencialmente, um ir à raiz (An-die-Wurzel-Gehen) de cada homem singular.

  • A questão fundamental, ao tematizar a conexão entre ser e tempo, revela a dupla face do tempo: por um lado, ele é o horizonte mais amplo que permite a compreensão do ser e, com ela, o acesso a todo o ente; por outro, o tempo é sempre o tempo de cada um, isolando cada homem em sua singularidade e tornando a questão do ser uma questão que lhe diz respeito diretamente.
  • O caráter de ataque (Angriffscharakter) da filosofia não é um acréscimo moral ou uma aplicação prática, mas está no próprio conteúdo da questão fundamental, que, ao perguntar pelo ser e pelo tempo, interpela cada homem em sua existência individual, exigindo uma tomada de posição radical.
  • A amplitude abrangente do ser e o isolamento atacante do tempo não são opostos, mas dois momentos da mesma questão fundamental, pois a universalidade do ser só se torna efetiva no tempo, que é sempre o tempo de um existente singular.
  • O caráter de ataque da questão fundamental, longe de ser uma consequência secundária, é a sua realização plena, pois a pergunta pelo ser, ao alcançar sua radicalidade, não pode deixar de interrogar o homem em sua existência concreta e em seu fundamento temporal.
  • A relação entre o problema da liberdade e a questão fundamental se estabelece porque a liberdade, como questão fundamental, envolve essa dupla dimensão de amplitude e isolamento, sendo um problema que toca tanto o todo do ente quanto a existência singular de cada homem, colocando-o em questão em sua raiz.

14. A REORIENTAÇÃO DA PERSPECTIVA DA PERGUNTA: A QUESTÃO-GUIA DA METAFÍSICA FUNDAMENTA-SE NA PERGUNTA PELA ESSÊNCIA DA LIBERDADE

14. A análise desenvolvida até aqui revela que a questão-guia da metafísica, longe de ser o ponto de partida absoluto, fundamenta-se em uma questão mais originária: a questão pela essência da liberdade. O problema da liberdade, portanto, não é uma questão particular inserida na questão-guia, mas a própria raiz da qual a questão-guia emerge e a partir da qual o ser e o tempo devem ser compreendidos. Essa reorientação (Umstellung) radical implica que a liberdade não é uma propriedade do homem, mas o fundamento da possibilidade de sua existência (Dasein), sendo ele, o homem, uma possibilidade da liberdade. Assim, a pergunta pela essência da liberdade torna-se a pergunta fundamental, e a questão-guia da metafísica, com suas determinações do ser como presença constante, deve ser compreendida a partir da liberdade como seu solo originário.

  • A questão pela essência da liberdade não é uma questão especial entre outras, mas a questão que fundamenta a própria possibilidade da metafísica, pois a liberdade, como o fundamento do Dasein, é mais originária que o ser e o tempo, sendo a raiz de sua unidade.
  • A reorientação da perspectiva implica que o homem não é visto como um ente dotado de liberdade, mas como o ente cuja existência é fundada na liberdade, que o possibilita e o coloca como o lugar da abertura do ente em sua totalidade.
  • A liberdade, como fundamento da possibilidade do Dasein, é também o fundamento da possibilidade da compreensão do ser e, portanto, da própria questão-guia da metafísica, invertendo a relação tradicional que via a liberdade como um problema derivado.
  • Essa reorientação exige uma compreensão do homem como o “administrador” da liberdade, como aquele que, por sua finitude, é o lugar onde a liberdade irrompe e se manifesta, tornando possível a abertura do ente em sua totalidade.
  • A pergunta pela essência da liberdade, ao se mostrar como o fundamento da questão fundamental da filosofia, não elimina os problemas da tradição, mas os recoloca em uma nova e mais originária perspectiva, exigindo uma nova elaboração do problema da causalidade, da verdade e do ser do ente, que deverá ser conduzida em confronto crítico com a tradição, especialmente com Kant.
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