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§ 4. A essência do conhecimento como tal
Tópicos sobre a Fundamentação da Metafísica e a Crítica da Razão Pura em Kant
- Kant reduz o problema da possibilidade da ontologia à questão de como são possíveis os juízos sintéticos a priori, o que explica por que a fundamentação da metafísica se realiza na forma de uma Crítica da Razão Pura.
- A investigação sobre a possibilidade do conhecimento ontológico exige uma caracterização prévia desse conhecimento, no qual, seguindo a tradição, Kant concebe o conhecer como julgar.
- O conhecimento ontológico conhece o ente, e aquilo que é conhecido pertence ao ente mesmo, sendo este “o que é” aportado a priori pelo conhecimento ontológico antes de toda experiência ôntica, ainda que deva servir precisamente a ela.
- Kant denomina “sintético” o conhecimento que aporta o “o que é” do ente, revelando o próprio ente, de modo que a questão sobre a possibilidade do conhecimento ontológico se converte no problema da essência dos juízos sintéticos a priori.
- A instância capaz de legitimar esses juízos prenhes de conteúdo quidditativo sobre o ser do ente não pode encontrar-se na experiência mesma, pois a experiência do ente se guia sempre, por sua vez, por uma compreensão ontológica prévia.
- Consequentemente, o conhecimento ontológico equivale a julgar segundo bases não empíricas, ou princípios, faculdade esta que Kant denomina razão pura.
- A razão pura é a faculdade que encerra os princípios do conhecimento a priori, de modo que a revelação da possibilidade do conhecimento ontológico deve conduzir a uma explicitação da essência da razão pura.
- A delimitação da essência da razão pura representa simultaneamente um critério para determinar sua não-essência, bem como a limitação e restrição de suas possibilidades essenciais, configurando a fundamentação da metafísica como uma Crítica da Razão Pura.
- O conhecimento ontológico, ou a síntese a priori, constitui o objeto para o qual propriamente está feita toda a crítica, exigindo uma definição mais exata dessa síntese no momento de fixar o problema que deve guiar a fundamentação.
- Kant utiliza frequentemente a expressão “síntese” com significados diversos e entremeados, especialmente ao formular o problema da fundamentação, que se dirige à possibilidade dos juízos sintéticos a priori.
- Todo juízo enquanto tal representa um “eu enlaço”, ou seja, o sujeito com o predicado, sendo que mesmo os juízos analíticos são sintéticos nesse sentido, embora a razão da concordância do enlace resida simplesmente na representação do sujeito.
- Os juízos sintéticos são “sintéticos” em um duplo sentido: primeiro, enquanto são simplesmente juízos; segundo, enquanto a legitimidade do enlace das representações constitui um aporte do próprio ente sobre o qual se emitiu o juízo.
- No problema dos juízos sintéticos a priori, trata-se de uma modalidade adicional de síntese que deve aportar algo sobre o ente que a experiência não pôde extrair dele, sendo este aporte uma determinação prévia do ser do ente.
- Este modo de referir-se previamente ao ente é uma pura “referência a…”, que forma o “para” e o horizonte dentro do qual o ente em si mesmo se torna perceptível através da síntese empírica.
- A investigação que concerne à essência dessa síntese a priori é denominada por Kant de transcendental, definindo como transcendental todo conhecimento que se ocupa não tanto dos objetos, mas de nosso modo de conhecê-los, na medida em que este deve ser possível a priori.
- O conhecimento transcendental não investiga o ente mesmo, mas a possibilidade da compreensão prévia do ser, ou seja, a constituição ontológica do ser do ente, referindo-se ao transpassar da razão pura em direção ao ente que torna possível a experiência do objeto.
- Elevar a possibilidade da ontologia à categoria de um problema equivale a perguntar pela possibilidade, ou essência, dessa transcendência da compreensão do ser, configurando um filosofar transcendental.
- Por isso Kant utiliza o nome de “filosofia transcendental” em lugar de metaphysica generalis ao caracterizar a problemática da ontologia tradicional, referindo-se à “filosofia transcendental dos antigos” ao mencionar essa ontologia.
- A Crítica da Razão Pura não representa um sistema de filosofia transcendental, mas sim um “tratado do método”, significando não uma doutrina da técnica procedimental, mas a elaboração de uma determinação completa dos contornos gerais e da estruturação interna total da ontologia.
- Nesta fundamentação da metafísica como projeto da possibilidade interna da ontologia, traça-se o esboço inteiro de um sistema de metafísica.
- As interpretações que veem a Crítica da Razão Pura como uma teoria da experiência ou das ciências positivas desconhecem completamente a intenção da obra, que nada tem a ver com uma teoria do conhecimento no sentido ôntico.
- Se a considerássemos uma teoria do conhecimento, seria preciso afirmar que ela é uma teoria do conhecimento ontológico, não ôntico, mas mesmo essa interpretação ainda não acerta o essencial, que é a fundamentação e elevação da ontologia à sua própria esfera.
- Ao plantear o problema da transcendência, não se substitui a metafísica por uma teoria do conhecimento, mas se interroga acerca da possibilidade interna da ontologia.
- Se a verdade de um conhecimento pertence à sua essência, o problema transcendental da possibilidade interna do conhecimento sintético a priori equivale a perguntar pela essência da verdade da transcendência ontológica.
- É necessário determinar a essência da “verdade transcendental”, que precede a toda verdade empírica e a torna possível, pois nenhum conhecimento pode contradizê-la sem perder todo seu conteúdo e referência a um objeto.
- A verdade ôntica orienta-se necessariamente para a verdade ontológica, constituindo esta a interpretação legítima do sentido da revolução copernicana, pela qual Kant empurra para o centro o problema da ontologia.
- No problema da possibilidade da verdade ontológica originária, nada se pode pressupor, e menos ainda o fato da verdade das ciências positivas, cabendo à fundamentação perseguir a síntese a priori em si mesma até seus germes constitutivos.
- A tarefa da fundamentação é mostrar como se realiza o desenvolvimento da possibilidade da ontologia desde seus germes, sem apoiar-se em fato algum, apenas na própria razão.
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