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§ 1. O conceito tradicional da metafísica
* O horizonte intelectual no qual Kant situou a metafísica e a necessidade de sua fundamentação encontra-se delimitado pela definição legada por Baumgarten, que a descreve como a ciência que encerra os princípios primordiais do conhecimento humano, uma formulação que abriga uma ambiguidade intrínseca e necessária quanto à natureza desses fundamentos. Sob essa perspectiva tradicional, a metafísica subdivide-se nas disciplinas da ontologia, cosmologia, psicologia e teologia natural, configurando um sistema dogmático cuja estrutura e história de estabilização demandam análise para que se compreenda a importância radical do ponto de partida kantiano na busca por uma fundamentação sólida. * A denominação meta ta physika, originada inicialmente como uma classificação bibliográfica destinada a organizar os tratados de Aristóteles que sucediam seus escritos sobre a física, evoluiu para designar a própria natureza filosófica desses conteúdos, alterando o curso da interpretação histórica de tal forma que passou a definir como metafísica o objeto de estudo aristotélico. Essa transição semântica não representa um detalhe trivial na história do pensamento, mas sim um vetor que direcionou a compreensão da filosofia primeira em uma trajetória específica, consolidando o que viria a ser entendido como o domínio próprio dessa ciência. * Subsistem dúvidas legítimas sobre se o agrupamento de textos que compõe a Metafísica de Aristóteles constitui, de fato, a metafísica em seu sentido essencial, embora o próprio Kant tenha buscado conferir ao termo um significado congruente com seu conteúdo ao argumentar que a denominação não é casual, visto que, se a physis representa a natureza acessível apenas pela experiência, a ciência que a sucede e se situa além dela é propriamente a metafísica, entendida como um saber que habita um domínio exterior e transcendente ao campo da física. * O título meta ta physika atua como um invólucro para uma perplexidade filosófica fundamental, surgida da dificuldade de enquadrar o que Aristóteles concebia como filosofia primeira dentro das divisões escolares de lógica, física e ética que se seguiram, evidenciando a ausência de um marco disciplinar adequado para o filosofar propriamente dito. Essa perplexidade deriva da confusão acerca da natureza dos problemas discutidos nesses tratados, manifestando-se em Aristóteles como uma estranha dualidade na determinação da essência da filosofia primeira, que se apresenta simultaneamente como o conhecimento do ente enquanto ente, on e on, e como o conhecimento da região suprema do ente, timiotaton genos, a partir da qual se determina o ente em sua totalidade, katholou. * A dualidade entre o estudo do ser e o estudo do ente supremo não deve ser interpretada como uma coexistência de ideias opostas ou independentes, nem deve ser atenuada ou fundida apressadamente em uma unidade artificial, exigindo, em vez disso, o esclarecimento das razões desse dualismo aparente a partir do problema central da filosofia primeira. Tal tarefa é urgente, pois essa tensão não se origina exclusivamente em Aristóteles, mas domina a problemática do ser desde os primórdios da filosofia antiga, revelando que a metafísica é, em sua essência, o conhecimento fundamental do ente como tal e em sua totalidade, uma definição que serve para apontar os questionamentos sobre a possibilidade do conhecimento do ser e sua transformação necessária em um saber sobre o ente total.
* A metafísica ocidental posterior a Aristóteles não se consolidou através da continuidade de um sistema sistemático pretendido pelo filósofo grego, mas resultou da incompreensão do estado problemático e aberto em que Aristóteles e Platão deixaram as questões centrais da ontologia. Dois motivos principais determinaram a formação do conceito dogmático de metafísica: o primeiro diz respeito à estrutura do conteúdo influenciada pela interpretação cristã do mundo, que divide o ente entre o Criador e a criatura, posicionando o homem e a salvação de sua alma no centro da existência, o que fragmentou a metafísica em metaphysica generalis ou ontologia, voltada ao ente em geral, ens commune, e metaphysica specialis, que abrange a teologia, a cosmologia e a psicologia. * O segundo motivo essencial para a dogmatização da metafísica refere-se ao método de conhecimento, pois, ao tratar do ente supremo e de temas de interesse universal, a metafísica foi elevada à condição de rainha das ciências, exigindo um rigor máximo que espelhasse o ideal matemático. Esse modelo de saber, por ser independente de experiências contingentes e constituir-se como ciência racional pura a priori, transformou tanto o conhecimento do ente em geral quanto o das suas partes principais em uma disciplina da razão pura, isolada das incertezas da empiria. * Kant, embora permaneça fiel à intenção dessa metafísica tradicional e a projete em direção à metaphysica specialis como a finalidade última de todo o esforço metafísico, reconhece que as tentativas anteriores fracassaram devido à sua incoerência e ineficácia sistêmica. Diante da frustração constante desse projeto, ele estabelece que qualquer ampliação do conhecimento racional deve ser subordinada à tarefa prévia de fundamentação, que consiste em determinar a essência e a possibilidade interna da própria ciência metafísica antes de se prosseguir com suas pretensões dogmáticas.
