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§ 1. O conceito tradicional da metafísica
- O horizonte em que Kant concebe a metafísica, e no qual procura estabelecer seu fundamento, pode ser caracterizado pela definição de Baumgarten: Metaphysica est scientia prima cognitionis humanae principia continens. A metafísica é, assim, a ciência que contém os primeiros princípios do conhecimento humano. Contudo, a expressão “primeiros princípios” apresenta uma ambiguidade inevitável: designa tanto o fundamento último do conhecer quanto os princípios que orientam o próprio ato do conhecimento.
- Tradicionalmente, a metafísica abrange quatro disciplinas: ontologia, cosmologia, psicologia e teologia natural. Essa divisão expressa a herança dogmática da tradição pós-aristotélica, cuja estrutura Kant herdou, ainda que em parte para superá-la.
- A expressão grega meta ta physika, que originalmente era apenas uma designação bibliográfica para os tratados de Aristóteles que seguiam à Física, veio a adquirir, mais tarde, o sentido de uma caracterização filosófica. Essa transformação, longe de ser um acaso, orientou de modo decisivo a compreensão posterior daquilo que se passou a chamar “metafísica”.
- Contudo, é duvidoso que aquilo que se reúne sob o título de Metafísica em Aristóteles corresponda ao que posteriormente se entendeu por metafísica. O próprio Kant reconhece que o nome não é arbitrário, pois se a physis significa natureza, e chegamos aos conceitos da natureza pela experiência, a ciência que vai além dela se denomina metafísica: um saber que se situa “além” da física, fora do domínio do empírico.
- O nome “metafísica”, adotado por razões classificatórias, revela uma perplexidade filosófica mais profunda: a dificuldade de situar, dentro das disciplinas aristotélicas — lógica, física e ética —, o campo que Aristóteles chamava prote philosophia, a filosofia primeira, o filosofar propriamente dito. O título meta ta physika oculta, portanto, uma questão essencial sobre o lugar e o sentido do saber fundamental.
- A origem dessa perplexidade está na ambiguidade do próprio Aristóteles ao definir a essência da filosofia primeira. Ela é, ao mesmo tempo, o conhecimento do ente enquanto ente (on he on) e o conhecimento da região suprema do ente (timiotaton genos), a partir da qual se determina o ente em sua totalidade (katholou). Essas duas caracterizações não constituem duas doutrinas opostas, mas aspectos de um mesmo problema: o duplo movimento pelo qual o pensamento apreende o ente como tal e o ser em seu todo.
- Esclarecer essa duplicidade é tarefa essencial, pois o dualismo entre o conhecimento do ente enquanto ente e o conhecimento do ente supremo domina a questão do ser desde o início da filosofia grega. A filosofia primeira é, desde o nascimento do pensamento ocidental, simultaneamente ontologia e teologia.
- Pode-se, provisoriamente, definir a metafísica como o conhecimento fundamental do ente enquanto tal e em sua totalidade. Essa definição, porém, tem apenas um valor indicativo: ela aponta para o problema e para as perguntas que o constituem. Em que consiste a essência do conhecimento do ser do ente? Em que medida esse conhecimento deve desenvolver-se até abranger o ente em totalidade? E por que se converte, ao fim, em conhecimento do próprio conhecimento do ser? A palavra “metafísica” exprime, portanto, a perplexidade originária da filosofia.
- A metafísica ocidental posterior a Aristóteles não deriva de um sistema que se teria simplesmente transmitido, mas do fato de que nem Platão nem Aristóteles resolveram plenamente os problemas centrais da filosofia, deixando-os abertos. Essa abertura foi posteriormente recoberta por duas forças decisivas que determinaram o conceito dogmático de metafísica.
- O primeiro motivo é de ordem estrutural e provém da interpretação cristã do mundo. A partir da fé, todo ente não divino é concebido como criatura, e o universo, como criação. O homem, situado entre as criaturas, possui dignidade especial, pois o que realmente importa é a salvação de sua alma. A totalidade dos entes divide-se, assim, em três domínios: Deus, natureza e homem. A teologia, a cosmologia e a psicologia formam, em conjunto, a metaphysica specialis, enquanto a metaphysica generalis (ontologia) se ocupa do ente em geral (ens commune).
- O segundo motivo essencial concerne ao método do conhecimento metafísico. Por tratar do ente e do sumo ente, a metafísica é considerada a ciência mais elevada, “a rainha das ciências”. Em coerência com essa dignidade, seu modo de conhecer deve ser o mais rigoroso e conclusivo. O ideal que se impõe é o do conhecimento matemático — racional, puro e a priori, independente da experiência contingente. Assim, o conhecimento do ente em geral e de suas partes principais converte-se em uma “ciência da razão pura”.
- Kant permanece fiel à intenção dessa metafísica dogmática, mas desloca sua questão para o âmbito da metaphysica specialis, a que denomina “metafísica propriamente dita”, pois nela se encerra o fim último de toda a metafísica. Contudo, reconhece que essa ciência fracassa continuamente em seus esforços, por falta de coerência e eficácia. Por isso, antes de ampliá-la, é necessário esclarecer a possibilidade interna dessa ciência, isto é, determinar sua essência.
- O ponto de partida kantiano da fundamentação da metafísica surge, assim, da necessidade de perguntar: como é possível a metafísica como ciência? Essa interrogação marca a virada decisiva: a metafísica deixa de ser apenas o saber do ente supremo e torna-se o questionamento crítico do próprio conhecer. O problema da metafísica converte-se no problema das condições de possibilidade do conhecimento do ser.
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