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GA26 – Introdução

  • A lógica, em sua concepção tradicional, deriva do termo grego λόγος, que designa tanto o discurso quanto a enunciação que afirma algo de algo. Essa determinação é, essencialmente, um ato de pensamento: o dizer que algo é algo. O logos, portanto, é o modo fundamental pelo qual o ser se manifesta à compreensão humana, enquanto o pensamento busca adequar-se ao que é dito, instaurando a medida da verdade como adaequatio.
  • A lógica, entendida como ciência do logos, não trata das enunciações factuais isoladas, mas da estrutura essencial do pensar enquanto tal. O pensar é sempre um pensar de algo, e é a este algo — o ente — que se dirige a determinação lógica. Essa relação entre o pensamento e o ente manifesta-se em diversos domínios: o físico, o geométrico, o histórico, o linguístico. Cada um desses campos exige um modo próprio de determinação conceitual e, por consequência, uma lógica específica.
  • Quando, porém, o pensamento se volta não a um ente particular, mas ao ato de pensar em geral, a lógica torna-se formal. Tal formalidade não implica ausência de objeto, mas indiferença quanto ao conteúdo particular do ente pensado. O pensamento formal ocupa-se do modo pelo qual qualquer ente pode ser pensado, e não do que ele é em sua singularidade. A lógica formal é, assim, a ciência das formas puras do pensamento, das leis que regem o ato de pensar como tal.
  • Kant, ao reconhecer na lógica uma ciência concluída desde Aristóteles, ressalta que essa completude deriva de sua limitação: a abstração de todos os objetos do conhecimento, restando ao entendimento apenas a consideração de si mesmo e de sua forma. Todavia, é precisamente essa limitação que Heidegger questiona, pois a lógica, enquanto fundamento do filosofar, não pode reduzir-se a um conjunto de regras formais desprovidas de relação com o ser.
  • A crise da lógica tradicional manifesta-se na sua esterilidade pedagógica: permanece exterior ao estudante e não conduz ao pensar filosófico. Ela se converteu em mera técnica intelectual, incapaz de despertar o espanto originário que funda o filosofar. Surge, assim, a exigência de uma nova lógica, não como substituição de princípios, mas como recondução do pensamento ao seu fundamento metafísico.
  • O propósito de uma lógica filosófica consiste em interrogar o pensar em seu pertencimento ao ser, e não apenas em sua correção formal. Tal tarefa implica uma reconsideração radical dos princípios que regulam o pensamento — identidade, não contradição, razão suficiente — não para negá-los, mas para indagar de onde provêm e em que medida revelam o ser do ente.
  • A filosofia, enquanto investigação do ser enquanto ser, é a ciência suprema que pergunta pelo fundamento de todo ente. Aristóteles a denomina primeira filosofia, pois interroga o ente não enquanto particularidade, mas em sua totalidade. O ser, porém, não é um ente; é o horizonte no qual todo ente se dá como ente. Assim, a filosofia é, ao mesmo tempo, ontologia e teologia: conhecimento do ser e contemplação do que ultrapassa e domina o ente — o divino como o absolutamente manifesto.
  • O saber filosófico não é posse, mas busca incessante. O filósofo é aquele que ama e procura o saber, que se volta para o que é difícil, admirável e inútil aos propósitos práticos. Essa busca distingue-se da sofística, que apenas simula o saber e se contenta com a aparência. A filosofia exige seriedade — um modo de ser já tocado pela inquietação do essencial — e não mera erudição discursiva.
  • A filosofia, portanto, é o esforço de compreender o ser. Mas compreender o ser implica também compreender o homem, pois é na existência humana que a questão do ser se manifesta. O homem é o ente que, em seu próprio modo de ser, compreende algo como ser. A transcendência do Dasein — seu projetar-se para além dos entes — é a condição originária de toda compreensão.
  • A questão do ser é, assim, inseparável da questão do homem. A história da filosofia mostra como o problema do ser se desloca para o campo do pensamento e da subjetividade: em Parmênides, pelo noein; em Platão, pelo diálogo da alma consigo mesma; em Aristóteles, pelo logos predicativo; em Descartes, pela res cogitans; em Kant, pela consciência transcendental; e em Hegel, pela identidade de substância e sujeito. O homem torna-se o campo onde o ser se revela e se oculta.
  • Com isso, a questão ontológica e a questão antropológica se entrelaçam. O homem, enquanto Dasein, é o lugar de abertura do ser, e por isso a filosofia, ao interrogar o ser, interroga também o próprio homem. Essa interrogação não é psicológica nem ética, mas ontológica: pergunta pelo modo de ser daquele que compreende o ser.
  • O filosofar autêntico não busca construir sistemas nem oferecer consolo, mas libertar a existência para a liberdade do pensamento. A verdade filosófica não se mede por proposições corretas, mas pela fidelidade do pensador à sua própria abertura ao ser. A filosofia é, em sua essência, um modo de existir livre, não uma doutrina a ser possuída.
  • A lógica, compreendida filosoficamente, não é mero instrumento, mas desdobramento da metafísica. Investigar os fundamentos da lógica é retornar ao solo onde se enraízam as noções de verdade, fundamento, conceito, lei e liberdade. Essas determinações, longe de serem apenas formais, remetem ao modo de ser do Dasein e à sua capacidade de compreender o ser.
  • O pensamento é, em sua essência, um determinar algo como algo, um revelar ou velar o ente. Ele é sempre verdadeiro ou falso, pois implica medida e adequação ao que é. Mas essa possibilidade de verdade depende do modo como o ser se abre ao homem. Assim, a questão da verdade conduz à questão da transcendência: como o homem pode estar na verdade, se esta não é um ente?
  • Os princípios lógicos fundamentais — identidade, não contradição, razão suficiente — revelam-se como modos de estruturação da relação do homem com o ser. Eles não são meras leis psicológicas ou naturais, mas expressões do modo de ser do pensamento finito. Compreender sua origem e necessidade é compreender o próprio fundamento da liberdade.
  • A liberdade é a condição de possibilidade de toda lei, pois somente o ser livre pode estar submetido a uma obrigatoriedade. A lógica, portanto, não é apenas o estudo das leis do pensamento, mas o exame da liberdade do pensar em sua pertença ao ser. Nesse sentido, os fundamentos metafísicos da lógica são, ao mesmo tempo, os fundamentos ontológicos da liberdade.
  • O pensar filosófico, enquanto determinação e desvelamento, traz em si o vínculo essencial com o ser. A cópula — o “é” do juízo — indica essa ligação originária. Todo dizer “A é B” implica uma relação com o ser. A investigação da lógica deve, portanto, esclarecer essa copresença de ser e pensar, mostrando como o logos é o lugar onde o ser se torna manifesto.
  • A lógica tradicional, dividida em doutrina do conceito, do juízo e do silogismo, reflete apenas parcialmente esse vínculo originário. O juízo — o logos como enunciação — é o núcleo da lógica, pois nele se decide a verdade ou falsidade, e, portanto, o modo como o ser é compreendido. Mas essa estrutura, tomada formalmente, perde seu enraizamento ontológico, e é essa perda que Heidegger busca recuperar.
  • Retornar aos fundamentos metafísicos da lógica é, assim, desvelar a unidade originária entre ser, verdade, fundamento e liberdade. Só a partir desse horizonte o pensar pode ser verdadeiramente filosófico, e a lógica, em vez de técnica do raciocínio, tornar-se novamente caminho para o ser.
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