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Grundbegriffe der aristotelischen Philosophie (Summer semester 1924), ed. M. Michalski, 2002, XIV, 418p.
Ousia como Conceito Fundamental da Filosofia Aristotélica
1. A função básica do logos é o trazer-a-se-mostrar-por-si-mesmo dos entes em seu ser, da ousia enquanto “ser” dos entes ou enquanto “sendidade” (Seinsheit,beingness, entidade), significando isso que o ser de um ente possui aspectos determinantes, de modo que ainda algo pode ser descoberto sobre o ente no como de seu ser, sendo contudo a ousia, enquanto “ser no como de seu ser”, ela mesma ambígua em Aristóteles, possuindo vários significados, ao mesmo tempo em que a ousia é o título do contexto concreto que constitui o tema da pesquisa fundamental de Aristóteles, sendo a expressão para o conceito fundamental da filosofia aristotélica, a partir da qual se chegará a conhecer não apenas o que é o horismos, mas também se adquirirá um solo sobre o qual situar os demais conceitos fundamentais.
a) Os Diversos Tipos de Ambiguidade Conceitual e o Vir a Ser dos Termos
2. A ousia é ambígua para Aristóteles, o que poderia de imediato interromper o emprego da expressão, já que uma ambiguidade no conceito fundamental de uma pesquisa constitui um perigo, não sendo, contudo, toda ambiguidade do mesmo tipo, havendo os seguintes tipos.
3. O primeiro tipo é a ambiguidade de confusão, que surge quando uma palavra é usada de certo modo mas ainda possui vários significados já esclarecidos, sendo esses significados confundidos por falta de conhecimento da coisa em questão, instalando-se essa ambiguidade posteriormente e obscurecendo aquilo que veio à luz numa pesquisa explícita.
4. O segundo tipo pode surgir de uma incapacidade de ver determinados contextos concretos quanto a suas possíveis diferenças, de uma insensibilidade à diferença na apreensão e determinação conceitual.
5. O terceiro tipo pode ser o índice de que o alcance de uma palavra em sua ambiguidade surge de uma relação legítima com a coisa, de uma familiaridade legítima com ela, sendo a multiplicidade de sentido exigida pela própria coisa, uma multiplicidade articulada de significados distintos, de tal modo que a coisa é tal que exige, a partir de si mesma, a mesma expressão mas com sentidos diversos.
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Assim é a situação em Aristóteles, por exemplo no Livro Delta da Metafísica, mostrando o fato de que Aristóteles não se preocupa em remover essa ambiguidade, nivelando-a mediante alguma sistematização fantasiosa, seu instinto para a coisa, deixando ele o significado permanecer diante das coisas mesmas.
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A multiplicidade de sentido é, por conseguinte, índice de variação, sendo aconselhável não confundir a própria confusão com a multiplicidade de sentido em Aristóteles, devendo-se antes ver se a ambiguidade de fato provém das coisas mesmas.
6. A ousia pertence a esses conceitos fundamentais ambíguos, examinando-se por isso aquilo de que partem seus vários significados, já tendo sido dito que a ousia é o conceito fundamental da pesquisa aristotélica, sendo tais expressões, que têm o caráter de expressões enfatizadas, também designadas como “termos”, constituindo o significado que expressamente lhes cabe no interior de um contexto científico de perguntar o significado “terminológico” da expressão, havendo diferentes possibilidades quanto ao vir a ser dos termos.
7. Na primeira possibilidade, um contexto concreto determinado é descoberto, visto de novo pela primeira vez, faltando a palavra, sendo a palavra cunhada junto com a coisa, podendo uma expressão que não estava à disposição tornar-se de imediato um termo, o qual mais tarde se dissipa ao ingressar na circulação e na ordinariedade geral do falar.
8. Na segunda possibilidade, a formação pode proceder de tal modo que o termo se fixa a uma palavra já disponível, de tal maneira que um aspecto de significado que era co-intencionado com o significado ordinário, ainda que não explicitamente, torna-se agora temático no significado terminológico.
b) O Significado Corrente de Ousia
9. A expressão ousia, enquanto termo fundamental da pesquisa aristotélica, provém de uma expressão que possui um significado corrente na linguagem natural, sendo o significado corrente aquele que uma palavra tem no falar natural, entendendo-se por falar natural o falar tal como sempre ocorre inicial e majoritariamente, e onde está à disposição um outro modo de falar com o mundo, a saber, o modo científico.
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A correnteza do significado e do exprimir significa, além disso, que ela opera na medianidade da compreensão, sendo apta a circular como evidente por si mesma, sendo compreendida “sem mais”, compreendendo “as pessoas” uma expressão que tem o caráter do corrente sem mais, existindo essa expressão no acervo comum da linguagem em que toda pessoa é criada desde o início.
10. Não é, contudo, o caso, com a ousia, de que o significado terminológico tenha surgido a partir do significado corrente enquanto este desapareceu, existindo antes, para Aristóteles, o significado corrente constante e simultaneamente ao lado do significado terminológico.
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Segundo seu significado corrente, a ousia significa propriedade, posse, bens e haveres, patrimônio, sendo digno de nota que entes determinados, coisas como posses e bens domésticos, sejam abordados pelos gregos como coisas genuínas.
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Ao examinar esse significado corrente pode-se descobrir o que os gregos entendiam em geral por “ser”, devendo-se contudo tomar cuidado para não deduzir arbitrariamente o significado terminológico a partir do corrente, devendo antes o significado corrente ser compreendido de tal modo que se seja conduzido ao terminológico por meio do corrente.
11. O significado corrente de ousia designa um ente determinado, e não, digamos, montanhas ou outros seres humanos, sendo a ousia, terminologicamente, “um ente no como de seu ser” (usualmente traduzida como “substância”, permanecendo em aberto se mais se pode representar por “substância” do que por “um ente no como de seu ser”).
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No significado corrente, esse “no como de seu ser” não é enfatizado, mas as expressões alemãs também possuem certos significados que não visam apenas um ente, mas visam também esse ente no como de seu ser: patrimônio, propriedade, bens e haveres.
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A ousia é um ente que está aí para mim de modo enfático, de tal modo que posso usá-lo, que está à minha disposição, sendo aquele ente com que tenho a ver cotidianamente, que está aí em meu trato cotidiano com o mundo, bem como quando me ocupo com a ciência, sendo um ente privilegiado, fundamental, considerado em seu ser, no como de seu ser, sendo no significado corrente co-intencionado o como do ser.
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O como do ser remete ao Dasein no modo do estar-disponível, sugerindo isso que, desde o início, ser, para os gregos, significa Dasein, devendo o esclarecimento ulterior dos entes em seu ser mover-se na direção da pergunta pelo que significa aí, tornando-se visível o ser dos entes mediante o esclarecimento do caráter de aí dos entes.
12. Pode-se ver agora como o significado terminológico de ousia se deriva do corrente, sendo a ousia correntemente um ente determinado no como de seu ser, sendo o como apenas co-intencionado, ao passo que o significado terminológico, por outro lado, apresenta tematicamente o como de ser que antes era apenas intencionado implicitamente.
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Isso vale não apenas para o como desse modo de ser, mas para todo ente, podendo a ousia significar, primeiro, diretamente o ente (sendo o como co-intencionado), e, segundo, diretamente o como de um ente (sendo esse próprio ente co-intencionado).
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A ousia significa, portanto, primeiro um ente, e segundo o como do ser, ser, sendidade, ser no sentido de ser-aí, contendo a ousia no sentido de ser-aí um duplo significado: o ente que está aí, e o ser do ente que está aí.
13. Não é acidental que a designação grega para as coisas que primeiro se encontram seja pragmata, “entes com que constantemente se tem a ver”, e chremata, “aquilo que é tomado em uso”, remetendo ambas ao significado básico de ousia.
14. Aristóteles diz na Metafísica que a antiga pergunta, ti to on, “o que é o ente?”, é na verdade a pergunta pelo ser dos entes, tis he ousia, trazendo Aristóteles, pela primeira vez, a pesquisa científica a esse solo, solo que nem mesmo Platão jamais notou.
c) O Significado Terminológico de Ousia
15. A ousia é o título do objeto da pesquisa fundamental genuína para Aristóteles e para a filosofia grega em geral, estando aquele que se propõe a tarefa de esclarecer o significado de tal termo obrigado a manter em vista o contexto concreto a que ele se refere, surgindo o termo ousia de várias maneiras.
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A expressão ousia surgiu, enquanto termo, a partir de uma expressão prevalente na linguagem cotidiana e que significava um ente determinado, a saber, entes com o caráter de propriedade, posse, patrimônio etc.
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Quer-se tomar esse significado corrente de ousia como um fio condutor na medida em que se pergunta se, em algum sentido, aspectos do significado corrente já estão contidos no significado terminológico, mas apenas como fio condutor, buscando-se assim o significado terminológico segundo seus aspectos de significado, e não deduzindo o significado terminológico a partir do corrente.
16. É característico do significado corrente que ele não expresse apenas um ente, mas um ente no como de seu ser, entendendo-se por patrimônio um ente que está aí em sentido explícito, aquele ente que inicial e majoritariamente está aí na vida, no interior do qual a vida faticamente opera na maior parte das vezes, a partir do qual a vida por assim dizer extrai sua existência (Dasein).
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No significado corrente de ousia reside, assim, uma duplicação, um ente, mas ao mesmo tempo no como de seu ser, distinguindo-se o significado terminológico pelo fato de que se concentra precisamente nesse como de ser, não designando a ousia primariamente um ente, mas o como de ser desse ente com que um ente determinado é co-intencionado.
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Ao usar-se o termo ousia, ainda em seu significado corrente, um conceito determinado de ser é significado, tendo a ousia enquanto einai, “ser”, seu significado plenamente determinado de ser que surge da compreensão primária que os gregos têm dos entes que primeiramente encontram, sendo esse sentido primário de ser aquele que ainda ressoa no significado terminológico.
17. Obteve-se, de todo modo, uma orientação para os múltiplos significados dessa expressão na medida em que ela significa, primeiro, entes no como de seu ser, e, segundo, o como de ser dos entes, situando-se em cada caso a ênfase numa direção diferente, interessando agora apenas o significado terminológico, devendo a multiplicidade do significado terminológico ser determinada mais precisamente, tratando-se aqui a ousia com o objetivo de ver o que é genuinamente abordado pelo logos, pelo horismos, o que é original e genuinamente dito ao defini-los.
18. A ousia, no significado terminológico, é ela mesma tratada tendo em vista a multiplicidade de seus significados, significando a ousia, no significado terminológico, primeiro entes ou vários entes, de tal modo que o como de seu ser não é diretamente enfatizado, e, segundo, precisamente o ser dos entes.
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No interior dessas duas direções básicas de significado do termo ousia encontra-se uma multiplicidade de significados que serão agora estudados mais de perto, devendo, caso haja um tipo de pesquisa que tome o ser como seu tema, esse tipo de pesquisa, que tem o ser dos entes como tema, estar de algum modo obrigado a também manter os entes em vista, pois é, ao fim e ao cabo, apenas a partir dos entes mesmos que o caráter de seu ser pode ser extraído.
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Os entes devem, assim, ser necessariamente levados em conta, tendo, no interior dessa pesquisa, todo conceito de ser um caráter duplo específico em seu significado.
α. Ousia como Entes
19. Das direções básicas de significado do termo ousia, escolhe-se inicialmente aquela que visa os próprios entes, aparecendo nesse uso a expressão ousiai, dita de vários “entes” na medida em que possuem vários caracteres de ser, sendo os entes mesmos sempre primariamente descobertos antes do ser.
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Aristóteles, na Metafísica, Livro VII, Capítulo 2, diz que a ousia parece mostrar-se mais manifestamente nos somata, “o ser dos entes se mostra abertamente nos somata”.
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Ao traduzir-se soma por “corpo”, deve-se notar que corporeidade não significa, para os gregos, materialidade ou ter-caráter-de-material, significando soma antes uma obtrusividade característica de um ente, de um ente que está aí, de tal modo que, mais tarde, to son soma, “teu soma”, equivale a su, e mais tarde soma significa “escravo”, “prisioneiro”, um ente que me pertence, que está à minha disposição, que está aí para mim nessa obtrusividade e evidência por si mesma, devendo também esse significado ser ouvido.
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Aristóteles diz desses entes que a ele parece que a ousia se mostra mais manifestamente neles, mostrando-se aí a ousia direta e inicialmente, permanecendo em aberto se há ainda outra espécie de ser que qualificaria como ousia, sendo as ousiai homologoumenai: cada um diz o mesmo que o outro, sem mais, a saber, que esses entes são, sendo esses entes abordados em sentido genuíno como entes na evidência-por-si-mesma do Dasein natural.
20. Para Aristóteles, e para toda pesquisa que investiga o ser e que, com isso, quer ter um solo sobre o qual se apoiar, é evidente por si mesma que ela parte da consideração do ser (e da estrutura de ser) que inicialmente aí está desse modo, que parte de um sentido de ser que a naturalidade compreende sem mais, movendo-se a vida numa inteligibilidade natural daquilo que é imediatamente significado por “ser” e “entes” em seu falar.
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Na Metafísica, Livro VII, Capítulo 3 (final): homologountai de ousiai einai ton aistheton tines, “está de acordo que entes em sentido genuíno pertencem àquilo que é percebido na aisthesis”.
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Ao falar Aristóteles de aistheton, nunca significa algo objetivo com o caráter de dados sensíveis presentes através de “sensações”, significando por aisthesis o “perceber” dos entes no modo natural, um perceber distinguido pelo fato de que os sentidos nele estão implicados ao fornecer seu acesso, sendo o modo natural de ver e falar sobre coisas como árvores e a lua.
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Há um acordo prevalecente de que os entes acessíveis através da aisthesis têm o caráter de ousia, devendo-se por isso, no campo desses entes, empreender primariamente a investigação da estrutura da própria ousia.
β. Ousia como Ser: Caracteres de Ser (Metafísica, Delta 8)
21. Não se pode, neste ponto, perseguir em detalhe o que tal pesquisa do ser dos entes em seus caracteres de ser mostra, querendo-se, para efeito de orientação, extrair alguns caracteres de ser, e então a multiplicidade dos significados de ousia, onde ousia significa o ser de um ente, tomando-se o Capítulo 8 do Livro V da Metafísica como base de orientação quanto aos caracteres de ser que a pesquisa aristotélica do ser exibe.
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Considerar-se-ão os caracteres de ser aí enumerados, tendo em vista se e como o sentido de ser que se descobriu no significado corrente de ousia, a saber, “patrimônio”, de algum modo também fala nesses caracteres de ser, e também se vários aspectos de entes no sentido de entes característicos que estão aí vêm à expressão nos caracteres de ser, do modo como o patrimônio, o domicílio, inicial e majoritariamente aí está de modo premente.
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Pergunta-se pelos caracteres de ser para ver se também são caracteres no sentido do aí.
22. Aristóteles introduz o Capítulo 8 com a enumeração dos somata, querendo com isso mostrar o solo a partir do qual se inicia toda a investigação do ser dos entes.
23. Ele designa, primeiro, o hypokeimenon como o primeiro caráter de ser, sendo entes como animais, plantas, seres humanos, montanhas e o sol tais que já “jazem aí”, “de antemão”, hypo.
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Ao falar sobre eles, ao exprimir algo sobre um animal, ao descrever uma planta, aquilo sobre que falo, o discutido, aquilo que tenho ali no falar, está de tal modo que está à disposição, já jazendo aí de antemão, tendo o ser dos entes o caráter de estar-à-disposição.
24. O segundo caráter é aition enyparchon, “aquilo que também está à disposição nele” nesse modo de ser, na função do aition tou einai, sendo a psyche um tal caráter de ser.
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Dizer que a alma é ousia é dizer que ela é um caráter de ser que está à disposição num ente no sentido mencionado, estando também a alma à disposição nele de tal modo que ela também constitui o ser específico daquilo que se chama vivo, sendo responsável por, ou constituindo, o ser específico de um ente vivo, a saber, de um modo de ser no sentido de ser-em-um-mundo.
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Os dois aspectos básicos são krinein e kinein, não estando um ser vivo simplesmente à disposição (como acessível a qualquer um), mas estando aí em seu estar-à-disposição num modo explícito, podendo ver, fazer, mover-se a si mesmo, sendo os dois aspectos dessa ousia krinein, “separar-se” de outra coisa, orientar-se num mundo, e kinein, “mover-se nele”, estar-envolvido-nele, ir-ao-redor-e-conhecer-o-caminho-nele.
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Ao falar-se de filosofia grega deve-se, assim, ter cuidado com a famosa “substancialidade” da alma, significando ousia um modo de ser, e, se a alma é chamada ousia, isso remete a um modo distintivo de ser, a saber, o ser do vivo.
25. O terceiro caráter, morion enyparchon, é representado, por exemplo, pela superfície de um corpo, pois, se se remove a superfície de um corpo do aí, o corpo é, com isso, retirado, já não estando mais aí.
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A superfície constitui, então, o Dasein e o possível Dasein de um corpo, assim como a linha constitui o possível Dasein de uma superfície, sendo a superfície, enquanto aspecto de um corpo, o tipo de caráter de ser que Aristóteles também designou horizon, “o circunscrito”.
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O corpo é circunscrito pelo caráter de ser do morion enyparchon, isto é, os entes são determinados em seu ser, sendo isso possível apenas porque o limite, para os gregos, é um caráter inteiramente fundamental do Dasein dos entes, sendo a limitação um caráter fundamental do aí.
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Esse aspecto do horizon é semainon tode ti, “designando” o ente, na medida em que está à disposição, como um “isto aí” de tal modo que esse “isto aí” é visível, determinável, apreensível em sua sendidade.
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Já que a circunscrição desempenha o papel peculiar de determinar os entes em seu ser, segue-se que alguns tiveram a ideia de descrever como ousia o limite “em geral”, ou o “número” no sentido mais amplo, tendo os pitagóricos, assim como os platônicos, visto no número a ousia genuína, os números como ousiai, sendo algo numérico, ou quantitativo, que circunscreve os entes enquanto tais, não sendo eles substâncias, demônios que existem ao redor de nós.
26. O quarto caráter, to ti en einai, não foi inventado por Aristóteles, tendo antes sido transmitido a ele pela tradição, sendo um caráter de ser, especificamente aquele caráter com base no qual o logos enquanto horismos aborda os entes, sendo o to ti en einai em particular o tema do horismos.
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Não se deve esperar aqui uma compreensão extensiva desse caráter de ser, mas talvez ela apareça ao final da preleção, caracterizando-se apenas o significado desse caráter de ser e seu contexto de modo inteiramente superficial com o seguinte: ele remete ao “ser”, isto é, ao “quê-ser tal como ele já era”, significando um ente em si mesmo, isto é, com respeito àquilo que ele já era, de onde ele provém em seu ser, com respeito à sua proveniência, ao seu ter-vindo-a-ser aí.
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O to ti en einai é, por isso, o “ser de um particular”, ousia hekastou, o que não é “tudo”, nem mesmo “o que é singular” ou “o que é individual”, tendo-se, com tais traduções, ido por caminho errado, significando hekas “longe”, e hekastou “aquilo que é particular” na medida em que a isso me detenho, na medida em que o vejo a certa distância.
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O que é particular não é precisamente o que é visto inicial e diretamente, mas é acessível apenas quando tomo certa distância dele, apresentando-se ele a mim desse modo nessa distância, sendo ta kath'hekasta os aspectos que constituem a particularidade de um ente, tornando-se presentes apenas na medida em que se ocupa uma distância a partir dele.
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No trato natural, os objetos familiares não estão realmente aí para mim, passando eu por cima deles ao vê-los, não tendo eles o caráter de presença, sendo por demais cotidianos, desaparecendo eles, por assim dizer, de meu Dasein cotidiano, podendo apenas com algum acontecimento de espécie incomum aquilo com que trato diariamente tornar-se subitamente objetivado para mim em sua presença.
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A particularidade não é inicial e diretamente dada, sendo requerido tomar distância para ver a cotidianidade em seu Dasein, para tê-la presente, sendo os caracteres de ser que explicitamente mostram o ente que está aí em seu Dasein, que constituem o caráter de aí do ser, determinados no to ti en einai de Aristóteles.
27. Aristóteles distingue, então, dois tropoi, “modos básicos”, em que a ousia é empregada: primeiro, o hypokeimenon eschaton, aquilo que já está aí para todo trato com ele, e, segundo, os entes no caráter de tode ti on, a respeito dos quais digo “isto aí”, choriston, estando “em seu próprio lugar”, estando à disposição “independentemente”.
28. Essa independência é expressa pelo eidos, “aquilo que é visto, avistado”, o “aspecto”, o “aparecer” de um ente, sendo aquilo que aqui vejo, e identifico como estando aí à disposição independentemente, aparece como uma cadeira, e é, por isso, para os gregos, uma cadeira.
γ. Ousia como Ser-Aí: Caracteres de Ser como Caracteres do Aí
29. Estando-se no processo de uma enumeração de caracteres de ser, convém agora ver como uma concepção determinada do aí se exprime nesses vários caracteres de ser, e assim como esses vários caracteres de ser são caracteres plenamente determinados do sentido do aí tal como os gregos o compreendiam, já se tendo um fio condutor para isso no significado corrente de ousia no sentido do “disponível”, do “presente”, daquilo que está à disposição no sentido de “patrimônio” ou “posse”.
30. Tenta-se alcançar uma orientação básica para os caracteres de ser examinando em que medida todos esses caracteres aparentemente diferentes de ser estão ligados enquanto caracteres do aí, significando ousia “ser-aí”, não possuindo um sentido indiferente de ser, já que, em última instância, tal coisa não existe, sendo a ousia a abreviação de parousia, “ser-presente”.
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O oposto costuma ser apousia, “ausência”, não simplesmente nada, mas algo aí, ainda que aí como falta, sendo estrábico um assunto de ver no modo da apousia, sendo a apousia a base ontológica da categoria básica de steresis.
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Tenta-se trazer os caracteres mencionados do aí a uma orientação básica.
31. O primeiro caráter é o hypokeimenon, “estar-à-disposição”, a “disponibilidade” de algo, estando esse caráter de ser conectado ao ser no sentido do significado corrente.
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Significa aquilo que está aí não apenas como Dasein, mas também aquilo que está aí no sentido daquilo sobre o que repousa o patrimônio, por exemplo, terra, solo, céu, natureza, árvores, aquilo que está à disposição no sentido dos entes com que a vida concreta extrai sua existência (Dasein).
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A ousia é, assim, disponibilidade, sem que eu mesmo precise fazer algo diante do ser desses entes que estão aí.
32. O segundo caráter é aition (tou einai) enyparchon, por exemplo a psyche, sendo a “alma” ousia no sentido de que ela constitui o Dasein dos entes que têm o caráter de vivos.
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Um ente vivo tem um Dasein inteiramente característico: primeiro, ele está aí no sentido do hypokeimenon, estando à disposição como pedras e mesas.
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Mas o ser humano não está aí no caminho do modo como uma pedra está, passeando antes o ser humano sob as árvores, encontrando-o em algum lugar, mas sendo esse seu Dasein como ocorrência, como “mundo”, caracterizado pelo fato de que seu Dasein se dá no modo do ser-no-mundo, dando-se isso por ter uma orientação.
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O ser humano está aí de tal modo que está no mundo, no sentido de que tem seu mundo, tendo seu mundo na medida em que nele sabe se orientar, distinguindo-se a psyche, enquanto caráter de ser, por compreender em si o ser enquanto hypokeimenon.
33. O terceiro caráter é morion enyparchon, aquilo que constitui o possível ser de algo, por exemplo o ponto, a linha, o número, enquanto caráter de ser genuíno, já que número é limitação, sendo número, ponto etc. caracteres de ser apenas na medida em que se pode demonstrar que, para os gregos, limite e ser-limitado são caracteres de ser genuínos.
34. O quarto caráter, to ti en einai, essa combinação já aponta para o fato de que aqui se trata de todo um complexo de determinações de ser, que serão mais tarde ordenadas, sendo o ser no caráter de to ti en einai o tema genuíno daquele logos que agora se discute como horismos, sendo esse caráter de ser o de hekaston, determinando-se todo ente que está aí em sua particularidade através do to ti en einai.
35. Na recapitulação dos caracteres de ser há ainda um quinto: eidos, já tendo, para Aristóteles, eidos o sentido de “espécie”, não se compreendendo por que significa “espécie”, e por que genos significa “gênero”, se não se sabe que eidos é um caráter de ser inteiramente determinado.
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Significa inicialmente o ente que está aí em seu “aparecer”, assim como um mestre-construtor constrói uma casa, vivendo e operando ele inicialmente no eidos da casa, no modo como ela se parece.
36. O to ti en einai tem em si a determinação do en: o Dasein de um ente, e de fato tendo em vista o que ele era, sua proveniência.
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Se o ser humano é determinado como zoon logon echon, o falar advém desse modo de seu zoon-, de ser um “ser vivo”, sendo este seu genos.
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Vejo um ente que está aí com respeito a seu ser, do modo como ele está aí como provindo de…, vendo eu um ente que está aí genuinamente em seu ser quando o vejo em sua história, sendo o ente que está aí desse modo, como aí desse modo provindo de sua história para o ser, completo, tendo chegado ao seu fim, à sua completude, assim como a casa está completa em seu eidos enquanto poioumenon.
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O hypokeimenon já está completo, não precisando eu produzi-lo, tendo o corpo sua completude através da superfície.
37. Estar-aí significa, portanto, resumidamente: primeiro, presença, presente; segundo, ser-completo, completude, os dois caracteres do aí para os gregos, devendo-se interpretar todos os entes, quanto a seu ser, a partir desses dois caracteres.
