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obra:ga17:ga17-38-40-ilusao

GA17:38-40 – ILUSÃO

** e) O falar e o mundo em suas possibilidades de engano. O deslocamento do significado de φαινόμενον para a ilusão **

1. Esse logos que traz em si mesmo a possibilidade fundamental do engano explica o fato de que todo perceber está em perigo de se equivocar na medida em que é dominado pela linguagem, isto é, os phainomena, enquanto existentes no mundo factual, são aquilo diante de que o homem, na maior parte das vezes, se encontra equivocado.

  • Em outras palavras, o que a princípio apenas se apresenta, fazendo-o de modo direto e imediato, torna-se agora algo que apenas assim parece, algo que apenas assim semelha (scheint).
  • Não é por acaso que, para Aristóteles, phainomena, enquanto base para investigações ulteriores, significa os próprios entes existentes, mas pode também significar “o que apenas assim parece” (phainomenon agathon, o que parece bom).
  • Esse deslocamento do significado da palavra phainomenon — que primeiro significa “o próprio ente existente mostrando-se” e depois significa “o que apenas assim parece”, portanto não efetivamente existente — remete, na medida em que se situa no âmbito da lida com o mundo, ao fato básico de que, na própria existência, erro e engano estão entretecidos de modo inteiramente fundamental, e não apenas emergem no mundo como uma propriedade deficiente a ser superada.

2. Na medida em que o falar existe como vocalizar, ele é capaz de enganar, sendo, de fato, tomado como existente em um mundo que, em seu caráter específico de ser, apresenta possibilidades de engano, o falar capaz de enganar no sentido de que, na existência do mundo como um todo, há uma conexão interna que constitui a possibilidade de ser do engano.

  • Na medida em que o falar está aí no mundo, ele se coloca sob um respeito determinado que é tomado sem qualquer reflexão ulterior, sendo a existência humana tomada aqui nesse respeito, a saber, que por meio do falar algo é dito, fazendo o falar em si mesmo a reivindicação de comunicar.
  • O falar existe de tal modo que aquele que fala tem diversas possibilidades de esconder-se no próprio falar: 1. a possibilidade explícita, na qual quem fala fala com a tendência explícita de mentir; 2. a possibilidade tal que se pretende, por meio do falar, fingir que o falar envolve algum tipo de familiaridade com a matéria.
  • Mesmo onde está presente uma tendência oposta à mentira, subsiste a possibilidade de enganar por meio do falar e das palavras.

3. Esse falar, com suas possibilidades de engano, situa-se, como tal, em um mundo que apresenta possibilidades de engano próprias, sendo o mundo capaz de enganar, em primeiro lugar, em virtude de seu caráter circunstancial e do fato de os objetos com que lidamos estarem presentes para nós concretamente em um dado contexto, de modo que se apresenta um conjunto de modos possíveis de discuti-los.

  • O mundo é capaz de enganar, em segundo lugar, em virtude de seu caráter esquivo, obscurecido pela neblina, pela escuridão e coisas semelhantes, sendo dados de fato dessa espécie inerentes ao próprio modo de ser do mundo.
  • Há, além disso, possibilidades de ser que enganam com base em seu ser específico, como os sonhos e outros semelhantes.

4. Para o falar, subsiste ainda o perigo de que ele esteja aí junto com outro falar, tornando-se uma forma de repetir mecanicamente (Nachsprechen), um modo de falar-junto (Mitsprechen), um domínio peculiar que a linguagem exerce na medida em que suprime a lida com as próprias matérias.

  • Desse modo, torna-se evidente um entrelaçamento abundante de possibilidades de engano como possibilidade de ser, entretecido com a existência do falar e com a existência do mundo, devendo-se notar que o falar é precisamente aquilo que oculta a matéria.
  • Assim, o mundo existente é ocultado e encontrado de um modo específico de passar-se por outra coisa, na medida em que o falar e as opiniões sobre as coisas guiam facticamente nosso acesso ao que primeiro está aí.
  • Na medida, então, em que o mundo existe com essa possibilidade de mostrar-se, essa possibilidade se inverte em seu oposto: passar-se por algo, tornando-se o aparecer de algo, no sentido originário de mostrar-se, a ilusão desse algo.
  • Importa, por razões de conteúdo, compreender essa possibilidade do deslocamento do significado do termo phainomenon para o significado daquilo que apenas assim parece.
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