§50
** § 50. Retomada das características do cuidado do conhecer que foram percorridas, com indicação da própria existência em termos de algumas determinações fundamentais **
1. Pretende-se tentar resumir o que se obteve no curso do exame com respeito ao ser do cuidado e recapitular o que se revela nos diversos caracteres do cuidado como modo de ser do existir enquanto tal, querendo-se igualmente recapitular o que se viu nesses caracteres do cuidado, em particular no cuidado do conhecimento, quanto ao caráter de ser da existência.
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Em conexão com esse resumo e com uma interpretação mais ampla do cuidado como um modo de existir, deparar-se-á com uma conexão fundamental entre o próprio ser do cuidado e aquilo de que esse cuidado cuida, aquilo que está genuinamente sob seu cuidado: o existir como tal.
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Por esse meio, obter-se-á uma concepção mais primordial da conexão já encontrada em Descartes, então construída de modo apressado e formal, a saber, que a consciência é um ente que é ao modo de ter-se-consigo-mesmo, tomando Husserl esse dado de fato como base para a elaboração do caminho, do método da própria investigação fenomenológica.
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Vê-se nisso uma determinação peculiar do ser do cuidado e, com ela, da própria existência, na medida em que o cuidado é um modo de existir.
2. No apelo da fenomenologia “às próprias coisas”, “coisa” significa um ente na medida em que é encontrado como característico de uma região possível para uma ciência, sendo cada ente visto através da ciência, o estético, por exemplo, através da história da arte, tal como é capaz de estar aí sob a forma de um objeto.
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O princípio parece assim ter uma tendência radical, mas, do modo como é interpretado, ele bloqueia o caminho e não o abre, não sendo de modo algum evidente por si mesmo, nem dado sem mais nem menos, como se poderia abrir a existência, pelo simples fato de se colocarem de lado preconceitos facilmente detectáveis.
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Surge, correspondentemente, a tarefa de explicitar a existência em seu ser, mas primeiro é preciso desenvolver e assegurar o próprio ponto de partida para essa tarefa, não sendo essa tarefa uma investigação metódica, mas uma investigação de tipo concreto.
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Neste exame introdutório, procurou-se, desde o início, dirigir o olhar para um fenômeno específico da existência, a saber, o conhecer, especificando-o como o cuidado do conhecer, estando a caracterização dos diversos conceitos de verdade (do ser ao modo do ser-desvelado ao ser-verdadeiro no sentido de um valor e sua explicitação) conectada ao ser para o qual a verdade vale como proposição e validade.
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Esse é um fio do fenômeno básico que permaneceu em foco desde o início e que se designa “existência”.
3. Um trecho de investigação bem mais importante refere-se ao agathon, devendo ser submetida a um exame crítico a medida em que essas conexões são obtidas a partir do olhar para a existência.
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Por sua vez, essas duas investigações orientadas para o agathon e o alethes devem ser reconduzidas a um contexto de ser mais primordial, o contexto daquilo que foi tratado pela ontologia grega, podendo-se, na medida em que todas as investigações são reconduzidas nessa direção e, portanto, em última análise, ao modo como os homens são, designar também esse processo como antropologia.
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Contudo, se assim se o designa, não é no sentido da análise de Dilthey por meio de exposições históricas, mas antes no sentido de uma investigação principalmente voltada a conexões categoriais.
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Ao se tentar retomar o que foi percorrido, e fazê-lo de tal modo que se dirija a atenção explicitamente ao cuidado de conhecer como um modo de existir e, com isso, à própria existência, e ao se atentar para a medida em que os caracteres explicitados quanto ao cuidar são determinados como característicos do ser da existência, retoma-se o caminho no sentido de tomar a demonstração do descuido como um meio de apontar para a própria existência em termos de suas determinações fundamentais.
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O que emerge no curso dessa demonstração não deve ser buscado como um resultado somatório e uma teoria, consistindo antes o modo genuíno e único de deliberar sobre o que se obteve em torná-lo fecundo para o cultivo do solo em que a investigação concreta deve ser conduzida, em aguçar o olhar para o que está diante dele, em interrogar a existência quanto às suas categorias de ser.
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Quanto mais primordialmente a situação se desenvolve por si mesma e se torna transparente para si mesma, tanto mais evidente e compreensível se torna o que deve ser submetido a uma interpretação, devendo o que aqui se expõe ser tomado unicamente nesse sentido metódico.
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Isto é, especificou-se o cuidado ao indicá-lo formalmente como um modo de existir, sendo o cuidado tomado, em uma instância específica e concreta, como o cuidado com o conhecimento, devendo-se agora visualizar concretamente essas duas determinações: o cuidado como um modo de existir no cuidado do conhecer.
** a) Três grupos de caracteres do cuidado a respeito do saber já conhecido e sua determinação como unidade **
4. Para esse propósito, limitemo-nos a um caráter do ser do cuidado, caráter obtido no curso da demonstração do caráter fundamental do cuidar: o ser do cuidado com a certeza como um ser-desvelador.
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Interpretar-se-ão os caracteres do cuidar já estabelecidos como caracteres do existir, unicamente em relação a esse caráter fundamental, devendo-se recordar que 1. o ser-desvelador foi tomado como o movimento primário do cuidado com a certeza; [sendo que os demais caracteres incluíam] 2. o ater-se ao desvelado; 3. o configurar, o elaborar aquilo a que se ateve; 4. o comprometer-se com o que foi elaborado; e 5. o perder-se naquilo com que o cuidado se comprometeu.
5. Viu-se anteriormente como o cuidado com a certeza pode ser caracterizado como descuido e enredamento, e que o cuidado com a certeza se mantém em um movimento peculiar, movimento no qual o existir sai do caminho, tendo-se deixado a interpretação nesse nível.
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Não se passou a ver o caráter do descuido e o do enredamento do lado do existir, importando agora destacar o cuidado com a certeza em seu movimento concreto como um ser-desvelador com respeito a seus caracteres específicos de cuidar, e compreendê-los como caracteres do ser da existência.
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A interpretação que agora se dará tem a deficiência de ser exposta unilateralmente, sem as conexões concretas que devem ser trazidas à vista a partir da interpretação do agathon.
6. Os caracteres do cuidado que emergiram da interpretação do cuidado com a certeza, na medida em que é desvelador, podem ser assim relacionados: três deles já foram desdobrados, mas, no curso posterior do exame, adiou-se a elaboração dos caracteres restantes.
7. O primeiro grupo é: o modo como o cuidado com a certeza, em seu regimento, ultrapassa a si mesmo (seus limites), um autoexceder-se que se equivoca a respeito de si mesmo, sendo dada, junto com essas determinações, uma tranquilização (Beruhigung) na medida em que o certum esse, como possibilidade de ser, é desviado para o esse creatum como bonum, e, com isso, assegurado por meio de seu ser-criado.
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O quarto caráter é o do mascaramento.
8. O segundo grupo abrange as características do deslocamento (Verlegen), do surgimento da falta de necessidade da indagação quanto ao caráter do ser, e do decair (Verfallen).
9. O terceiro grupo abrange as características do obstruir e do desviar.
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Cada um desses três grupos remete a um caráter específico do modo como o cuidado com a certeza é.
** α) O autoexceder-se, o equivocar-se a respeito de si mesmo, o tranquilizar-se e o mascaramento como afastamento do ser **
10. Quanto ao primeiro, no primeiro grupo, o crescente cuidado com a certeza mostra-se de tal modo que faz um desvio para uma estação intermediária bastante específica, que se pode especificar como seu afastamento do ser (Seinsferne).
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O que primariamente importa ao cuidado com a certeza é a validade e um caráter vinculante, mas aquilo de que algo vale, o próprio ente, não vem primariamente à vista, não lhe sendo dado o seu devido lugar.
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Ao mesmo tempo, porém, o próprio modo de ser do conhecer não é indagado quanto ao seu ser, nem é profundamente abalado em seu ser, parecendo que esse seria o caso, e é precisamente a busca [por um primeiro princípio indubitável] que faz parecer assim.
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Contudo, essa eversio (reviravolta), essa aparência de abalar profundamente toda possibilidade de conhecimento, é realizada com base em sua tranquilização precedente, na medida em que o certum esse é assegurado como bonum.
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A eversio e a passagem pelo caminho da dúvida são o mascaramento peculiar que o cuidado com a certeza proporciona a si mesmo, como se um fundar radical de fato lhe importasse, transportando-se o cuidado, por meio desse mascaramento, para onde quiser.
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Ele se dá a aparência de ser radicalmente científico, ocupado com a formação da ciência, entendida como validade universal e como o que é universalmente vinculante para todo ente.
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O cuidado com a certeza permanece assim no modo do mascaramento, no caráter vinculante daquilo que pode ser dito pública e atualmente sobre um ente, sem visualizar primariamente o próprio ente como tal, sendo tudo visto na ideia de ciência, a reforma da ciência na ideia do certum.
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Caracteriza-se essa estação intermediária do cuidado como seu afastamento do ser, afastamento tanto do ser do mundo quanto, ainda mais, do ser da própria existência enquanto tal.
** β) O deslocamento, o surgimento da falta de necessidade e o decair como ausência da temporalidade da existência **
11. Quanto ao segundo, o deslocamento e o surgimento da falta de necessidade, que o fator do descuido contém em si mesmo, retratam um novo fator do ser do cuidado.
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Graças ao modo como o cuidado com a certeza reside na validade e na preocupação com proposições vinculantes, e graças à ciência que assim se torna célebre, o acesso ao ser fica definitivamente deslocado e desfigurado (verstellt), na medida em que é tomado como passando através da ciência.
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Em consequência, o cuidado, residindo desse modo, torna-se, desde o início, desprovido de necessidade no sentido de não indagar de todo aquilo com que trabalha (todo o fundamentum da ontologia antiga) quanto à sua adequação e à sua origem, não perguntando de modo algum pela adequação daquilo que esse cuidado, repetidamente, se coloca como tarefa.
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Isso significa, porém, que a tradição não é ela mesma vista de todo como tradição; se se mantém em vista o que a tradição atinge e como o faz, então a tradição é explícita.
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Na medida em que isso não é o caso e o tradicional é assumido de tal modo que todo o trabalho de fundamentação é assumido, é evidente que a tradição foi perdida de vista.
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Na medida em que a tradição vem do passado e a visibilidade do passado falta no presente e não ganha vida, a temporalidade da existência permanece ausente sob diversos respeitos.
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Isso é evidente pelo fato de Descartes apreender o cogito unicamente como uma res cogitans, como uma multiplicidade de cogitationes, uma multiplicidade de matérias unidas pelo ego, sem sequer a menor menção a uma extensão temporal entre o nascimento e a morte.
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O cuidado da certeza, como cuidado com a certeza, é ao mesmo tempo uma preocupação para que a temporalidade permaneça ausente, o que significa, contudo, não encontrar a existência como tal, sendo o cuidado com a certeza um deslocamento do ser.
** γ) O obstruir e o desviar como nivelamento do ser **
12. Quanto ao terceiro, ao lado do afastamento do ser e da ausência de temporalidade, o último grupo nomeado, o obstruir e o desviar, fornece uma terceira determinação do ser do cuidado com a certeza: o nivelamento do ser.
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Na medida em que o cuidado com a certeza, como cuidado com a validade e o caráter vinculante de uma proposição, reside na formação da ciência, os entes são concebidos como uma totalidade definida de regiões possíveis, alcançáveis por meio de um conjunto de ciências.
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Desde o início, todo o ser é abordado como um conjunto de regiões de ser, alcançáveis por proposições válidas, sendo, nesse processo, a própria existência transportada para o mesmo campo uniforme de ser a que os entes pertencem.
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Por esse meio, em sentido explícito e, de fato, no contexto do cuidado científico, o cuidado com a certeza obstrui a possibilidade de que o ser da existência pudesse ser encontrado em sua própria possibilidade, conforme o modo como ela é, antes dessa classificação primária.
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O cuidado com a certeza desvia toda questão sobre o ser para uma questão sobre o ser-um-objeto para a ciência, decidindo-se, dentro dessa direção da questão básica, toda questão de ser.
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Em relação à existência, isso significa que o próprio cuidado com a certeza reduz todo ser a um único e mesmo nível.
** b) A fuga da existência diante de si mesma e o desvelamento de seu ser-em-um-mundo, o soterramento de qualquer possibilidade de encontrá-la, a distorção como movimento básico da existência **
13. Esses três caracteres — o afastamento do ser, a ausência de temporalidade e o nivelamento — devem ser vistos em conjunto, como uma determinação básica da própria existência, colocando-se a questão de como a existência se torna evidente enquanto tal nessa determinação.
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1. Esses três caracteres do cuidado com a certeza (a própria certeza como um modo de existência) revelam a existência como algo que foge diante de si mesma, de tal modo que, em fuga de si mesma, ela também providencia a possibilidade de ocultar a existência.
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2. A existência foge diante de si mesma e soterra suas possibilidades de encontrar-se a si mesma, tornando-se agora evidente, nesse movimento básico da existência, o achado básico discutido anteriormente.
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Torna-se evidente que o cuidado, na medida em que está voltado para algo de que cuida, cuida também de sua própria existência no curso de cuidar de algo, e aqui, no modo da fuga diante da existência, ele também cuida de soterrar a própria existência, de tornar impossível um encontro com ela.
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Para nós, torna-se evidente aí um movimento básico e peculiar da própria existência, valendo, porém, esse movimento para cada cuidado concreto, podendo esse caráter básico, um dos pontos de orientação para uma interpretação fundamental da existência, ser terminologicamente caracterizado como distorção (Verdrehen).
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O que se pretende dizer com isso é que, desde o início, a existência não pode ser primariamente tomada em sentido algum por meio do fenômeno da intencionalidade, estando esse fenômeno, desde o início, dirigido a ver algo em direção a algo.
14. Quer-se agora tornar mais claro o que significa que a estrutura de ser da existência reside na estrutura do distorcer, pretendendo-se fazer isso concebendo de modo mais incisivo o que se pode extrair do movimento específico de ser como um estar-em-fuga diante de si mesma.
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Na medida em que aqui se trata do cuidado com a certeza, e a certeza está voltada para apreender o mundo, isso significa que todo modo de estar voltado para algo por meio de apreendê-lo, toda instância de determinar o que o mundo é, é sempre, de algum modo, um modo de co-determinar o modo de ser do próprio conhecer, seja explicitamente ou não.
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Cada ser enquanto apreender, cada conhecer é, visto a partir do fenômeno básico da distorção, uma interpretação da própria existência, isto é, contudo, que o ser da existência (no sentido do modo de ser do cuidado com a certeza) foge diante de si mesma com respeito a ser conhecida, com respeito a ser interpretada.
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Aquilo diante de que o cuidado foge é a existência enquanto pode ser conhecida e interpretada, significando o ser no sentido de ser-em-um-mundo o ser-desvelado, o estar visivelmente em um mundo, sendo diante do desvelamento da existência que o cuidado empreende a fuga.
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Uma tentativa que não veio a se realizar é o alethes da ontologia grega, sendo esse alethes o vislumbre dos gregos para o desvelamento (Entdecktheit), mas foi por sua vez ocultado pelos próprios gregos.
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Quer-se visualizar o que significa que a existência foge diante de si mesma, e, de fato, com respeito à sua determinação básica de ser-desvelada, de estar visivelmente em-o-mundo, fornecendo ao mesmo tempo o fenômeno do desvelamento a ocasião para conceber ainda mais incisivamente em que medida a historicidade é uma determinação básica da própria existência.
15. Deve-se mostrar como, com base nos caracteres estabelecidos do cuidar, fatores específicos no modo como a própria existência é movida podem ser determinados, e, de fato, determinados em relação a si mesma.
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Dividiram-se os caracteres do cuidar, como cuidado com a certeza, em três grupos, e extraiu-se de cada um desses três grupos um movimento específico.
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O modo de ser do conhecer, como cuidado com a certeza, reside em um afastamento peculiar do ser, isto é, em uma posição que não deixa esse conhecer, assim caracterizado, aproximar-se de seu próprio ser, mas antes interroga todo ente quanto ao seu caráter de poder ser certo.
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O cuidado de conhecer, como cuidado com a certeza, tranquiliza-se com essa mesma certeza.
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O segundo grupo compreende o deslocamento, o desenvolvimento das características da falta de necessidade, o movimento do cuidado como ausência de temporalidade, sendo o fator característico nessa conexão a relação desse ser com a tradição.
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O que importa a esse cuidado do conhecer é encontrar um fundamento, e, no entanto, é precisamente esse cuidado que assume, sem qualquer crítica ulterior, todo o acervo de determinações ontológicas que fornecem o solo para o ser desse próprio cuidado.
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Assim se revela toda a tradição, a tradição a partir da qual o cuidado do conhecer desenvolveu esse ideal de ciência como algo não mais adquirido em sentido primordial, significando a ausência da apropriação explícita da tradição que o próprio conhecer, em seu ser, não tem clareza sobre suas próprias possibilidades de ser.
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Pois somente onde um ente se vê em sua situação é que a tradição que o atinge pode tornar-se explícita.
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O último grupo de características determina então o fator mais amplo do movimento, o fator que se caracteriza como o nivelamento do ser, sendo todo ente visto em termos de um único nível básico e uniforme de ser, e ditado o interesse decisivo pela ciência, pelo sistema da ciência.
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Os entes são vistos a partir da perspectiva da ideia do sistema da ciência, sendo, desse ponto de vista, os entes divididos em um conjunto de regiões.
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Por esse meio, toda determinação de ser e, em particular, a da existência, já se move em um nível que já não é adequado a uma indagação genuína sobre o ser, mas está antes voltado unicamente para conceitualidades e proposições a respeito delas.
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Esses caracteres tipificam o ser do conhecer, a saber, o ser do conhecer como um modo de existir.
16. Na medida em que o conhecer, nos respeitos mencionados, está afastado dos entes como tais e, em particular, do ser da existência (portanto, de si mesmo), esse modo de ser-movido caracteriza o movimento da fuga da existência diante de si mesma.
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Esse movimento da fuga da existência diante de si mesma não é um que simplesmente se afaste da existência em direção à residência específica da ciência, estando, junto com essa fuga diante de si mesma, a existência preocupada em deslocar-se a si própria.
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O encontro da existência consigo mesma enquanto existência é tornado impossível por essa ontologia, configurando a preocupação com a ideia de ciência uma ontologia específica, à qual se apega como a única possibilidade de interrogar a existência, havendo a tendência a soterrar a própria existência.
17. Com a caracterização desse fator de “fuga” da existência, revela-se um fenômeno básico da existência, que se designa “a distorção”, sendo inerente a esse fenômeno o fato de que o ser no sentido da existência não é caracterizado por uma estrutura como “algo se relaciona com algo”, [ou] “eu me comporto para com” um objeto.
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Antes, esse fenômeno diz que o ente que se pretende captar com “consciência” é o tipo de coisa que, ao posicionar-se para com o mundo, está também preocupada com sua própria existência, não sendo necessário que apareça uma reflexão explícita sobre o “eu”.
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Uma preocupação com o próprio existir reside na matéria que se persegue, e, onde a reflexão falta, o fenômeno se revela em seu sentido mais próprio.
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Precisamente então se torna evidente que essa distorção é um modo pelo qual o ser genuíno do cuidado está incluído no objeto de preocupação, tornando-se evidente pelo fato de que este [o objeto de preocupação] perpassa a existência em seu ser, sendo ela mesma a existência no sentido desse ser.
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Luta-se aqui com uma dificuldade particular da linguagem, uma vez que a existência é o tipo de ser que, se deve ser determinado de modo ontologicamente adequado, não pode basicamente ser determinado como um ser que se tem, mas antes como aquele próprio ser que se é.
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Nisso reside já uma interpretação inteiramente específica do ente como o ente existente, e, de fato, esse caráter mostra uma possibilidade do ser da existência, sendo o ente que se é o ente que traz em si mesmo a possibilidade de tornar-se “eu sou”.
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Essa possibilidade, contudo, não precisa residir explicitamente na existência, estando, de fato, a existência voltada a bloquear essa possibilidade.
18. Esse fenômeno básico da distorção, um fenômeno básico há muito determinado como reflexão, é aqui visto concretamente, e, de fato, em termos de uma antecipação da estrutura do ser da existência como tal.
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Para nós, esse fenômeno tem o caráter de uma pista metódica, na medida em que, visto de seu ponto de vista, o caráter básico da consciência, a intencionalidade, é reduzido às suas justas proporções e reconduzido aos seus limites, aos limites de sua função interpretativa.
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Ao mesmo tempo, esse fenômeno é o solo estrutural sobre o qual fenômenos como a alegria, o terror, a tristeza, a angústia podem ser explicitados — fenômenos que são negligenciados se determinados como intencionalidade.
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Não se pode apreender o fenômeno da angústia como um modo de estar-relacionado-com-algo, sendo antes um fenômeno da própria existência.
** c) Facticidade, ameaça, estranheza, cotidianidade **
19. No que diz respeito à situação básica concreta, importa manter em vista o fundamento para o desenvolvimento e a caracterização ulteriores do movimento do cuidado com a certeza como fuga da existência diante de si mesma por meio do ocultar.
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O cuidado com a certeza foge diante da existência na medida em que é possível que a existência seja conhecida, sendo a fuga do conhecer diante da própria existência a fuga do conhecimento diante da existência com respeito à sua possibilidade de ser transparente, interpretada, desvelada.
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A existência está nesse caráter de ser-desvelada, é ser-em-um-mundo, tendo esse fenômeno o caráter de ser de um ente que é ao modo de ser-em-um-mundo como ser no aí (Da).
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Diz-se também de uma pedra: “ela está aqui”, mas ela está aqui na vizinhança de meu mundo, na vizinhança de meu ser que está no mundo ao modo de ter o mundo em vista (in der Weise des die Welt Sichtig-habens).
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“Ter em vista” significa que o ente que está no mundo está em vista junto com ele (Mit-sichtig-sein), exprimindo-se esse ser-em-vista-junto-com-o-mundo no aí (Da), estando a existência (Dasein) aqui e agora, em sua respectividade (Jeweiligkeit), sendo fática.
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A facticidade não é uma instância concreta de algum universal, mas antes a determinação primordial de seu ser específico enquanto existência.
20. Ao se olhar mais de perto o fenômeno da fuga da existência diante de si mesma ao modo do ocultar, tal como o sentido da existência é interpretado nessa fuga do ser diante de si mesmo, torna-se evidente que a existência é do tipo que resiste a si mesma.
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Esse modo de defender-se-contra-si-mesma não é uma contingência da existência, mas antes constitui o seu ser, residindo na própria existência aquilo contra que ela se defende, a ameaça.
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A ameaça contra a qual a existência se defende reside no fato de que ela é, sendo o fato de que ela é a própria ameaça da existência, vendo-se esse fenômeno da ameaça, com respeito ao resistir a si mesma ao modo da fuga e do ocultar, na limitação particular do cuidado com a certeza.
21. Se agora se coloca a questão do que é aquilo contra que a existência se defende e do que seja de fato a ameaça diante da qual a existência foge, toma-se o índice para a consideração a partir da direção da fuga e do modo de ser do fugir.
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O cuidado com a certeza caracteriza o ser da existência como tal e, quanto a ele, o que importa é desaparecer em alguma tranquilização, algum asseguramento reconfortante, residindo nessa tendência do cuidado com a certeza o cuidado que se tem de tranquilizar o próprio ser do conhecer.
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Para tornar a matéria concretamente visível, é preciso recorrer à segunda possibilidade: o cuidado da curiosidade, esse mesmo cuidado do conhecer que foi, em particular, o guia do conhecer grego.
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No conhecer, o que importa é tornar-se familiarizado com um ente, estar em casa com ele em um modo de existir que foi assegurado, isto é, contudo, que, na medida em que uma familiaridade [com os entes] no mundo é aquilo para onde (wohin) a fuga foge, aquilo diante de que (Wovor) a existência foge por meio do cuidado com a certeza é uma estranheza (Unheimlichkeit, um não estar em casa).
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A estranheza é a ameaça genuína a que a existência está submetida, sendo a estranheza a ameaça que reside na própria existência, exibindo-se a estranheza na cotidianidade da existência.
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Esse fenômeno da estranheza nada tem a ver com a solidão, com uma incapacidade de participação que impede alguém disso ou daquilo, tornando-se ela invisível assim que a existência se perde na reflexão sobre si mesma.
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Ela se torna obscurecida se se concebe a existência no sentido de uma personalidade, sendo a estranheza, se se pergunta o que ela é, nada; se se pergunta onde ela está, lugar nenhum.
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Ela se exprime na fuga da existência diante de si mesma como a fuga para a familiaridade e para a tranquilização.
