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GA17:10-13 – OBSCURIDADE

Dunkelheit

** b) Phainomenon como aquilo que se mostra de si mesmo (das Sichzeigende), seja na luz do dia, seja na escuridão **

1. O conceito de phainomenon não se restringe à presença das coisas durante o dia, abrangendo de modo mais amplo tudo aquilo que se mostra de si mesmo, seja na luz do dia, seja na escuridão.

2. A determinação do que seja a escuridão não é tão simples quanto pareceria a uma argumentação superficial, pois, se a luz do dia (diaphanés) é aquilo que deixa as coisas serem vistas e a escuridão (adiaphanés) aquilo que não as deixa, a própria escuridão também deixa ver algo, havendo coisas visíveis somente na escuridão.

  • Nem tudo o que é visível se mostra na luz, mas apenas a cor própria de cada coisa, havendo coisas que não se veem na luz e que, no entanto, produzem percepção na escuridão, como aquilo que aparece com aspecto ígneo.

3. A diferença entre a escuridão e a luz do dia só pode ser compreendida a partir de uma distinção fundamental da filosofia aristotélica, a saber, entre o ente em ato (entelécheia) e o ente em potência (dynámei on), sendo a escuridão um dynámei on, algo inteiramente positivo, o que torna equivocado, frente a Aristóteles, afirmar simplesmente que a escuridão é aquilo que não deixa ver, pois a escuridão também deixa ver.

  • Na medida em que a escuridão é um modo de “estar ausente”, ela deve ser designada como stérēsis, como privação daquilo que deveria efetivamente estar presente.
  • O ser da escuridão consiste em ser luz do dia em potência; a impossibilidade de apreender essa estrutura peculiar decorre de a doutrina das categorias não ter desenvolvido tais categorias primordiais.

4. Os conceitos fundamentais da filosofia (Grundbegriffe), tal como percorrem seu curso no desenvolvimento histórico, não constituem propriedade ou posse da filosofia que se possa manter à margem desse desenvolvimento, tornando-se antes um destino funesto (Verhängnis) na medida em que a consideração e a interpretação do ente em sua totalidade permanecem perpassadas por conceitos reduzidos a mera posse de palavras, o que assinala o grande perigo de se filosofar hoje em palavras e não sobre as coisas mesmas.

5. Phainomenon e lógos exprimem um dado de fato (Sachverhalt), tornando-se somente mais adiante inteligíveis os motivos, na própria existência, pelos quais phainomenon pode assumir o sentido de “aparência”, assim como se tornará compreensível de que modo uma filosofia tornada superficial e que desliza em palavras apreende os entes existentes como “aparência de algo”, não possuindo Aristóteles uma metafísica tão ingênua, razão pela qual toda tentativa atual de criticar a fenomenologia com a palavra “aparência” em mãos constitui empreendimento infundado contra o qual só cabe protestar.

6. Phainomenon é aquilo que se mostra de si mesmo como existente, sendo encontrado pela vida na medida em que esta se relaciona com seu mundo de tal modo que o vê, que o percebe justamente na aísthesis, distinguindo-se os ídia aisthetá, percebidos em sentido estrito, daquilo que é percebido katá symbebekós, isto é, imediatamente, de tal modo que algo mais já está desde o início dado junto, sendo somente assim possível ver casas, árvores, seres humanos.

  • Para retornar aos ídia, é necessário assumir uma atitude isolada e artificial, sendo a expressão phaínesthai já designativa daquilo que foi percebido katá symbebekós.
  • Se o sol se mostra, ele está aí com um pé de largura; ele não apenas parece ter essa largura.

7. O caráter primordial do ver em Aristóteles evidencia-se no fato de ele não se deixar desorientar pela falta de um nome abrangente para as coisas que somente a noite deixa ver, como os vaga-lumes, importando-lhe apenas que essas coisas estão aí, que são vistas e que, com base em seu conteúdo factual, reivindicam ser tomadas como existentes.

  • O visível é a cor, e aquilo que pode ser articulado em um discurso, ainda que se encontre desprovido de nome.
  • A ausência de nome para tais coisas indica que a linguagem, enquanto doutrina das categorias, é uma linguagem do dia, o que vale particularmente para a língua grega e se liga ao ponto de partida básico de seu pensamento e de sua formação conceitual.
  • Não se pode remediar essa lacuna construindo uma doutrina das categorias da noite, sendo antes necessário retroceder a um ponto anterior a essa oposição para compreender por que o dia possui essa prioridade.

8. A expressão pará tá phainómena (além dos fenômenos), recorrente em Aristóteles, evidencia o caráter próprio da pretensão (Anspruch) que phainomenon comporta e daquilo que nele é apreendido, de sorte que, quando se trata explicitamente de apreender o ente, de retê-lo, de assegurar o que se mostra em si mesmo, permanece-se no âmbito da ciência, contexto em que o sentido de phainomenon culmina naquilo que se mostra em si mesmo com a pretensão explícita de servir de fundamento a todo questionamento e explicitação ulteriores, cabendo à ciência sózein tá phainómena, salvar os fenômenos, pelo que aquilo que se mostra em si mesmo é alçado a uma posição fundamental.

  • A ciência tem a tendência de apreender e demonstrar os entes existentes sem deixar nada encoberto, e ser um homem de ciência significa estar posicionado de modo específico frente ao ser do mundo.
  • Essa atitude (héxis) comporta duas determinações que se pertencem mutuamente: a familiaridade com as coisas submetidas à ciência (epistéme toû prágmatos) e uma certa formação (paideía), isto é, estar educado de modo a saber conduzir-se no campo da investigação científica.
  • Quem possui a paideía pode decidir com segurança se aquele que empreende uma investigação está apenas tagarelando ou se o que transmite emerge da própria coisa.
  • Com base nessa paideía deve-se decidir que tipo de investigação convém precisamente ao objeto, cabendo estabelecer se, como fizeram os pensadores antigos, se deve pospor o ser e as determinações do ser do objeto para falar primariamente da gênese, ou não.
  • A resposta é simples: somente depois de estabelecido o fundamento da investigação pode-se avançar para a questão da origem e do porquê da origem.
  • Na construção de uma casa, o primeiro a se estabelecer é a forma (eîdos) e somente depois a matéria (hýlē), significando eîdos causar uma impressão, o que constitui o ser da casa em seu entorno enquanto casa, seu aspecto, seu “rosto”.
  • Phainomenon é o próprio ente.
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