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SERENIDADE

Resumo de Gelassenheit

Discurso Memorial

  1. Registra-se a ocasião do discurso, proferido em 30 de outubro de 1955 em Messkirch, por ocasião do cento e setenta e cinco aniversário do compositor Conradin Kreutzer, com agradecimento inicial à terra natal, ao prefeito Schühle e ao privilégio de proferir a alocução memorial.
  1. Apresenta-se a reunião como homenagem ao compositor Conradin Kreutzer, natural da região, afirmando-se que honrar um criador exige honrar devidamente sua obra, o que, no caso de um músico, se faz pela execução de suas composições.
  1. Observa-se que as composições de Kreutzer ressoam ainda hoje em canto e coro, em ópera e em música de câmara, sendo nesses sons que o próprio artista se faz presente, pois a presença do mestre na obra é a única presença verdadeira, e quanto maior o mestre, mais completamente sua pessoa desaparece atrás de sua obra.
  1. Afirma-se que os músicos e cantores participantes da celebração são garantia de que a obra de Kreutzer será ouvida na ocasião.
  1. Questiona-se se isso por si só constitui uma celebração memorial, uma vez que celebrar significa pensar, indagando-se o que cabe pensar e dizer num memorial dedicado a um compositor, já que a música “fala” pelo soar dos tons sem necessitar da linguagem das palavras.
    • Reconhece-se, contudo, que tocar e cantar por si sós não bastam para tornar a celebração pensante, razão pela qual se incluiu no programa um “discurso memorial” destinado a fazer pensar tanto no compositor quanto em sua obra.
    • Observa-se que tais lembranças ganham vida ao se narrar a biografia e as obras de Kreutzer, mas que tal narrativa, por si mesma, apenas entretém, não exigindo reflexão sobre o que concerne imediata e continuamente ao próprio ser de cada um, de modo que nem mesmo um discurso memorial garante que se pense numa celebração memorial.
  1. Adverte-se contra a ilusão de que estejamos isentos dessa falta, afirmando-se que todos, inclusive os que pensam profissionalmente, são amiúde pobres de pensamento (gedankenarm) e demasiado facilmente irrefletidos (gedankenlos), sendo a irreflexão (Gedankenlosigkeit) um hóspede inquietante que percorre o mundo de hoje, na medida em que tudo se absorve do modo mais rápido e barato, apenas para ser esquecido tão rapidamente quanto, multiplicando-se as celebrações cada vez mais pobres em pensamento.
  1. Esclarece-se que, mesmo na irreflexão, não se abandona a capacidade de pensar, mas ela permanece em pousio, à semelhança de um campo, o que só é possível porque o homem, em seu âmago, possui a capacidade de pensar, tem “espírito e razão” e está destinado a pensar, podendo apenas perder ou desvincular-se daquilo que possui, sabendo-o ou não.
  1. Conclui-se que a crescente irreflexão deve, portanto, provir de um processo que corrói a própria essência do homem contemporâneo: sua fuga do pensar (Flucht vor dem Denken), fuga da qual faz parte o não ver nem admitir, chegando o homem a negar categoricamente tal fuga, alegando com razão jamais ter havido planos tão amplos nem pesquisa tão apaixonada como hoje.
  1. Reconhece-se a grande utilidade e o caráter indispensável desse pensar planejador e investigativo, esclarecendo-se, porém, tratar-se de um pensamento de espécie particular.
    • Explica-se que sua peculiaridade consiste em sempre calcular com condições dadas, tendo em vista fins determinados, de modo que tal cálculo (Berechnung) caracteriza todo pensar que planeja e investiga, mesmo sem recorrer a números ou máquinas, correndo sempre de uma possibilidade a outra, sem jamais deter-se ou recolher-se.
    • Distingue-se esse pensamento calculante (rechnendes Denken) do pensamento meditante (besinnliches Denken), que contempla o sentido reinante em tudo que é, afirmando-se haver, assim, dois modos de pensar, ambos justificados e necessários à sua maneira.
  1. Identifica-se o pensamento meditante como aquele do qual o homem contemporâneo estaria em fuga, antecipando-se a objeção de que tal pensar flutuaria alheio à realidade, seria inútil para os negócios correntes e nada acrescentaria à prática.
  1. Antecipa-se ainda a objeção de que o pensamento meditante estaria “acima” do alcance da compreensão comum, reconhecendo-se apenas parcialmente verdadeiro esse argumento, pois o pensar meditante tampouco surge por si mesmo, exigindo por vezes esforço maior, mais prática e cuidado mais delicado que qualquer outro ofício genuíno, devendo saber aguardar, como o agricultor, se a semente há de germinar e amadurecer.
  1. Afirma-se, contudo, que qualquer pessoa pode seguir o caminho do pensar meditante à sua maneira e dentro de seus limites, pois o homem é um ser pensante, isto é, meditante, bastando deter-se no que está próximo e meditar sobre o que é mais próximo, sobre o que a cada um concerne aqui e agora, neste pedaço de terra natal, nesta hora presente da história.
  1. Pergunta-se o que sugere essa celebração a quem estiver disposto a meditar, observando-se que uma obra de arte floresceu no solo da terra natal, recordação que remete de imediato aos grandes poetas e pensadores nascidos da terra suábia nos últimos dois séculos, e, por extensão, da Alemanha Central, da Prússia Oriental, da Silésia e da Boêmia.
  1. Indaga-se, tornando-se mais pensativo, se o florescimento de toda obra genuína não dependeria de suas raízes num solo nativo, citando-se Johann Peter Hebel, para quem os homens são plantas que, queiram ou não admiti-lo, devem elevar-se com suas raízes da terra para florescer no éter e dar fruto — sendo o éter, nesse sentido, o ar livre dos altos céus, o âmbito aberto do espírito.
  1. Questiona-se, tornando-se ainda mais pensativo, se essa afirmação de Hebel ainda vale hoje: se o homem ainda habita tranquilo entre céu e terra, se um espírito meditativo ainda reina sobre a terra, se existe ainda uma pátria vivificante em cujo solo o homem possa permanecer enraizado, isto é, autóctone.
  1. Constata-se que muitos alemães perderam sua pátria, tendo sido expulsos de suas aldeias e cidades, ao passo que inúmeros outros, cuja pátria foi preservada, migraram para o turbilhão das grandes cidades e se instalaram em zonas industriais desertificadas, tornando-se estranhos à antiga pátria; e mesmo os que nela permaneceram encontram-se, com frequência, ainda mais desabrigados que os expulsos, acorrentados hora a hora ao rádio e à televisão, arrastados semanalmente pelo cinema a esferas ilusórias que simulam um mundo que não é mundo, cercados por revistas ilustradas e por técnicas de comunicação hoje mais próximas do homem que os campos de sua fazenda, o céu sobre a terra, a alternância do dia e da noite ou os costumes e tradições de seu mundo nativo.
  1. Pergunta-se, tornando-se mais pensativo ainda, o que está de fato ocorrendo tanto com os expulsos de sua pátria quanto com os que nela permaneceram, respondendo-se que o enraizamento, a autoctonia (Bodenständigkeit) do homem, encontra-se hoje ameaçada em seu próprio núcleo, e que essa perda não decorre apenas de circunstâncias ou negligência, mas brota do próprio espírito da época em que todos nasceram.
  1. Indaga-se, então, se ainda se pode esperar que a obra do homem floresça no solo fértil de uma pátria e ascenda ao éter, ou se tudo cairá sob o domínio do planejamento, do cálculo, da organização e da automação, propondo-se refletir sobre o que verdadeiramente caracteriza a época atual.
  1. Denomina-se essa época nascente de era atômica, cujo símbolo mais evidente é a bomba atômica, símbolo do óbvio apenas, uma vez que se reconhece de imediato a possibilidade de usos pacíficos da energia atômica, já vislumbrados por físicos nucleares, grandes corporações industriais — a começar pela Inglaterra — e pela própria ciência nuclear, que proclama publicamente uma nova era de felicidade, como o fizeram dezoito laureados Nobel reunidos em julho daquele ano no Lago Constança, ao afirmarem que a ciência é caminho para uma vida humana mais feliz.
  1. Questiona-se o sentido dessa afirmação, negando-se que ela decorra de reflexão ou pondere o significado da era atômica, pois nos contentarmos com tal enunciado científico nos afasta de qualquer compreensão reflexiva de nossa época, dado que se esquece de perguntar qual o fundamento que possibilitou à técnica moderna descobrir e liberar novas energias na natureza.
  1. Atribui-se essa possibilidade a uma revolução conceitual em curso há séculos, originada na filosofia moderna, pela qual o homem foi situado numa relação inteiramente nova com o mundo: este passa a aparecer como objeto exposto aos ataques do pensamento calculante, e a natureza torna-se um gigantesco posto de gasolina, fonte de energia para a técnica e a indústria modernas — relação técnica com o mundo surgida apenas no século dezessete e apenas na Europa, permanecendo longamente desconhecida em outros continentes e alheia a épocas anteriores.
  1. Afirma-se que o poder oculto na técnica moderna determina hoje a relação do homem com o ente, dominando toda a terra e já impulsionando o homem para além dela, rumo ao espaço sideral, tendo-se descoberto, em menos de vinte anos, fontes de energia atômica tão colossais que assegurarão para sempre as demandas energéticas futuras da humanidade, tornando-se em breve possível construir usinas atômicas em qualquer ponto da terra, sem dependência de determinados países ou continentes.
  1. Constata-se que a questão decisiva da ciência e da técnica já não é onde encontrar combustível suficiente, mas de que modo domar e dirigir as quantidades inimagináveis de energias atômicas, garantindo à humanidade segurança contra o perigo de que tais energias, mesmo sem ação militar, escapem subitamente ao controle e destruam tudo.
  1. Prevê-se que, uma vez bem-sucedida a domesticação da energia atômica — o que se afirma há de ocorrer —, iniciar-se-á uma era de desenvolvimento técnico radicalmente nova, sendo apenas rudimentar o que hoje se conhece como tecnologia do cinema, da televisão, dos transportes, sobretudo aéreo, da informação, e como tecnologia médica e nutricional, avançando o progresso técnico cada vez mais rápido e sem possibilidade de detenção, cercando o homem em todas as esferas de sua existência por forças técnicas que, por não terem sido feitas por ele, já ultrapassaram havia muito sua vontade e sua capacidade de decisão.
  1. Observa-se que também é característico desse novo mundo técnico que suas realizações se tornem rapidamente conhecidas e publicamente admiradas, distinguindo-se, porém, entre meramente tomar conhecimento de algo lido ou ouvido e efetivamente compreendê-lo, isto é, meditar sobre ele.
  1. Cita-se a declaração do químico americano Stanley, proferida no encontro internacional de laureados Nobel em Lindau, no verão de 1955, segundo a qual estaria próxima a hora em que a vida seria posta nas mãos do químico, capaz de sintetizar, dividir e alterar a substância viva à vontade, observando-se que tal afirmação costuma ser recebida com admiração e assombro diante da audácia da pesquisa científica, sem que se reflita sobre o fato de que se prepara, por meios tecnológicos, um ataque à vida e à natureza do homem comparado ao qual a explosão da bomba de hidrogênio pouco significaria, pois é justamente quando essas bombas não explodem e a vida humana é preservada que se abate sobre o mundo uma mudança inquietante.
  1. Esclarece-se que o verdadeiramente inquietante não é a tecnificação total do mundo, mas o despreparo do homem diante dessa transformação, sua incapacidade de confrontar meditativamente o que realmente desponta nesta época.
  1. Afirma-se que nenhum homem isolado, nenhum grupo, nenhuma comissão de estadistas, cientistas ou técnicos proeminentes, nenhuma conferência de líderes do comércio e da indústria é capaz de frear ou dirigir o curso da história na era atômica, sendo nenhuma organização meramente humana capaz de dominá-la.
  1. Pergunta-se se o homem seria, então, uma vítima indefesa e perplexa diante do poder irresistível da técnica, respondendo-se que assim seria apenas se abandonasse a intenção de opor decisivamente o pensar meditante ao mero pensar calculante, devendo o pensar meditante, uma vez despertado, permanecer incessantemente ativo em toda ocasião — inclusive aqui e agora, nesta própria comemoração, na qual se considera o que está especialmente ameaçado na era atômica: a autoctonia das obras humanas.
  1. Indaga-se se, mesmo com a perda do antigo enraizamento nesta época, não se poderia conceder ao homem um novo fundamento a partir do qual sua natureza e suas obras pudessem florescer de modo inédito, mesmo na era atômica, sugerindo-se que a resposta buscada talvez esteja bem próxima, tão perto que facilmente se ignora, pois o caminho para o que está próximo é sempre o mais longo e árduo para os homens — sendo esse o caminho do pensar meditante, que exige não se apegar unilateralmente a uma única ideia nem seguir um curso de pensamento de via única, mas engajar-se com aquilo que, à primeira vista, não parece combinar em nada.
  1. Propõe-se um ensaio nesse sentido, reconhecendo-se que os aparatos, dispositivos e maquinismos da técnica são, em maior ou menor grau, indispensáveis a todos, sendo tolice atacar cegamente a técnica ou condená-la como obra do demônio, uma vez que dependemos de dispositivos técnicos, que inclusive nos desafiam a avanços cada vez maiores, embora repentina e inadvertidamente nos encontremos tão firmemente atrelados a eles que caímos em servidão.
  1. Sustenta-se, contrariamente, ser possível utilizar os dispositivos técnicos e, mesmo assim, mantermo-nos suficientemente livres deles a ponto de poder abandoná-los a qualquer momento, usando-os como devem ser usados e ao mesmo tempo deixando-os de lado como algo que não afeta nosso núcleo interior e verdadeiro, afirmando o uso inevitável desses dispositivos e, simultaneamente, negando-lhes o direito de nos dominar e de deformar, confundir e devastar nossa natureza.
  1. Rejeita-se a objeção de que tal duplo movimento de afirmação e negação tornaria ambivalente e insegura nossa relação com a técnica, sustentando-se, ao contrário, que essa relação se tornaria admiravelmente simples e distendida, deixando entrar os dispositivos técnicos em nossa vida cotidiana e, ao mesmo tempo, deixando-os de fora, isto é, deixando-os em paz como coisas que nada têm de absoluto, mas permanecem dependentes de algo superior — denominando-se essa atitude, que diz simultaneamente “sim” e “não” à técnica, por uma antiga palavra: serenidade para com as coisas (Gelassenheit zu den Dingen).
  1. Sustenta-se que essa atitude proporciona visão clara, permitindo notar que, embora a produção e o uso das máquinas exijam uma relação diferente com as coisas, tal relação não é desprovida de sentido, exemplificando-se com a agricultura, hoje transformada em indústria motorizada de alimentos, evidenciando-se aí, como em toda parte, uma mudança profunda na relação do homem com a natureza e o mundo, mudança cujo sentido permanece obscuro.
  1. Afirma-se existir, em todos os processos técnicos, um sentido não inventado nem produzido pelo homem, que reclama aquilo que ele faz e deixa de fazer, permanecendo desconhecido o significado do domínio inquietantemente crescente da técnica atômica, pois o sentido que permeia a técnica se oculta a si mesmo; contudo, ao se atentar explícita e continuamente para o fato de que esse sentido oculto nos toca em toda parte no mundo da técnica, situamo-nos de imediato no âmbito daquilo que se oculta de nós justamente ao se aproximar de nós, traço essencial daquilo que se denomina mistério — chamando-se abertura ao mistério (Offenheit für das Geheimnis) à atitude que nos permite permanecer abertos ao sentido oculto na técnica.
  1. Afirma-se que serenidade para com as coisas e abertura ao mistério pertencem conjuntamente, concedendo a possibilidade de habitar o mundo de modo inteiramente diverso, prometendo um novo fundamento sobre o qual se possa permanecer e perdurar no mundo da técnica sem ser por ele ameaçado, oferecendo a visão de uma nova autoctonia capaz, um dia, de recuperar em forma transformada a antiga autoctonia hoje em rápido desaparecimento.
  1. Reconhece-se que, por ora — sem se saber por quanto tempo —, o homem encontra-se em situação perigosa, não por poder eclodir inesperadamente uma terceira guerra mundial e provocar a aniquilação completa da humanidade e a destruição da terra, mas porque, nesta aurora da era atômica, ameaça um perigo ainda maior precisamente quando o perigo de uma terceira guerra mundial houver sido removido — asserção estranha apenas enquanto não se medita.
  1. Explica-se o sentido dessa asserção: a maré crescente da revolução tecnológica da era atômica poderia cativar, enfeitiçar, ofuscar e iludir de tal modo o homem que o pensar calculante viesse um dia a ser aceito e praticado como o único modo de pensar.
  1. Descreve-se o grande perigo que então se abateria: a maior engenhosidade no planejamento calculador andaria de mãos dadas com a indiferença ao pensar meditante, numa irreflexão total, e o homem teria então negado e lançado fora sua própria natureza específica de ser meditante — estando em jogo, por isso, a salvaguarda da essência do homem e a manutenção viva do pensar meditante.
  1. Ressalva-se que serenidade para com as coisas e abertura ao mistério jamais acontecem por si mesmas nem nos sobrevêm por acaso, florescendo apenas mediante um pensar persistente e corajoso.
  1. Sugere-se que a presente celebração memorial possa impelir nessa direção, de modo que, respondendo a esse impulso, se pense em Conradin Kreutzer pensando na origem de sua obra, nas forças vivificantes de sua pátria do Heuberg, sendo nós mesmos quem verdadeiramente pensa, na medida em que nos reconhecemos, aqui e agora, como aqueles que devem encontrar e preparar o caminho para dentro da era atômica, através dela e para além dela.
  1. Conclui-se que, se serenidade para com as coisas e abertura ao mistério despertarem em nós, poderemos alcançar um caminho conducente a um novo fundamento, no qual a criatividade produtora de obras duradouras poderá lançar novas raízes, devendo renovar-se, assim, de modo diverso e numa época transformada, a verdade das palavras de Johann Peter Hebel: somos plantas que, queiramos ou não admiti-lo, devem elevar-se com suas raízes da terra para florescer no éter e dar fruto.
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