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GA13 Caminho do Campo

Aus der Erfahrung Denkens (1910-1976) [1983]

  • O caminho parte do portão do jardim do solar em direção ao Ehnried, ladeado pelas tílias centenárias que o acompanham por sobre o muro em todas as estações, dobra ao longo do bosque e cumprimenta um alto carvalho sob o qual há um banco toscamente carpinteirado.
  • Nesse banco repousavam, vez por outra, escritos dos grandes pensadores que uma torpeza juvenil tentava decifrar; quando os enigmas se acumulavam sem saída, o caminho do campo ajudava, conduzindo o passo por trilha serena através da largura da terra árida.
  • O pensamento retorna sempre ao mesmo caminho traçado pelo percurso rural, tão próximo ao passo do pensador quanto ao passo do lavrador que parte ao amanhecer para a ceifa.
  • Com os anos, o carvalho à beira do caminho evoca a memória dos primeiros jogos e das primeiras escolhas; quando uma árvore caía no bosque, o pai buscava os metros de madeira destinados à sua oficina, onde trabalhava cuidadosamente nos intervalos do serviço ao relógio da torre e aos sinos — dois objetos que têm uma relação própria com o tempo e a temporalidade.
  • Da casca do carvalho os meninos faziam navios que velejavam nos córregos; as viagens imaginárias do jogo chegavam facilmente ao destino e voltavam às margens, protegidas por um brilho tênue que encobria todas as coisas e pelo cuidado não pronunciado da mãe, que parecia guardar toda a essência do mundo.
  • Com o tempo, a dureza e o cheiro da madeira de carvalho passaram a falar mais claramente da lentidão e da constância com que a árvore cresce: crescer significa abrir-se para a amplidão do céu e, ao mesmo tempo, enraizar-se no escuro da terra, e tudo o que é sólido só prospera quando o ser humano está disponível ao apelo do céu mais alto e resguardado pela terra que o sustenta.
  • O caminho recolhe tudo o que ao seu redor tem essência e o traz a cada um que por ele passa; campos e encostas de pastagem o acompanham em cada estação com uma proximidade sempre renovada, e em meio a toda essa diversidade — do pôr do sol alpino às primeiras flores de primavera, da névoa ao carro de colheita — ressoa sempre o mesmo aceno: o simples guarda o enigma do permanente e do grande.
  • O aceno do caminho do campo fala apenas enquanto houver seres humanos nascidos em sua atmosfera que possam ouvi-lo; quem não está ordenado a esse aceno tenta em vão ordenar o globo por seus planos, e o perigo do tempo presente é que os contemporâneos se tornaram surdos para essa linguagem, ouvindo apenas o ruído dos aparelhos, que quase tomam pela voz de Deus — e assim o ser humano se dispersa e perde o caminho.
  • Embora diminua rapidamente o número dos que ainda conhecem o simples como bem conquistado, os poucos que o possuem serão os permanentes, capazes de suportar, pela suave força do caminho do campo, as gigantescas forças da energia atômica que o cálculo humano forjou como grilhão do próprio agir.
  • Na atmosfera do caminho do campo, que muda com as estações, prospera a serenidade sapiente — que parece melancólica ao olhar de fora, mas é o único saber que ninguém conquista se já não o possui; nela se encontram a tempestade de inverno e o dia da colheita, a primavera inquieta e o morrer sereno do outono, o jogo da juventude e a sabedoria da velhice, tudo harmonizado em um único acorde que o caminho carrega silenciosamente.
  • A serenidade sapiente é uma porta para o eterno, cujas dobradiças foram forjadas pelos enigmas do Dasein; o caminho retorna ao portão do jardim sob o brilho pálido das estrelas, e os onze badalos da velha torre ressoam vagarosos na noite, tornando o silêncio ainda mais silencioso — um silêncio que alcança os que foram sacrificados antes do tempo nas duas guerras mundiais.
  • Diante desse silêncio aprofundado, o simples se torna ainda mais simples, o sempre-igual estranha e libera, e o aceno do caminho se faz inteiramente claro: tudo fala a renúncia ao mesmo, e a renúncia não toma — dá, dá a força inesgotável do simples e torna o ser humano familiarizado com uma longa origem.
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