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Être et temps (Martineau)

Avant-propos du traducteur (resumo)

  1. A tradução integral de Ser e Tempo foi realizada entre julho de 1984 e fevereiro de 1985, sendo totalmente independente das duas tentativas parciais anteriores – a de Henry Corbin (1937) e a de Boehm e Waelhens (1964) –, das quais nenhum leitor conseguiu, por si só, compreender ou estudar a obra.
  2. A obra foi publicada originalmente em fevereiro de 1927 e conheceu treze edições pela editora Niemeyer durante a vida do autor, além de uma edição póstuma pela Klostermann como parte da Gesamtausgabe, seguida de uma décima quarta edição Niemeyer supostamente idêntica a ela.
  3. A escolha da edição-base para a tradução recaiu sobre a melhor versão publicada pelo próprio autor, sendo a edição da Gesamtausgabe descartada por conter cerca de 300 modificações introduzidas por editores, não pelo próprio Heidegger.
  4. As edições N1 a N13 dividem-se em dois blocos distintos – N1-6 e N7-13 –, com o segundo contendo mais de 480 divergências em relação ao primeiro, incluindo correções ortográficas, alterações sintáticas, novos grifos e supressões de partículas enfáticas.
  5. A opção pela tradução a partir da décima edição (N10, 1963) justifica-se pelo respeito à vontade do autor e pela constatação de que as modificações introdutas a partir de N7 visam corrigir erros do texto, não reinterpretar a obra.
  6. A apresentação do volume foi deliberadamente despojada de notas exegéticas, palavras alemãs entre parênteses, prefácios doutrinários e remissões a volumes posteriores da Gesamtausgabe, pois a obra de 1927 é a fonte primordial de todo acesso ao pensamento heideggeriano.
  7. A paginação marginal reproduzida no volume é a das edições N, consagrada convencionalmente como referência de citação, à semelhança do que ocorre com a Crítica da Razão Pura de Kant.
  8. O índice ao final do volume reúne as transposições do vocabulário técnico de Heidegger e apresenta um sistema de traduções coerente e novo, fundado na exigência de restituir sempre o mesmo termo alemão pelo mesmo equivalente francês.
  9. A manutenção do termo Dasein sem tradução não exige justificativa particular, pois o próprio Heidegger afirmou a Jean Beaufret que ele é intrinsecamente intraduzível, tal como o logos grego ou o tao chinês.
  10. A tradução de vorhanden por “sous-la-main” e de zuhanden por “à-portée-de-la-main” é contestada por J.-F. Courtine, que prefere retornar ao léxico dos primeiros tradutores de Ser e Tempo, alegando maior clareza na distinção entre os dois modos de ser.
  11. O argumento de Courtine baseia-se na obra Problemas Fundamentais da Fenomenologia, onde Heidegger associa o Vorhandenes ao que é “manuseável” ou “vem à mão”, tornando necessária a manutenção da referência à mão na tradução; mas esse argumento não valeria para contextos em que a Vorhandenheit explicita conceitos como o Dasein kantiano ou a existentia de Suárez.
  12. Courtine qualifica a distinção proposta entre “sous-la-main” e “à-portée-de-la-main” de quase imperceptível e sem fundamento, preferindo a oposição “présent-subsistant” versus “disponible”, por considerá-la mais clara e elementar.
  13. A resposta às objeções de Courtine desdobra-se em três ordens de observações – deontológicas, literais e fundamentais –, mostrando que sua polêmica sacrifica sem motivo sério a unidade da terceira geração das traduções francesas de Heidegger.
  14. O argumento tirado da tradução anterior de François Fédier em Temps et Être é improcedente, pois essa tradução data de 1968 e foi feita antes de Fédier adotar a solução posteriormente transmitida ao tradutor; o próprio Fédier “flutuou” antes de chegar à distinção mais precisa.
  15. O retorno sistemático de Courtine ao sistema de Boehm e Waelhens – mantendo transposições como “déchéance” para Verfallen e “finalité” para Bewandtnis – revela um arcaísmo filológico refutado pela notória ilegibilidade da meia-tradução de 1964.
  16. Os termos propostos por Courtine, como “présent”, “subsistant” e “disponible”, correspondem diretamente a outros vocábulos alemães – anwesend, bestehend, verfügbar – e não a vorhanden e zuhanden, o que compromete a clareza que se lhes atribui.
  17. Na linguagem contemporânea marcada pela técnica moderna, “disponible” perdeu a conotação de ustensilidade própria do instrumento e passou a designar qualquer ente à disposição generalizada do homem – como o petróleo ou massas humanas mobilizáveis –, tornando-se sinônimo de “subsistant” e esvaziando a oposição que Courtine pretende estabelecer.
  18. A distinção entre Vorhandenheit e Zuhandenheit não é nem “elementar” nem “clara”; ao contrário, é precisamente essa oposição, e não a da teoria e da prática, que Heidegger passou sessenta anos questionando, o que revela o dogmatismo do senso comum ao declarar a filosofia “clara”.
  19. Tratar a Vorhandenheit como mera “explicação” do conceito latino de existentia equivale a reduzir Heidegger a um glossador, pois ele não “explicita” mas interpreta, isto é, desloca o sentido – tal como faz ao transpor o eidos platônico não por Gesicht mas por Aussehen ou Aussicht.
  20. Traduzir Vorhandenheit por “subsistance” é recusar efetivamente a tradução e cultivar a ilusão de que Heidegger apenas reflete as noções que comenta, quando na verdade as interpreta e determina em seu provir como, por exemplo, ser-sob-a-mão.
  21. O exemplo do guarda-chuva esquecido no banco traseiro do carro ilustra concretamente a distinção: um utensílio de uso intermitente que “está sempre sob a mão” sem ser propriamente usado é um ente em modo de Vorhandenheit, ao passo que a colher de pedreiro em pleno uso pelo operário “está sempre à mão” – à-portée-de-la-main – no interior de um comércio efetivo com o instrumento.
  22. A análise do guarda-chuva mostra que, ao tornar-se necessário por uma gota de chuva, o ente passa do modo de ser-sob-a-mão ao modo de ser-à-mão, sem que isso o reduza à inércia absoluta da coisa objetivada pela ciência física, o que confirma a pertinência e a sutileza da distinção proposta.
  23. A origem das complicações, objeções e timidezas críticas reside numa inexperiência de Ser e Tempo que não é exclusividade do interlocutor; o que o tradutor fez foi abrir um caminho de acesso à obra entre outros possíveis, assumindo sua interpretação e traduzindo – nada mais.
  24. O atraso extravagante com que Ser e Tempo chega ao leitor francês poderia suscitar muitos comentários sobre um “mistério de negligência”, mas essa questão já não oferece interesse; o que importa é que uma página seja virada e que se abra a verdadeira confrontação da França com o pensamento heideggeriano.
  25. A conclusão é selada com as próprias palavras de Heidegger a Henry Corbin: a tradução transpõe o trabalho do pensamento para o espírito de outra língua, transforma inevitavelmente a obra, mas pode tornar essa transformação fecunda ao iluminar de modo novo a posição fundamental da questão – e cada passo nesse caminho é uma bênção para os povos.
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