User Tools

Site Tools


husserliana:ingarden:crise-de-husserl

Krisis de Husserl

Analecta Husserliana 2

O que há de novo na “Crise” de Husserl

1. A distinção corrente entre um Husserl inicial e um Husserl tardio, geralmente associada à “Crise”, exige verificar se essa última obra efetivamente representa a adoção de uma posição filosófica inteiramente nova.

2. A reconstrução do desenvolvimento husserliano permanece prematura diante da publicação incompleta dos manuscritos, mas a posição histórica da “Crise” como última obra destinada ao público filosófico permite compreendê-la sobretudo como síntese e defesa do caminho transcendental inaugurado nas “Ideias”, elaborada após tentativas de fundamentação sistemática e orientada pela esperança de renovar a cultura europeia.

3. A origem da “Crise” em conferências dos anos 1930 e sua relação com a situação política e intelectual alemã conferem à fenomenologia uma missão pública de advertência, renovação interior e defesa da humanidade diante da catástrofe, função historicamente significativa, mas que não acrescenta conteúdo filosófico propriamente novo e pode expor a filosofia a interesses e influências exteriores.

4. Embora a atividade filosófica incessante de Husserl tenha produzido contribuições particulares também na “Crise”, sua orientação principal retoma uma concepção formada mais de vinte e cinco anos antes, exigindo distinguir essas continuidades das inovações que modificam aspectos específicos de seu pensamento.

5. A introdução de problemas relativos à filosofia da história e à historicidade da consciência transcendental constitui uma novidade relevante, aproximando a fenomenologia de perspectivas anteriormente rejeitadas no debate com Dilthey, embora a ausência de análises desenvolvidas impeça avaliar plenamente as transformações que essa orientação poderia produzir.

6. A apresentação da fenomenologia como realização madura e culminação da filosofia europeia expressa uma tendência mais acentuada que nas obras anteriores, mas as interpretações históricas permanecem insuficientemente apoiadas em análises textuais, com exceção do estudo da matematização galileana da natureza, que representa uma contribuição efetiva e duradoura.

7. A orientação central da “Crise” conduz novamente da epoché e da redução à subjetividade transcendental como fundamento exclusivo da filosofia, sem modificar essencialmente a posição das “Ideias”, mas apresentando com menor desenvolvimento analítico teses sobre o caráter intencional do mundo, a crítica do objetivismo e a constituição intersubjetiva, cuja exposição frequentemente assume um tom dogmático ao tratar como resolvidos problemas ainda carentes de demonstração.

8. A distinção mais nítida entre epoché universal e redução transcendental representa uma modificação metodológica importante, pois a primeira suspende as validades da atitude natural e possibilita a investigação, enquanto a segunda reconduz o mundo aos processos subjetivos de constituição de seu sentido e culmina no ego absoluto, embora a afirmação de que seria absurdo investigar além dessa esfera pareça excluir indevidamente as questões de justificação da razão e da validade dos resultados constitutivos.

9. O resultado dessa orientação consiste em conservar o mundo objetivo e sua existência apenas enquanto compreendidos a partir da esfera absoluta da subjetividade transcendental, na qual supostamente possuem seu ser último e verdadeiro.

10. O abandono das questões de justificação altera significativamente a função da fenomenologia em comparação com as “Ideias”, pois a simples descrição das constituições e correlações não equivale à fundamentação de sua validade e pode reduzir a filosofia transcendental a uma psicologia pura, tornando necessário reexaminar os princípios que orientam a investigação desde a consciência originária do tempo até as unidades constituídas de sentido.

11. O mundo da vida não constitui uma descoberta inteiramente nova da “Crise”, pois corresponde fundamentalmente ao mundo da atitude natural já descrito nas “Ideias”, embora sua delimitação pela exclusão das ciências positivas se torne problemática quando os objetos e processos conhecidos cientificamente integram cada vez mais a vida cotidiana e ampliam historicamente o próprio horizonte do mundo vivido.

12. As novidades da “Crise” não justificam reconhecer uma fase inteiramente distinta da fenomenologia nem demonstram que a crise das ciências europeias provenha de decisões puramente teóricas ligadas ao objetivismo, enquanto a grandeza da obra reside sobretudo na perseverança com que Husserl defendeu sua filosofia mediante o trabalho intelectual nos anos finais e mais difíceis de sua vida.

13. O reconhecimento dessa grandeza não dispensa o exame das dificuldades herdadas das “Ideias” e das “Meditações cartesianas”, pois a finalidade pública e sintética da “Crise” impediu a exposição das análises necessárias para resolvê-las e não permite medir a extensão das conquistas husserlianas, especialmente aquelas relativas à consciência do tempo, cuja importância supera os esforços de formulação metodológica da fundamentação transcendental.

14. A afirmação de que seria absurdo investigar além da esfera de evidência alcançada no ego exige esclarecer o alcance dessa interdição e sua compatibilidade com a própria investigação fenomenológica.

15. A exigência de compreender a objetividade, em vez de assegurar sua validade, também necessita de esclarecimento quanto à função que atribui à fenomenologia.

16. A identificação da esfera evidente do ego com a consciência pura deixa indeterminado o sentido em que o mundo da vida se torna subjetivo após a epoché, sobretudo porque a crítica da percepção externa não explica suficientemente como as coisas podem pertencer à imanência da consciência e em que medida permanecem transcendentes ou relativas.

17. A descrição da vida pura do ego como vida intencional inclui na imanência não apenas os atos, mas também tudo aquilo com que eles se relacionam, exigindo que os objetos intencionais e suas implicações sejam apreendidos segundo seus modos subjetivos de manifestação.

18. A inclusão dos objetos intencionais na imanência suscita dificuldades quanto à diferença entre coisas e noemas, pois o caráter relativo da percepção externa parece coexistir com sua suposta apreensão na esfera absoluta da evidência, tornando necessário distinguir o objeto real de seu correlato intencional e esclarecer os diferentes sentidos de imanência.

19. A análise da constituição dos noemas exige retroceder das unidades objetivas evidentes aos perfis perceptivos, às sensações e aos processos temporais de impressão, retenção e protensão que as tornam possíveis, mostrando que investigar níveis inicialmente ocultos da consciência não constitui um absurdo e que a passagem a uma camada constitutiva mais originária não equivale ao abandono da evidência.

20. A expressão metafórica de investigar “por trás” da evidência deve ser distinguida de uma busca pelo absolutamente incognoscível, pois a transcendência pode significar simplesmente não integrar realmente os atos conscientes, sentido no qual até o objeto intencional transcende os atos e os perfis que o apresentam, embora seu conteúdo e seu modo de ser dependam das intenções que o constituem.

21. Um objeto transcendente também ao próprio noema deve possuir em si suas determinações formais e materiais, constituindo um ser em si cuja existência não pode ser rejeitada apenas porque seu conhecimento ocorre por atos conscientes, embora a argumentação husserliana tenda a converter a necessidade dessa mediação cognitiva em dependência ontológica em relação à subjetividade.

22. O fato de conhecer um modo de ser por meio de atos que o apreendem não implica que esses atos produzam a existência do objeto, pois o conhecimento legítimo se distingue da criação poética por sua exigência de conformidade ao que não inventa, distinção que pode ser investigada na própria consciência sem pressupor causalmente uma realidade exterior e que fundamenta as questões de legitimidade necessárias para separar apreensão verdadeira, erro e ficção.

23. A investigação da legitimidade pode permanecer no domínio da imanência e da evidência sem recorrer a pressupostos ingênuos sobre relações causais entre conhecimento e objeto, permitindo examinar se a cognição alcança algo em si ou permanece limitada a meros fenômenos.

24. A investigação das condições do ego torna-se ilegítima quando pressupõe uma substância incognoscível dotada de poderes absolutos de conhecimento, mas evitar essas hipóstases não exige reduzir o ego a um polo vazio ou a uma função dos atos, pois a análise de sua essência pode esclarecer sua autonomia ou sua dependência em relação a um sujeito psíquico.

25. A questão da legitimidade da objetividade é necessária e reaparece nas próprias teses husserlianas sobre a relatividade do conhecimento do mundo, que já representam respostas a esse problema, embora a “Crise” não demonstre suficientemente que a percepção ou a matematização científica sejam incapazes de alcançar um ser em si.

26. A atribuição de caráter subjetivo ao mundo da vida e ao mundo físico não elimina as questões de justificação da razão, mas pressupõe uma resposta negativa quanto à capacidade do conhecimento de atingir objetivamente a natureza exterior.

27. A decisão idealista aparece na “Crise” com maior contundência e menor sustentação analítica que nas “Ideias”, suscitando a preocupação de que a epoché determine antecipadamente a subjetividade do mundo, em vez de apenas abrir um campo de investigação cujos resultados permitiriam decidir de maneira fundada entre idealismo e realismo.

28. A formulação segundo a qual o mundo se transforma em fenômeno por meio da epoché confunde a alteração de seu modo de aparecer com uma mudança de seu ser, pois as coisas se apresentam como independentes da consciência e não podem converter-se em objetos puramente intencionais mediante uma operação reflexiva, que apenas destaca seus correlatos e mantém em aberto a legitimidade da apreensão anterior, ao contrário da criação poética, livre para constituir mundos fictícios.

29. A redução husserliana da realidade a objetos puramente intencionais desconsidera a diferença entre seu modo de ser e o dos objetos autônomos, bem como a dupla estrutura pela qual um objeto intencional possui simultaneamente um conteúdo que apresenta algo e uma organização própria enquanto formação intencional.

30. Os juízos sobre objetos puramente intencionais devem distinguir o conteúdo apresentado da estrutura intencional que o sustenta, pois o caráter de autonomia eventualmente presente nesse conteúdo é apenas atribuído ou visado, enquanto o próprio objeto intencional possui ser heterônomo e não incorpora efetivamente as determinações como o faria um objeto verdadeiramente autônomo.

31. O reconhecimento da diferença formal entre objetos autônomos e intencionais impediria afirmar que a epoché transforma coisas reais em polos de objeto, pois nem a realidade pode tornar-se mera intencionalidade por uma mudança de atitude consciente nem uma formação intencional pode converter-se, por si mesma, em coisa real.

32. A crítica husserliana do objetivismo exige esclarecer se rejeita apenas a pretensão das ciências naturais de alcançar o ser em si ou toda possibilidade de conhecimento objetivo, pois a própria fenomenologia pretende apreender a subjetividade absoluta em sua constituição própria, enquanto a aplicação irrestrita da correlação subjetiva à autorreflexão poderia conduzir a uma sucessão indefinida de novas subjetividades e epochés sem acesso à consciência em si.

33. A possibilidade de que a fenomenologia somente apreenda fenômenos da própria consciência comprometeria seu ideal de ciência rigorosa, mas as formulações da “Crise” deixam essa dificuldade como uma questão inquietante que não pode ser definitivamente confirmada nem resolvida apenas com base na obra.

husserliana/ingarden/crise-de-husserl.txt · Last modified: by 127.0.0.1