2 O Humano
INGARDEN, Roman. Über die Verantwortung: Ihre ontologischen Fundamente. Stuttgart: Reclam, 1970.
Sobre a natureza humana
1. A natureza humana resiste a definições satisfatórias porque a diversidade dos atos, dos caracteres, dos objetivos e das criações humanas ultrapassa as delimitações propostas, enquanto os fatos efetivos podem tanto revelar condutas inferiores às possibilidades propriamente humanas quanto anunciar realizações excepcionais que indicam uma direção de aperfeiçoamento ainda não habitualmente alcançada.
2. A dificuldade de apreender a plenitude da essência humana não elimina a necessidade de uma nova tentativa, mesmo que seu resultado permaneça parcial ou destaque características realizadas apenas em circunstâncias raras.
3. Embora o egoísmo, a utilidade e a crueldade dominem muitas ações humanas, a capacidade de agir exclusivamente pelo bem alheio, sacrificar-se por desconhecidos, reconhecer a indignidade dos próprios atos, buscar reparação, sentir responsabilidade e criar obras apenas por sua beleza revela possibilidades especificamente humanas que não se reduzem à conservação da vida ou à vantagem prática.
4. A natureza humana caracteriza-se sobretudo pela necessidade de conhecer, experimentar intuitivamente e realizar valores, cujo contato proporciona alegria e cuja ausência produz infelicidade profunda, destacando-se os valores morais e estéticos, absolutos em sua qualidade própria, ainda que sua realização dependa da criatividade humana e suas configurações históricas possam variar.
5. Os valores não são simplesmente encontrados na natureza material, pois sua manifestação exige a criação de condições reais que, mediante a transformação das coisas e a produção de processos, constituem o mundo da cultura a partir da antecipação de suas qualidades.
6. O mundo cultural depende da atividade criadora e de bases físicas adequadamente configuradas, mas seu conteúdo ultrapassa essencialmente a natureza ao conferir às coisas qualidades, significações e importância que formam uma atmosfera indispensável à transformação dos atos e da posição humana no mundo, sem a qual a própria existência se tornaria inaceitável.
7. A realidade cultural permite esquecer parcialmente a animalidade e a indiferença da natureza, oferece uma herança que ultrapassa vidas individuais e vincula gerações, mas a satisfação mais plena exige também criar valores com marca pessoal, em um esforço pelo qual o ser humano transforma a si mesmo e se enriquece ao contribuir para uma realidade compartilhada pela humanidade.
8. A criatividade humana não produz obras existencialmente autônomas nem transforma integralmente a natureza em realidade cultural, de modo que essa camada intencional permanece dependente da ação e da consciência e, quando a força espiritual enfraquece, pode desfazer-se e expor novamente a estranheza da natureza, conduzindo à perda do sentido e ao desespero.
9. A natureza humana realiza-se no esforço incessante de ultrapassar a animalidade mediante a humanidade e a criação de valores, pois o abandono dessa tarefa de elevação acima de si conduz à recaída na condição animal e anuncia a morte do humano.
