Husserl
EDMUND HUSSERL (1859-1938)
DEPRAZ, Natalie. Husserl. Paris: A. Colin, 1999.
1. Husserl diante da história da filosofia
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a fenomenologia mantém relação estreita com certo número de gestos fundadores anteriores, inscrevendo essa genealogia, não isenta de ambiguidade, a perspectiva husserliana no cerne do debate ainda muito contemporâneo que opõe os partidários do idealismo aos defensores do empirismo
I. O impulso cartesiano
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definida por seu próprio fundador no início dos anos 30, nas Meditações cartesianas, como um “neocartesianismo”, a disciplina fenomenológica toma de empréstimo ao instaurador da modernidade filosófica dois motivos metodológicos de peso, que virá aliás a renovar em profundidade
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a colocação em prática de uma crítica geral de tudo o que parece se impor de modo excessivamente evidente, a saber, os preconceitos
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a ideia de uma reforma de todos os saberes pela exposição de seu fundamento único no sujeito certo de si mesmo
A. Da dúvida à épochè
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a démarche dubitativa metódica em obra na primeira Meditação metafísica é inaugural, remetendo Descartes nela em questão todas as certezas imediatas, sejam sensoriais ou imaginativas, sejam mediatas, notadamente do tipo geométrico, colocando Husserl seus passos nessa crítica radical dos preconceitos, pressuposições e crenças até se demarcar dela em quatro pontos maiores, ali onde surge a épochè
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da negação à suspensão: enquanto a dúvida rejeita toda verdade concedida aos sentidos e às imagens e denega o valor destas últimas, a épochè apenas as coloca entre parênteses, neutralizando sua validade e suspendendo sua realidade ingênua, passando seu ser a valer no sentido que têm para mim
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da dúvida provisória à épochè definitiva: duvida-se para sair da dúvida, sendo esta instrumento e meio de acesso à certeza verdadeira, um momento destinado a ser superado, ao passo que a épochè é a instalação durável numa atitude de questionamento permanente
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de uma motivação natural a outra transcendental: sou levado a duvidar de tudo pela descoberta do caráter enganador das coisas sensíveis, ao passo que minha motivação para exercer a épochè é interna, dependendo apenas de minha determinação voluntária
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não integralidade da dúvida e universalidade da épochè: duvido de tudo exceto de mim mesmo, permanecendo o ego isento de todo questionamento, ao passo que, com a épochè, até mesmo o eu, enquanto absorvido no mundo, se encontra submetido à suspensão de sua realidade substancial ingênua
B. Do “ego cogito” ao “ego transcendental” a. Uma filosofia voltada para o sujeito
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nas Meditações metafísicas, Descartes se lança a um empreendimento sem precedentes na história da filosofia, tratando-se de procurar às ciências um fundamento que não seja mais da ordem ontológica da natureza ou do cosmos, como na Antiguidade, nem tampouco de tipo divino como na época medieval, mas cujo lugar seja ocupado pelo próprio sujeito
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é preciso, para isso, definir o que se está autorizado a entender por subjetividade humana, esse Eu que fala de si mesmo em primeira pessoa, vendo Descartes no atributo do pensamento (cogitatio) o que especifica em primeiro lugar o ser humano, a ponto de recusar aos demais viventes, os animais, toda faculdade de pensamento, a saber o que ele nomeia “o a propósito”
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é essa certeza indubitável, enunciada na segunda Meditação, segundo a qual não posso deixar de pensar, segundo a qual, mesmo para duvidar, é preciso ser, que fornece ao autor das Meditações a alavanca a partir da qual espera reedificar todo o edifício científico de seu tempo
Husserl, no início do século XX, faz um constatação análoga de dispersão dos saberes e empreende, na esteira de Descartes e radicalizando ainda mais o empreendimento, refundar as ciências, inventando uma cientificidade assentada — paradoxo absoluto para Aristóteles, para quem só há ciência do geral — sobre a subjetividade de um sujeito singular e detentor de uma verdade absoluta sediada em sua intuição internab. A radicalização husserliana
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uma vez descoberto o fundamento, o ego transcendental revela-se mais profundo que o ego cogito, na medida em que o próprio ego aí se encontra submetido à épochè, ruindo o sujeito fundador certo de si mesmo sob sua autocrítica, sendo o ego transcendental, funcional mais que substancial, esse eu mais profundo que o ego cartesiano, cujo sentido reside inteiramente na autointerrogação crítica que o atravessa
II. A referência ao transcendental kantiano A. Pontos de proximidade
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dado o aprofundamento da ideia de subjetividade proposto por Husserl, e a adoção, para tanto, do termo “transcendental”, nada mais esperado que uma referência a Kant, fornecendo a definição constante a partir de 1913 nas Ideias diretrizes… I da fenomenologia como “idealismo transcendental”, se necessário fosse, a prova do papel decisivo desempenhado pela filosofia crítica
a. O idealismo
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Kant e Husserl definem igualmente o conhecimento como a atividade de um sujeito dirigido a um objeto ao qual o primeiro confere seu sentido, apresentando ambos, diante da realidade em si do objeto, uma subjetividade depositária da idealidade requerida para a formação da objetividade, o que significa que conhecer supõe uma capacidade a priori do espírito de encontrar coisas que se tornam para ele objetos conhecidos
b. O transcendental
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um e outro estão em busca das estruturas primárias apriorísticas da subjetividade, tratando-se, em Kant, de condições de possibilidade da experiência (formas a priori do espaço e do tempo/categorias) ou, em Husserl, da constituição da objetividade como doação de sentido ditada pelo ego, desempenhando em ambos os casos a orientação transcendental o papel de um método regressivo em que se remonta do sujeito dado à estrutura originária que lhe é inerente, formando assim o transcendental o horizonte comum das duas démarches
B. De um transcendental a outro
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sob essa comunidade dissimula-se, no entanto, uma divergência profunda dos projetos filosóficos, a ponto de se poder perguntar se não há aí simples homofonia do termo, distinguindo-se a esse respeito o distanciamento do fenomenólogo da avaliação crítica que se está autorizado a fazer por si mesmo
a. O subjetivismo kantiano
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a revolução copernicana operada por Kant, segundo a qual o objeto passa a girar em torno do sujeito e não o inverso, tem por consequência que o sujeito se torna o polo absoluto em torno do qual gira todo objeto cognoscível, encontrando-se aí, segundo Husserl, excesso de peso concedido à subjetividade em detrimento do aparecer da própria coisa em sua dimensão ôntica
b. Das estruturas a priori do sujeito ao ego como indivíduo concreto
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mesmo colocando o sujeito no centro do conhecimento, não é certo que Kant abra por isso caminho para um entendimento transcendental do ego, dizendo respeito o transcendental na filosofia crítica às condições a priori da experiência, a saber as formas, categorias, princípios ou ideias alojados no sujeito lato sensu, mais que ao próprio ego entendido como foco polar de constituição do objeto
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transcendental se opõe assim, em Kant, a empírico, tal como as condições formais se distinguem dos dados da experiência
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em fenomenologia, ao contrário, o ego transcendental constitui um objeto que lhe é dado numa experiência ela mesma transcendental, fazendo assim o idealismo fenomenológico justiça à originalidade da experiência sensível: o ego transcendental é ao mesmo tempo um indivíduo concreto, sendo o próprio ego, enquanto polo unificador das vivências, que é constituinte, e não uma estrutura formal apriorística
III. A ancoragem empirista A. A ambivalência da relação entre a fenomenologia e o empirismo a. Uma crítica radical
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frequentemente se tendeu a insistir sobre a herança racionalista da filosofia de Husserl, em detrimento de sua filiação empirista, notadamente em Locke e Hume, sendo verdade que o próprio Husserl contribuiu para isso ao proceder, desde as Investigações lógicas em 1901, a uma crítica sem apelação de todas as formas de empirismo, sejam os autores do século XVIII inglês, o psicologismo da época, ou ainda, mais tardiamente, o naturalismo ou o objetivismo
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o empirismo é de fato o cavalo de batalha contra o qual Husserl constrói sua análise das vivências gerais da consciência, residindo o argumento maior da crítica no apego inveterado do empirista ao fato particular e contingente e, por consequência, na promoção de uma lei indutiva subsequente de generalização do particular
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para Husserl, ao contrário, não se atinge a generalidade de uma vivência ou de uma categoria pela generalização do fato, mas ao se colocar de saída uma estrutura apriorística e ideal da experiência, daí seu entendimento da fenomenologia como idealismo, opondo-se por isso firmemente à indução generalizadora e à variação eidética
b. A gênese sensível da idealidade
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sem renunciar até o fim a tal crítica da empiria, a atenção se desloca progressivamente, a partir sobretudo dos anos 20, para o processo de surgimento do ideal a partir da experiência concreta do sujeito
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a atitude em relação à empiria muda então: não se opõe mais simplesmente o fato e a essência erradicando o primeiro, faz-se justiça à dinâmica de emergência do sentido a partir da sensibilidade nativa de um sujeito singular
B. O empirismo transcendental a. A não dualidade da consciência e do corpo
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posta fora de jogo pela tradição racionalista anterior, cartesiana e kantiana, a corporeidade vem então encarnar uma consciência transcendental cuja dinâmica concreta se vê restituída: seus gestos corporais, seus hábitos, sua práxis, sua passividade, sua afetividade
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não se opõe mais uma consciência pensante a um corpo receptáculo, mas é a totalidade unitária do corpo e do espírito que se dá inteiramente, em sua qualidade carnal unitária
b. A ausência de oposição entre o idealismo e o realismo
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é aí que Husserl reinveste a tradição empirista inglesa ao conceder um sentido positivo à faticidade da experiência transcendental do sujeito, longe de corresponder a uma “recaída” no sensualismo que seria renúncia à posição idealista
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esse avanço tardio, em obra por exemplo na Krisis e em Experiência e julgamento, dá à fenomenologia seu sentido profundo: sujeito transcendental e mundo sensível aí se ordenam um ao outro na descoberta de sua coapertencença carnal, encontrando a correlação do a priori da subjetividade e do a priori do mundo sua unidade originária na carne entendida como movimento originário de encarnação
2. Husserl, um cientista: as raízes epistemológicas da fenomenologia I. Matemática: formação inicial A. O despertar a. Um dom para a matemática
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Husserl nasce na Morávia, na atual República Tcheca, numa família judaica liberal caracterizada por seu indiferentismo religioso, apresentando-o diferentes depoimentos de seus professores como aluno pouco estudioso, pouco ambicioso, adormecendo em aula, dando sempre o mínimo de si
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bem cedo, contudo, no Gymnasium de Olmütz, afirma-se sua predileção pela matemática, mantendo nessa matéria sempre um nível fora do comum, apesar das exigências muito elevadas do professor
b. A ideia de uma reformulação da matemática
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aos 17-18 anos, Husserl vai a Leipzig seguir durante três semestres cursos de astronomia, seguindo também, além da matemática e da física, em filosofia, o ensino de W. Wundt
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impulsionado por seu interesse crescente pela matemática, inscreve-se em 1878 na Universidade de Berlim, então reputada pelo ensino ali ministrado nessa disciplina, estudando ali seis semestres e travando conhecimento notadamente com C. Weierstrass, cujo curso sobre a teoria das funções segue com paixão
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este último lhe inspirará a ideia de uma fundação radical da matemática e, mais que isso, despertará nele o ethos do científico, a saber rigor e retidão ao mesmo tempo
B. O status da matemática a. Da matemática à filosofia
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já em 1881, Husserl se inscreve na Universidade de Viena para realizar sua dissertação sobre o cálculo das variações, intitulada “Beiträge zur Theorie der Variationsrechnung” (1882)
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a partir desse momento, o interesse pela matemática se vê desviado em direção a uma reformulação filosófica das questões: a habilitação, realizada sob a direção de C. Stumpf em Halle, intitulada Über den Begriff der Zahl (1887), e a própria Philosophie der Arithmetik (1891), dedicada a F. Brentano, carregam claramente a marca disso em seus subtítulos, “Psychologische und logische Untersuchungen” para uma, “Psychologische Analysen” para a outra
b. Da prática à epistemologia
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embora renunciando bem cedo a se engajar numa carreira de matemático, Husserl não cessa de se manter a par dos avanços mais contemporâneos e de encontrar matemáticos, dizendo respeito seu campo de pesquisa então às matemáticas formais (teoria da geometria, aritmética formal e teoria da multiplicidade)
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em 1887, adquire por exemplo a obra de G. Frege, Die Grundlagen der Arithmetik (1884); no mesmo ano, G. Cantor participa do júri de defesa de sua habilitação
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durante os anos de Göttingen, entre 1901 e 1916, Husserl permanece em contato ao mesmo tempo teórico e acadêmico com D. Hilbert
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bem mais tardiamente, enfim, encontra Brouwer, matemático na origem da escola “intuicionista”
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à medida, contudo, os conceitos matemáticos passam a desempenhar papel operatório no quadro da nova disciplina de pensamento, a fenomenologia, que emerge lentamente: pense-se por exemplo na operação metódica da “variação eidética”, à qual se voltará no capítulo seguinte, e que corresponde a uma reapropriação filosófica do cálculo das variações tal como Husserl pôde apreendê-lo de um ponto de vista matemático interno junto a Weierstrass
II. A descoberta da psicologia: um momento decisivo A. A ambiguidade da referência à psicologia a. O encontro decisivo de F. Brentano
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ao passar da matemática à filosofia em 1884, data do encontro com Brentano, Husserl descobre por isso mesmo um tipo de filosofia que ignorava até então, a saber o empirismo de Hume
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paralelamente, segue diversos cursos de seu novo mestre consagrados à “filosofia prática”, estando de fato em jogo sob esses rótulos de prático e de empírico o lugar que então se busca dar à psicologia como descrição das vivências, sejam os fatos da percepção ou as vivências da própria lógica
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a esse respeito, Brentano introduz por exemplo o futuro fenomenólogo à psicologia descritiva dos continua ao interessá-lo pela doutrina das representações (intuitiva, não intuitiva) de Bolzano
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mas o autor da Psicologia de um ponto de vista empírico ocupa efetivamente em Viena uma cátedra de filosofia, e pratica na realidade o que se pôde nomear desde então uma “psicologia filosófica”
b. A psicologia introspectiva e experimental: um distanciamento comum
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recomendado por Brentano, Husserl vai a Halle no outono de 1886 para ali seguir os cursos do filósofo/psicólogo C. Stumpf
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embora se interessando de perto pela percepção e pela imaginação, Husserl examina de modo crítico os fundamentos introspectivos e experimentais da psicologia
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na conferência que dá com vistas à obtenção da licença de ensino em Halle, remete costas com costas Wundt e Volkelt, que representam cada qual um dos polos da psicologia, subjetivista (primeira pessoa) ou objetivista (terceira pessoa)
B. A psicologia, terreno fértil para o enraizamento da fenomenologia a. A análise descritiva das experiências de consciência
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qual é então a psicologia reivindicada por Husserl a título de método de descrição dos estados e atos da consciência, se não é nem uma introspecção qualitativa mas privada, nem uma experimentação quantificada e medida mas exterior ao sujeito
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o fio condutor do monumento que abre o século XX, as Investigações lógicas, consiste, via uma crítica do logicismo, em propor uma “psicologia descritiva das vivências”
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Husserl ergue de fato sua disciplina de pensamento contra duas concepções que igualmente recusa: de um lado, as categorias lógicas não têm existência totalmente independente do sujeito que as concebe, tal sendo a tese do logicismo, que faz delas a priori em si
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mas, de outro lado, essas mesmas categorias não são o produto exclusivo de um indivíduo singular dado, sendo assim que o psicologismo pretende reduzir os conceitos, universais e necessários, a processos psíquicos contingentes e particulares
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para barrar o caminho a essas duas compreensões unilaterais, Husserl forja dois instrumentos que contribuirão para caracterizar a fenomenologia como “psicologia fenomenológica”
b. A ideia de “psicologia fenomenológica”
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já desde a quinta Investigação lógica se precisa o estatuto dessa “descrição das vivências”, cristalizando-se no fundo em torno da noção de “vivência” (Erlebnis) a originalidade do projeto husserliano
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nem conteúdos, nem estados, nem atos da consciência, as vivências de um sujeito formam a textura imanente de sua consciência, pela qual ele é capaz de se apropriar dos objetos do mundo, recebendo-os primeiramente em sua qualidade sensorial, material e impressional
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fala-se assim de uma vivência de percepção, mas também de uma vivência de empatia, ou ainda de uma vivência lógica
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uma vivência, contudo, não é puramente interna à consciência, sem o que permaneceria privada e não teria nenhuma chance de acessar a objetividade de uma verdade possível, conferindo por isso Husserl à vivência uma dupla objetivação, que passa, de um lado, por seu vínculo com os objetos do mundo, de outro, pelo desprendimento necessário de sua essência
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embora imanente à consciência, pela qual anima um material sensível de outro modo inerte, uma vivência é, enquanto noese, correlata ao objeto que visa, seu noema
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a intencionalidade da vivência (ou correlação noético-noemática), a visada dos objetos do mundo, aos quais confere seu sentido, é nesse sentido constitutiva da vivência
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a partir do momento em que é apreendida em sua face intencional (e não animadora dos data sensíveis hiléticos), a vivência se torna um ato da consciência, mas a vivência intencional não é, contudo, propriedade de um indivíduo singular, contingente e privado
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fazendo variar diferentes vivências particulares de consciência, extrai-se delas a estrutura invariante: a essência
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em suma, a psicologia fenomenológica é uma psicologia ao mesmo tempo intencional e eidética
III. A marca lógica: uma constante
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de sua formação matemática, Husserl conservou sem dúvida um apego sem concessões às estruturas formais invariantes, a saber às essências e às categorias ideais, sejam conceitos ou proposições lógicas
A. A crítica ao logicismo
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a tendência (logicista) a apostar na verdade em si da lógica se vê, não obstante, contestada em duas frentes
a. O fundamento sensível da idealidade lógica
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ao enunciar um juízo, do tipo “a mesa é preta”, a veracidade dessa proposição não depende apenas de sua coerência interna, aqui sintática e semântica, mas também da existência efetiva da realidade a que remetem esses termos
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para que a proposição seja verdadeira, é preciso ainda que as categorias perceptiva (mesa) e sensível (preta) se refiram a algo existente, não podendo o critério da verdade lógica ser apenas formal, na medida em que esta engaja a doação em carne e osso dos objetos visados pelo juízo em questão
b. A influência das experiências do sujeito em uma proposição lógica
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correlativamente, essa mesma proposição também não é verdadeira apenas na proporção de sua referência válida a uma objetidade do mundo real — posição realista tão unilateral quanto a posição formalista precedente —, mas tira igualmente sua veracidade da posição em primeira pessoa do sujeito que a enuncia
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a esse respeito, a verdade fenomenológica é uma “vivência de verdade”, sem por isso reconduzir à certeza subjetivista de um Descartes
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ao enunciar a proposição “a mesa é preta”, a verdade desta última resulta da coerência formal da frase, de sua atestação na realidade espaço-temporal e da evidência intuitiva de que o sujeito é depositário em suas vivências
B. Uma lógica fenomenológica
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ter-se-á assim uma “lógica fenomenológica” a partir do momento em que esses dois componentes da verdade — evidência intuitiva do sujeito e atestação objetiva sensível — se encontrarem reunidos
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Husserl não cessou ao longo das décadas de interrogar a lógica e o lógico, ao sabor de numerosos cursos que colocam em cena, segundo inflexões variadas, essas duas exigências fenomenológicas
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duas obras, inicialmente cursos, cristalizam ao fim dos anos 20 essa dupla marca fenomenológica deixada sobre a lógica
a. Lógica formal e lógica transcendental
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nesse curso de 1929-30, Husserl retraça as diferentes etapas de constituição da lógica, desde seu conceito tradicional em Aristóteles até sua reformulação em termos de “lógica formal”, de inspiração leibniziana (mathesis universalis) e bolzaniana (ontologia formal)
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após expor, numa primeira parte, quais são as estruturas e o campo dessa lógica formal objetiva, o fenomenólogo revela a necessária fundação transcendental da lógica
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é então de novo a ocasião para ele distinguir firmemente essa “lógica transcendental”, unicamente fenomenológica, de todo “psicologismo transcendental”
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o critério de distinção reside em última instância no papel atribuído à subjetividade: num caso, o sujeito egoico, depositário da evidência intuitiva ideal, é constituinte em relação às estruturas lógicas; no outro, a subjetividade em obra permanece particular e contingente, colorindo o lógico com sua marca psíquica, sem em nada constituí-lo
b. A gênese passiva da lógica: uma genealogia das categorias
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nas Analysen zur passiven Synthesis (1918-1926) e depois em Experiência e julgamento (1939), Husserl mantém a exigência transcendental em relação à lógica, mas lhe acrescenta a consideração do engendramento das categorias lógicas “dentro” do sujeito
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convém assim completar a constituição estática do lógico iniciada por um ego ativo, pela constituição genética das categorias via uma subjetividade passiva e afetada
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