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Experiência do Mundo

HUSSERL, EDMUND. ESPERIENZE DEL MONDO : l’essere umano e l’animale. Milano: MIMESIS EDIZIONI, 2022.

  • As velhas tentações retornam, expressão com que Husserl, no parágrafo setenta e dois da Krisis, legitima a necessidade de manter separada a fenomenologia transcendental da psicologia pura, caracterizando esta última não como mera abordagem descritiva mas como procedimento hermenêutico capaz de compreender as múltiplas facetas do agir humano, objeto específico das ciências do espírito, dentro de um horizonte de investigação estratificado e complexo do qual o constante trabalho de edição e publicação dos manuscritos inéditos husserlianos dos anos vinte e trinta do século XX fornece efetivo testemunho, articulando temas que a uma consideração superficial pareceriam estranhos ao projeto fenomenológico husserliano, como a construção da realidade social, a relação entre valor e emoção, o nexo constitutivo inconsciente-temporalidade, até os chamados Grenzprobleme der Phänomenologie, que interessam a temáticas como o nascimento, o sonho, a morte e o instinto.
  • Dentro de um horizonte em contínua dilatação, a descrição dos traços específicos que identificam os animais e os diferenciam dos seres humanos ocupa papel de primordial importância, ordem problemática esboçada no segundo volume de Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologische Philosophie — sobretudo quanto ao estudo das modalidades de constituição da realidade psíquica nos processos empáticos — e à qual Husserl retorna insistentemente no fim dos anos vinte e durante os anos trinta do século XX.
  • Os motivos de tal interesse são múltiplos e de fácil compreensão: de um lado, razões contextuais e culturais ligadas à gradual afirmação da antropologia como disciplina filosófica; de outro, atribuíveis às pretensões fundacionalistas da fenomenologia transcendental, dentro da qual a intersubjetividade adquire decisiva proeminência.
  • Sendo os animais também seres sencientes, torna-se determinante esclarecer que tipo de experiência possuem do mundo-circundante (Umwelt) que compartilham com os seres humanos, tornando-se igualmente relevante para Husserl analisar e compreender o tipo de objetividade que o animal assume para o ser humano, já que da possibilidade de tal investigação depende a efetiva legitimidade do método de indagação por ele promovido; se a fenomenologia deseja satisfazer a pretensão de ser ao mesmo tempo método descritivo e ciência a priori, deve reconhecer as pretensões clarificadoras da psicologia pura, ramo da antropologia concreta — questões que Husserl considera ineludíveis, como confirma sua menção, ainda que concisa, no verbete Fenomenologia redigido para a Encyclopaedia Britannica e publicado em 1929, cuja finalidade geral é apresentar, mesmo a um público não estritamente especializado, os aspectos mais significativos da abordagem fenomenológica.
  • As pesquisas conduzidas nos manuscritos aqui traduzidos, que remontam ao biênio 1933-1934, ajudam a compreender com maior exatidão em que medida deve ser entendida a qualificação de transcendental que Husserl reivindica para o projeto de investigação fenomenológico, o qual deve ultrapassar os limites de toda explicação puramente natural ou naturalista, mantendo ao mesmo tempo certa aderência à realidade e à datidade.
  • Ainda que sejam significativas as diferenças fisiológico-funcionais entre seres humanos e animais — às quais se devem reconduzir modelos de experiência não sobreponíveis —, seria redutor e enganoso, segundo a perspectiva husserliana, reconduzi-las unicamente a essas diferenças; se as articulações temáticas da fenomenologia devem eludir as múltiplas sugestões provenientes da possibilidade de naturalizar a consciência, é justamente a articulação genética — discutida no primeiro dos dois textos aqui apresentados — do projeto fenomenológico-transcendental que convida a levar em devida conta a fundação físio-psíquica que caracteriza o ser humano, tratando-se, então, de encontrar um ponto de encontro entre instâncias apenas aparentemente inconciliáveis: afirmar que as atividades psíquicas só são possíveis graças a dispositivos e funções de natureza fisiológica não é razão suficiente para considerar válida e exaustiva uma explicação meramente naturalista, pois o ser psíquico não pode ser alcançado gratuitamente, não sendo algo a que baste voltar o olhar e que já esteja à mão mesmo despercebido.
  • A impossibilidade de alcançar direta e facilmente o psíquico é uma das razões que levaram Husserl a promover um método de investigação genético e a requalificar, ao menos em parte, a essência peculiar do resíduo fenomenológico de toda experiência possível, o eu puro, tornando-se assim legítimo o fato de o fundador da fenomenologia caracterizar a subjetividade como fungente (fungierende Subjektivität), entendendo por isso uma forma de subjetividade pré-reflexiva — que opera na passividade — graças à qual se constitui uma experiência unificada do mundo como horizonte de sentido pré-dado.
    • As funções, embora se fundem em processos e dispositivos fisiológicos, não são redutíveis a eles também por outro motivo, a saber, a influência que a dimensão contextual exerce sobre seu funcionamento: o fator ambiental e cultural — o horizonte mundo — determina de modo pregnante seu operar, refinando-se e aperfeiçoando-se as funções mediante a experiência, tornando-se assim capacidades ou disposições através de um procedimento dialético-referencial.
    • É funcional o nexo que, em recíproca dependência, a psique instaura com o corpo vivo: enquanto ente, ela se encontra em referência condicional e regulada com as circunstâncias somáticas, com as circunstâncias da natureza física, do mesmo modo que a psique se caracteriza pelo fato de que os eventos psíquicos têm, de modo regulado, consequências no âmbito da natureza.
    • O fato de tal correlação se submeter a leis legitima a possibilidade de uma investigação voltada a determinar os processos de funcionalização mediante os quais atos aparentemente singulares assumem a forma de funções psíquicas, sendo em virtude de funcionalizações múltiplas que o correlato objetivo da experiência é capaz de assumir significados plurívocos e complexos, tornando-se assim compreensíveis as declinações estratificadas que o termo mundo sofre dentro das análises genéticas, das quais os manuscritos aqui traduzidos fornecem evidente confirmação.
  • A imagem da subjetividade entendida como polo vazio de experiência é gradualmente substituída por sua caracterização em termos estratificados e articulados: cada estrato é capaz de intender o objeto segundo modalidades específicas que se submetem, porém, a leis eidéticas.
    • Analisando o processo experiencial, a fim de individuar os vários níveis de constituição intencional, Husserl rastreia uma forma de intencionalidade que possui características fenomenológicas tais que não pode ser classificada como simples atividade, mas como opinião intencional (Meinung), caracterizando essa correlação específica, chamada Habitus, o permanecer, isto é, o constituir-se como processo que, uma vez transcorrido, deixa traços que passam a fazer parte do eu puro.
    • O modo como tais traços entram e, em certo sentido, alteram a estrutura originária do eu responde a uma lei específica que Husserl define como instituição originária (Urstiftung): trata-se de uma forma final compreensível de antemão enquanto surgida de uma gênese, remetendo por sua vez a uma instituição originária dessa forma — tudo o que é dado remete a um aprender originário; o que se chama de desconhecido tem, ainda assim, a forma estruturada do ser-conhecido, a forma do objeto, mais especificamente a forma coisa espacial, objeto cultural, instrumento.
    • Essas considerações legitimam a caracterização da subjetividade não apenas em termos estritamente funcionais mas pessoais, respondendo à necessidade de manter separada a atitude naturalista da atitude personalista; como o agir não responde ao princípio de causalidade mas à lei da motivação, o ser pessoa implica uma forma de experiência do mundo sui generis que toma forma dentro de um horizonte não apenas espacial mas também temporal, falando-se assim de opinião intencional permanente, pois não se trata tanto de uma simples lembrança quanto de um caráter intencional que, tendo transcorrido, entrou a fazer parte, de modo não temático, da estrutura do eu puro.
    • O eu e o corpo vivo adquirem, desse modo, a qualificação de fungentes, sendo por isso lícito diferenciar também o tipo de experiência que o sujeito respectivamente tem de seu próprio eu e do eu estranho; a alteridade pode ser apreendida nos termos de Leib somente se reconhecida mediante uma transferência de ordem apercetiva que parte do próprio corpo entendido como órgão fungente (fungierendes Organ) e que pressupõe processos de temporalização.
  • Dentro desse quadro problemático, uma vez que a experiência que os animais têm de seu mundo circundante não é idêntica à dos seres humanos, a fenomenologia, respeitando sua natureza descritiva, deve necessariamente identificar os aspectos mais identificadores de ambas as modalidades experienciais, sendo apenas mediante pesquisas desse tipo que se pode esclarecer as dinâmicas de constituição de uma validade intersubjetivamente reconhecida e, portanto, não solipsista.
  • Adotando o léxico da fenomenologia genética, trata-se de analisar as modalidades de constituição da comunidade intermonadológica, que se forma por meio de processos de comunitarização (Vergemeinschaftung), processo que permite passar do ambiente (Umgebung) subjetivo e privado — que não pode ser dado originariamente a nenhum outro — ao horizonte compartilhado, isto é, ao mundo circundante (Umwelt) entendido como mundo externo do espírito comum; o ambiente subjetivo, delineando-se apenas a partir de experiências internas e externas, é o correlato objetual de uma subjetividade pré-social, enquanto o mundo circundante se constitui como correlato de uma subjetividade social que implica sempre o momento da presentificação empática.
  • A presentificação empática envolve não apenas os seres humanos mas também os animais, possuindo uma tipicidade própria.
    • Pertence à tipicidade dos animais, assim como à dos seres humanos, uma tipicidade das modalidades de datidade do ser conhecido e do ser não-conhecido para nós, que compreende o modo que conduz ao ser conhecido, referindo-se a tudo o que é real e ao mundo em sua totalidade — no conjunto tem-se a estrutura do mundo familiar e seus níveis, do horizonte do estranho, tem-se o modo como o próprio mundo familiar sempre se torna acessível mediante a experiência, mas também o modo como se estende mediante a inclusão do estranho, tratando-se de uma estrutura compreendida, antes de tudo, com um grande horizonte de não conhecimento, que depois se torna cada vez mais conhecida e compreendida.
  • A noção de tipicidade é o que legitima a possibilidade de uma análise de caráter eidético, na medida em que remete implicitamente à ideia de uma configuração qualitativa objetiva que pode, por isso, ser analisada e compreendida, afirmando Husserl, nessa ótica, a necessidade de pesquisas aprofundadas voltadas a dar conta das múltiplas diferenciações efetivamente constatáveis, tratando-se de um âmbito problemático extremamente heterogêneo cujos contornos temáticos são desenhados pela necessidade de esclarecer e validar o teor transcendental das pesquisas propostas, bem como pela intenção de examinar a possibilidade de uma antropologia fenomenológico-transcendental, que deve ser considerada nos termos de uma allgemeine Geistwissenschaft contraposta à psicologia naturalista.
  • Se, de um lado, em virtude da crítica que nos primórdios do projeto fenomenológico Husserl dirigiu às abordagens antropológicas, pode parecer enganoso e contraditório examinar as condições de possibilidade de uma antropologia fenomenológica, de outro é necessário sublinhar que, dentro de uma perspectiva transcendental, entender a antropologia como ciência do espírito significa — afirma Husserl, na carta a Lucien Lévy-Bruhl de 11 de março de 1935 — considerá-la nos termos de uma psicologia pura, analisando desse modo os homens como pessoas, como sujeitos de consciência, tal como eles próprios se consideram concretamente e se chamam por meio de pronomes pessoais.
  • A psicologia pura, sublinha Husserl, não é senão o caminho, extremamente fatigoso, de um autêntico e puro conhecimento de si; mas nesse conhecimento de si está incluído também o conhecimento dos outros homens, o conhecimento de seu verdadeiro ser egológico ou psíquico e de sua vida, e ainda o conhecimento do mundo — sendo possível articular uma investigação assim constituída apenas se se for capaz de esclarecer o constante pressuposto da experiência, determinando em que exatamente consiste a datidade do mundo; cabe assim à antropologia a tarefa de explicar a vida concreta-individual da consciência que se refere ao corpo vivo mas que, ao mesmo tempo, pode se tornar realidade objetiva transcendente.
  • A cifra transcendental de tal pesquisa, voltada a esclarecer as dinâmicas de comunitarização, funda-se na convicção de que o homem, por sua natureza intrínseca, é levado a construir para si um mundo circundante cultural (kulturellen Umwelt) e de que tal ambiente possui certa objetividade, ainda que limitada, tratando-se especificamente de um horizonte que toma forma a partir da personalidade individual e que responde a uma necessidade de essência, em virtude da qual subsistem estratos de datidade múltiplos em que animalidade e socialidade, de diversos graus e culturas, instauram uma relação dialética a fim de garantir e fundar a possibilidade de uma estrutura geral do mundo objetivo.
    • A constituição de mundos de qualquer tipo, partindo do próprio fluxo de vividos, com suas variedades abertamente infinitas, até o mundo objetivo em seus diversos graus de objetivação, está sob a legislação da constituição orientada, constituição que, em diversos graus, mas com o intento de um sentido compreendido do modo mais amplo, pressupõe que haja algo constituído em nível primordial e algo em nível secundário, de modo que o primordial aflui sempre no mundo constituído em nível secundário com seu próprio estrato de sentido, tornando-se assim o primordial membro central em modalidades ordenadas de datidade.
  • Do ponto de vista metodológico, Husserl confia às pesquisas genéticas a tarefa de desvelar os múltiplos estratos de sentido que uma consideração puramente naturalista não é capaz de explicitar, percorrendo retrospectivamente a história intencional que determinou sua formação, não sendo subestimável o fato de que a articulação genética do projeto de investigação fenomenológico seja, em parte, atribuível à pervasividade da temporalidade, que não é tanto uma esfera temática perfeitamente fechada quanto característica imprescindível de todo ato realizado pela subjetividade, possuindo essa contaminação temporal repercussões estruturantes para a constituição da personalidade individual; a consciência da mudança, que se cristaliza na tradição e na cultura, torna-se assim o princípio em virtude do qual é possível diferenciar a experiência que respectivamente o ser humano e o animal têm do mundo-circundante.
  • Do ponto de vista metodológico, se as descrições da fenomenologia estática se revelam análogas às histórico-naturais e são voltadas a fornecer-lhes uma sistematização objetiva, a análise genética visa percorrer retrospectivamente as etapas do caminho motivado de particulares operações constituintes mediante o qual se chega à gênese universal do ego; a análise genética, considerada em sua forma ativa, interessa portanto à razão em sua dimensão prática, estudando aquelas atividades egoicas vinculadas na socialidade através da comunitarização que, unindo-se em múltiplas sínteses de atividades específicas e sobre o pano de fundo de objetos já dados (em modos de consciência que pré-dão), constituem novos objetos de modo original.
  • O teor genético da perspectiva de investigação delineada por Husserl conduz, assim, a levar necessariamente em conta aquela passividade pré-oferente (vorgebende Passivität) que vem ao encontro do sujeito conhecente, o qual pode, porém, compreendê-la plenamente apenas graças a atividades espirituais apropriadas, não se tratando de um horizonte heterogêneo e de todo desprovido de estruturação, pois nele age uma intuição unitária promovida pela gênese passiva que interessa múltiplas apercepções enquanto figuras persistentes em uma habitualidade própria, figuras que, quando ditas atuais, parecem para o eu central pré-datidades formadas, que o capturam e o motivam a fazer algo.
  • Entre essas figuras estão a estranheza e a animalidade, tornando-se, à luz dessas considerações, mais evidente a razão pela qual Husserl considera que os problemas generativos do nascimento e da morte e do nexo de geração da animalidade pertencem claramente a uma dimensão superior e pressupõem um imenso trabalho expositivo das esferas inferiores, representando os dois manuscritos aqui apresentados um passo significativo, ainda que circunscrito, na compreensão dessas problemáticas.
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