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ENGLISH, Jacques. Le vocabulaire de Husserl. Paris: Ellipses Marketing, 2002.

A Paul Ricœur

Husserl tem a reputação de ser um autor difícil, e merece-a plenamente. Não apenas porque o vocabulário frequentemente técnico que ele emprega, baseado nas múltiplas possibilidades de prefixação e sufixação próprias do alemão, e enriquecido também pelas numerosas variedades etimológicas às quais recorre, germânicas, mas, quase tanto quanto essas, gregas, latinas e até francesas, é, na maioria dos casos, impossível de traduzir tal como é, com todas as suas diversas nuances, para outra língua. Mas também porque esse vocabulário evoluiu muito ao longo dos anos, já que o fundador da fenomenologia nunca deixou, ao longo de toda a sua carreira, de empregar novos termos para expressar melhor seu pensamento sempre que este ultrapassava um limiar; de modo que nunca se deve esquecer de levar em consideração, para compreendê-la bem, o surgimento de cada um desses diferentes registros de termos que marcaram, tantas vezes, em sua própria maneira de se expressar, um aprofundamento essencial.

Por isso, foi necessário começar aqui por fornecer explicações detalhadas sobre esses diversos grupos de termos que ele utilizou sucessivamente para desenvolver cada vez mais amplamente sua problemática geral sobre o funcionamento da intencionalidade, mas fazendo com que todos eles coexistissem posteriormente, já que, na verdade, sempre que introduzia outros termos além daqueles aos quais já havia recorrido, isso não significava de forma alguma abandonar os antigos, pois a diferença entre uns e outros continuava sempre a reaparecer no que ele viria a escrever mais tarde. Sem dúvida, com o tempo, estabeleceu-se um consenso entre os tradutores sobre a melhor maneira de traduzir todas essas camadas de escrita sobrepostas — ou, mais exatamente, entrelaçadas —, a fim de facilitar a compreensão dos leitores quando precisavam passar de uma tradução para outra. Mas isso não poderia, de forma alguma, nos dispensar, no entanto, de ter que explicar por que, em sua obra, surgiram tais divergências, já que cada uma delas foi, à sua maneira, eminentemente significativa para o sentido de seu pensamento em seu esforço por deslocar incessantemente, a partir de dentro, os limites.

Essa evolução de Husserl manifestou-se, de fato, muito menos por meio de uma sucessão entrecortada de realinhamentos inesperados em relação a tipos de atitude que ele inicialmente teria rejeitado por completo do que por ciclos regulares de reinvolução nos próprios intervalos de suas próprias séries de análises anteriores, ainda pouco abertas quando as iniciou e, desde então, redesenhadas a partir de dentro, para serem submetidas a tantas reavaliações, mas também para continuar a estabelecer, por meio disso, um mesmo modelo geral de ordenação entre os dois grupos de fatores — fenomenológicos e ontológicos — que, em seus lados opostos, participam do funcionamento da correlação que constitui a intencionalidade, tal como a tarefa lhe havia sido legada por essas duas obras exemplares que foram para ele, desde o início e que permaneceram assim até o fim: a *Psicologia do ponto de vista empírico*, de Brentano, e a *Teoria da ciência*, de Bolzano, mesmo que nem uma nem outra, com seus vocabulários tão pouco variados, em comparação, e tão pouco evolutivos, tivessem conseguido levá-la a bom termo.

“A consciência é, em sua essência, consciência de, em sua essência, ‘função’, e a função possui conexões funcionais, que têm sua teleologia imanente ordenada. Ver a consciência como função e fazer com que essa visão penetre no funcionamento, separar as diferentes linhas de direção de uma reflexão pura possível e intuir os dados noéticos e noemáticos que se encontram nessas direções e seus entrelaçamentos mútuos — é isso que devemos, repito, aprender com dificuldade, e somente quando o tivermos feito é que poderemos compreender e verificar os resultados da fenomenologia.”

HUSSERL, Fenomenologia e Teoria do Conhecimento, 1917, §31, Hua XXV, p. 188.

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