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RUÍDO DO SENSÍVEL
BENOIST, Jocelyn. Le Bruit du sensible. Paris: Cerf, 2013
Prefácio
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este livro responde a um espanto e a uma insatisfação diante do que se tornou, e talvez sempre tenha sido, a filosofia da percepção, a qual conheceu nos últimos anos, sobretudo no mundo anglófono, um considerável renascimento de interesse, ligado à explosão das ciências cognitivas e da filosofia da mente, que promoveu uma reavaliação da percepção após a saída progressiva do paradigma linguístico legado pelo fregeanismo, dando origem a debates centrais como o da existência ou não de “conteúdos não conceituais”
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quanto mais avançava o conhecimento desses debates, mais chamava atenção o fato de que, no fundo, neles nunca se tratava realmente da percepção, permanecendo a referência a ela essencialmente fantasmática e profundamente abstrata, mesmo quando se tratava de proclamar a “finura de seu grão”
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é certamente auspicioso que certa filosofia redescubra que a percepção possa ser fonte legítima de conhecimento, mas o inquietante seria que esse ponto pudesse jamais ter sido posto em questão, podendo-se ser tentado a ver nesse ceticismo em relação à percepção nada mais que um tigre de papel filosófico
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o debate se esclarece ao se considerar a pressão, na filosofia contemporânea de língua inglesa, de certo naturalismo que, sobre fundo fisicalista, lançaria dúvida sobre o mundo tal como os sentidos supostamente o apresentam, contra o que teria chegado, para a filosofia analítica, a hora de uma espécie de “virada fenomenológica” e portanto de reabilitação da percepção
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se se trata de evidenciar a importância da percepção em nossa visão de mundo e naquilo que será preciso chamar de nossa ontologia, tal virada só pode ser saudada, revelando-se gramaticalmente salutar, já que numerosos conceitos se tornam opacos ou perdem dimensões constitutivas se ignorado seu ancoramento perceptual
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ao ler certo opúsculo consagrado à “percepção como capacidade de conhecer”, chama atenção certa miséria teórica, a do teoricismo, que consiste em confundir percepção e conhecimento perceptual — isto é, fundado na percepção ou mobilizando essencialmente uma referência a ela — sem nada dizer, no fundo, da própria percepção
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tal título já suscita um problema gramatical, pois não é certo que faça sentido tratar a percepção como uma “capacidade”, já que capacidade opõe-se a quê, e o que seria não ter percepção
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ao invés de capacidade, seria mais apropriado chamar a percepção de fato, fato que nasce com cada um de nós e só se extingue com cada um de nós, com todos os seus acasos, incluindo sonos e comas
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num certo sentido fazemos toda sorte de coisas na percepção, e é igualmente verdade que toda sorte de coisas aí se fazem “em nós sem nós”, como diria bem inspirada a filosofia clássica, mas segundo outra dimensão essencial do conceito, a percepção não é algo que se faz, mas algo que é — um dos próprios nomes da realidade, ou de um de seus aspectos, apontado como “o sensível”
aquilo que se chamaria, de modo parodicamente marxista, de miséria da filosofia da percepção, reside em sua incapacidade de falar dessa realidade e portanto da própria percepção, em proveito de debates fantasmáticos que deixam escapar o sentido próprio dela, como o debate entre partidários do “conteúdo conceitual” ou do “conteúdo não conceitual”, ou entre “conjuntivistas” e “disjuntivistas”essas discussões, cujos fios remontam à época clássica e que estão intimamente ligadas ao representacionalismo moderno, carregam todas a marca de um mesmo preconceito ou limitação, identificando de imediato a percepção — ao menos a percepção bem-sucedida — a um conhecimento, ou ao menos determinando-a por seu suposto papel cognitivo-
se perguntado se alguém está na sala, procura-se com o olhar e responde-se que sim porque se o vê, podendo assim a percepção constituir uma razão e contribuir para o conhecimento, mas apenas posteriormente e/ou quando interrogada de certo ponto de vista é que ela desempenha esse papel
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a percepção só se torna “capacidade de conhecer” quando considerada do ponto de vista do conhecimento, como “preenchimento” possível, na linguagem da fenomenologia, e não do seu próprio ponto de vista, como experiência dotada de sua própria facticidade
seria preciso então distinguir dois conceitos de percepçãoum deles seria de ponta a ponta cognitivo, sendo forçoso constatar que, na história da filosofia, o conceito de percepção surgiu frequentemente primeiro nesse emprego, devido às preocupações epistemológicas de que partiam os filósofos ao chegarem à questão da percepção, sendo a percepção então essencialmente a percepção de um objeto, cuja questão é saber se o conhecemos tal como ele é-
sobre essa abordagem pesam, no limiar da modernidade, as dúvidas formuladas por Descartes quanto à validade epistemológica da percepção, sendo o essencial da filosofia contemporânea da percepção uma resposta a essas dúvidas
nesse tipo de debate subsiste, contudo, um ponto cego: o fato de se tratar realmente daquilo que ordinariamente se chama percepção, a saber, a percepção sensível-
é notável que a maioria das análises filosóficas contemporâneas da percepção deixe de lado tal determinação, ou a tome por dada, contentando-se com referência ao uso dos órgãos dos sentidos como fonte da informação perceptual, ou com vaga alusão ao caráter qualitativamente sensorial da experiência perceptual
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uma verdadeira interrogação sobre o que ordinariamente se chama percepção deveria começar por isto: o que é o sensível, e o que a qualifica como sensível
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na análise do conceito de percepção, que certa filosofia caracterizou, não sem ambiguidade, pela “presença em carne e osso” (leibhaftig selbst), se se quer falar da percepção e não de um fantasma precisamente desprovido de carne e sangue, o fato de ela ser sensível não pode intervir como incidente ou condição externa
quem será capaz de dizer algo sobre a sensibilidade da percepção, isto é, sobre o papel que o sensível nela desempenhaessa interrogação brilha por sua ausência na filosofia contemporânea da percepção, sem dúvida porque esta aborda sempre a percepção como fonte ou modo de conhecimento, no qual o sensível é, no máximo, um meio, mas é perdido de vista como ser — esse ser da percepção que, em definitivo, ele éo filósofo interessado em elucidar o que se chama percepção deveria antes buscar inspiração em duas fontes exteriores à filosofia-
de um lado, as pesquisas dos psicólogos, pois não se pode desenvolver uma psicologia da percepção sem levar em conta sua organização sensível, havendo lugar para retomar o significado da Gestalt Theorie, que, longe de fornecer um novo formato do conhecido, constituiu uma primeira sondagem nessa própria textura sensível do percebido, sem que se tenha medido suficientemente a importância filosófica do fato de uma Gestalt não ser um objeto, não se tratando categorialmente do mesmo tipo de determinação
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de outro lado, se quiser falar da percepção, o filósofo deve se colocar à escuta desses mestres do sensível que são os artistas, que mais que quaisquer outros desenvolveram uma expertise na matéria, por estarem sempre confrontados ao problema de fazer algo com ela
desses dois pontos de vista, cabe sublinhar a exceção representada, no século XX, pelo percurso de Merleau-Ponty, sendo ele quem, mais que qualquer outro filósofo, tentou falar da percepção real, não do “problema filosófico da percepção”, tendo-o conseguido precisamente em diálogo com a psicologia e depois com a arte de seu tempo, o que torna sua obra infinitamente superior a tudo o que depois se apresentou como “filosofia da percepção”a Fenomenologia da percepção foi uma das primeiras leituras filosóficas, e desde a adolescência nunca cessou a frequentação da obra de Merleau-Ponty, sem que essa companhia aparecesse muito nos próprios trabalhos, tanto porque os filósofos que inspiram nem sempre são os de quem se fala mais nem mais facilmente, quanto por certo mal-estar que pairava sobre essa relação, à medida da ambiguidade da própria relação com o ancoramento fenomenológico de Merleau-Pontyagora que já se está livre do discurso do aparecer e que já não pesa a hipoteca da fenomenologia, sente-se mais à vontade para finalmente falar de um autor sempre tão importante, reconhecendo tudo o que lhe deve uma análise correta do conceito de percepção, e ao mesmo tempo aquilo em que, embora superando certas aporias tradicionais nas quais depois dele a filosofia contemporânea voltou a cair, ele permanece à sua maneira prisioneiro da concepção tradicional, mesmo levando-a bem longe em direção aos seus limitesMerleau-Ponty, embora demarcando bem a especificidade do problema do sensível, a ponto de chegar a vislumbrar um além de toda fenomenologia, continua até o fim a defender uma forma de intencionalismo fraco da percepção-
em sua perspectiva, é preciso que o sensível tenha um sentido, não percebendo ele a diferença de categoria entre o sentido, por definição ideal, e o sensível, que é uma categoria da realidade, esforçando-se quando muito por passivar ou anonimizar o sentido, tentando desesperadamente torná-lo sensível, sem escapar inteiramente ao narcisismo transcendental do percebido
fazendo isso, porém, talvez ele apenas leve ao limite o conceito de percepção e explore suas possibilidades extremas, sendo talvez necessário, para dizer o que faz da percepção a percepção, a saber o sensível, precisamente sair da “percepção”, o que o próprio filósofo chega a indicar em suas últimas pesquisas, apontando mais em direção àquela orquestração do sensível que, de certo ponto de vista, pode ser a arte, do que aos problemas tradicionais da intencionalidade e da filosofia da percepçãoum dos objetivos colaterais deste livro, em sua própria tentativa de elucidação do conceito de percepção e de certos conceitos a ele ligados, será portanto prestar homenagem a um filósofo que, mais que qualquer outro, muito fez para assegurar sua inteligibilidadea fonte do questionamento aqui apresentado não é, contudo, merleau-pontyanano final dos anos 1990, a estratégia de conjunto então alcançada consistia em desermeneutizar a fenomenologia, contexto em que o motivo do realismo perceptual assumia importância central, contra o primado de uma intencionalidade cujo modelo era evidentemente o da significação linguística, pensando-se então em outro modelo de intencionalidade, segundo o qual a própria coisa seria dada e não simplesmente visada, chegando-se sem saber, e com referências totalmente distintas, a uma posição que, mutatis mutandis, guardava certa relação com a exposta por John McDowell em suas Woodbridge Lecturesa partir daí, muitas reflexões se concentraram na intencionalidade da percepção e em sua especificidade em relação à intencionalidade de significação, especificidade sobre a qual se acreditava — como aliás certos filósofos de tradição analítica — que a tradição fenomenológica ainda tinha muito a ensinarsentia-se, no entanto, que certa forma de contrassenso, ou de círculo vicioso, se escondia nesse desdobramento das intencionalidadeso clareamento veio em 2002-2003, com o encontro do pensamento de Charles Travis, ao qual introduziu primeiro uma exposição luminosa de Sandra Laugier no Collège de France, sem que se medissem de imediato todas as suas implicações-
tendo a oportunidade de passar o trimestre da primavera de 2003 com Charles na Northwestern University, recorda-se bem o momento do estalo, ao voltar tarde no L-train, na purple line, quando ele perguntou por que se desejava que a percepção fosse intencional, sendo que, se se percebe a coisa, logicamente não é preciso visá-la, pois já se a tem, podendo-se assim duvidar da intencionalidade da percepção por razões distintas das reducionistas
os elementos de análise que Charles então apresentava sobre a percepção eram os expostos em “The Silence of the Senses”, publicado no ano seguinteesse texto, leitura de Austin e também polêmica tão discreta quanto firme contra John McDowell, desempenhou papel absolutamente decisivo para toda a reflexão posterior sobre a percepção, podendo-se dizer que metade do que se lerá aqui é consequência, direta ou indireta, dessas linhas, sem que Charles possa ser responsabilizado por posições que certamente misturam a seus fios outros que ele dificilmente reconheceriaé indubitável que Charles ajudou a dar o último passo e a sair da fenomenologia justamente naquilo em que ela parecia, para além de todas as críticas linguísticas a que podia ser submetida, permanecer mais sólida e inexpugnável, a saber, a percepção, tendo chamado imediatamente a atenção a radicalidade de sua análise, que fazia justiça à própria radicalidade austiniananão se trata, com efeito, de dizer, como às vezes se ouve, que a percepção não é uma intencionalidade, mas um ser-no-mundo — o que consistiria evidentemente em recolher a mercadoria na rede depois de tê-la lançado ao mar, pois o ser-no-mundo, nessa matéria, é apenas outro nome da intencionalidade — nem que ela é uma intencionalidade, mas de um gênero particular, que seria uma relação, por oposição à que não o seria-
a única questão que importa é saber se se trata de uma relação de fato ou de uma norma, podendo aliás a própria noção de relação constituir metáfora bastante ruim para descrever a percepção, pois relação de quê com quê
não se pode, aqui como alhures, ter ao mesmo tempo a manteiga e o dinheiro da manteiga, sendo preciso admitir que a percepção, em certo uso da palavra essencial à economia do conceito ordinário de percepção, não é pura e simplesmente uma intencionalidade nem nada que se lhe assemelhe, ou que, logicamente, há um componente fundamentalmente não intencional naquilo que se chama percepçãoassim, por essa observação, Charles deu a chave de uma análise gramatical da percepção como a efetuada em numerosas páginas deste livroposteriormente, o sentido atribuído a esse componente não intencional do conceito de percepção pouco deve a ele, não havendo dúvida de que Charles teria objeções a levantar contra a ontologia e ainda mais contra a poética do sensível aqui esboçadacabe mencionar, desse ponto de vista, outra influência determinante: a de Claude Imbert, cuja crítica radical à fenomenologia só foi compreendida tardiamente-
para isso, foi sem dúvida necessária a passagem pela ascese austiniana, e seu corolário, certo emagrecimento do conceito de percepção
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sobre essa base, a fenomenologia no sentido histórico do termo, em sua supervalorização do conceito de intencionalidade, de essência na realidade essencialmente tautológica por ser lógica, aparecia enfim como o que era, a saber, uma pura e simples tentativa de domesticar o sensível
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contra isso, Claude Imbert ensinou a buscar alhures, do lado de Baudelaire ou de Lévi-Strauss, um pensamento do sensível e não mais da “percepção” no sentido construído pelos filósofos — isto é, um pensamento da variedade daquilo que se faz e se pode fazer com o sensível
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ela também fez descobrir, coerentemente com essa abordagem, e de forma particularmente importante, aquilo que em Merleau-Ponty resiste à fenomenologia e vai além dela
cabe aqui prestar-lhe homenagem e gratidão por tudo o que intelectualmente se lhe deve, tendo Charles Travis tirado de um sono dogmático nessas matérias ao fazer entrever a necessidade de uma compreensão não intencional da percepção, e tendo Claude Imbert feito mais que qualquer outro filósofo da época para ajudar a sair do “problema da percepção” tout court, encontrando todo espírito confrontado com a escolástica contemporânea aí uma verdadeira forma de libertação filosóficaé preciso ainda precisar um ponto: não é sem júbilo que se faz ouvir aqui a redescoberta filosófica do sensível, sendo normal que ele faça algum barulho-
louvai-o com címbalos sonoros, louvai-o com címbalos retumbantes
no entanto, o sensível, se pode trazer alegria e exaltação, glória de nossa condição real, é também o lugar de prova de nossa carência, devendo-se, na celebração possível de sua plenitude, não esquecer o quanto-
é terrível o pequeno ruído do ovo cozido quebrado sobre um balcão de estanho, é terrível esse ruído quando remexe na memória do homem que tem fome
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