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DADO
BENOIST, Jocelyn. L’Idée de phénoménologie. Paris: Beauchesne, 2001
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A referência ao “dado” caracteriza a tradição fenomenológica e certo empirismo, sendo um tema filosófico ainda a ser explorado, apesar das dúvidas sobre permanecer ou não fiel a essa tradição.
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A noção de “dado” é imediatamente criticável e criticada, sofrendo ataques tanto de uma crítica interna ao positivismo lógico quanto de uma suspeita de intuicionismo ingênuo ou dogmatismo dirigida à fenomenologia.
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A tese do “dado” parece desembocar na absurdidade de que, se há dado, ele deve ser dado, mas é impossível apresentá-lo como “dado puro”, pois ele já está sempre dito, formado ou constituído.
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Apesar das críticas, a ideia de “dado” deve ser conservada da fenomenologia e do empirismo, pois constitui o principal legado dessas tradições para uma filosofia pós-metafísica.
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A análise da noção de “dado” visa determinar suas diferentes dimensões e sua utilidade prospectiva, defendendo que ela envolve pressupostos radicais que vão além do “dado” coisificado criticado pelos idealistas.
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A primeira representação associada ao “dado” é a “representação hilomórfica”, que o concebe como matéria ou material para uma forma, colocando-se já na expectativa desta e sob sua lei.
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Outro constituinte familiar da ideia de “dado” é a ideia de presença, ligada à oposição presença/ausência, de modo que o “dado” só tem sentido em relação ao que não é dado.
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A referência ao “dado” parece constituir um “mito da exterioridade”, simétrico ao “mito da interioridade”, ambos baseados na mesma representação de que há um interior e um exterior, e que a surpresa de algo deve ser concebida como a passagem de um meio a outro.
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A ideia de “dado” está essencialmente associada à de “imediatidade”, opondo-se a qualquer ideia de construção ou fabricação, sendo essa a tese geral do empirismo ao opor ao idealismo a evidência do dado.
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O paradoxo é que, no coração do idealismo, reencontra-se a ideia de dado, e a linguagem do idealismo é profundamente solidária desse dispositivo, pois o dado é o resíduo necessário para dar sentido ao trabalho da consciência ou da linguagem.
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O dado não é uma matéria sem forma, nem uma matéria com uma forma; é preciso libertá-lo do jugo do “conteúdo”, pois o sentido do dado permanece sendo o de não ter sido feito, mesmo onde nossa atividade se desdobra de forma mais resoluta.
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A crítica idealista à formalização do dado é vã, pois o dado é sempre formalizado, mas o fato de ser dado tem como objetivo ser o ponto de partida para a formalização, embora não haja nada absolutamente não formalizado desde o qual se possa iniciar esse processo.
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O segundo eixo segundo o qual a noção de dado faz sentido e é criticada é o da oposição presença/ausência, visando distinguir o que é dado do que não é, através de um partilha que exclui o não-dado.
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Esse partilha é estranha, pois o não-dado ao qual nos referimos é algo sobre o qual falamos e agimos, e a redução ao dado geralmente corresponde mal ao que temos de fato a ver, que transborda a esfera abstrata do “dado”.
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A diferença entre sentir e pensar, embora real, não permite dizer que um pertença ao sensível e o outro não, pois a simples ideia de algo já implica uma presença impressionante, e para que algo nos apareça, é preciso ser sensível até mesmo à ideia.
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A presença sensível é uma propriedade global, não constitui uma parte do real por si mesma, e o que se apresenta a nós se apresenta globalmente, com propriedades que o constituem em sua forma complexa de se apresentar.
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Todo aquele com quem lidamos é dado, mesmo que não o seja sob a figura mítica da doação elementar e puramente sensível, e há mais de um modo de ser sensível, sendo a percepção, a memória e a imaginação modos de existência sensível de pleno direito.
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A distinção entre o que é sensível e o que não é é uma distinção segunda que intervém sobre um fundo de sensibilidade e doação, e o categorial não é senão a expressão da complexidade de um dado sempre já articulado.
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O problema do dado é a questão da linguagem, pois o dado é o que traz à linguagem o que lhe falta, ou seja, a sensibilidade, e a necessidade de retornar ao dado é enunciada contra a linguagem, que permite remeter ao que não pode ser dado.
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A distinção entre o “dado” em sentido restritivo e o “dito” como “simplesmente dito” é uma distinção rigorosamente imanente ao dito, na declinação do modo de apresentação das coisas, e não há nada que não seja dito, embora nem tudo seja dito da mesma forma.
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O dizer tem a potência de nos fazer ver em um sentido que não tem mais nada do ver, e, como tal, faz surgir o dado, pois o dizer é afetado por uma referencialidade fundamental, e o que é dito, em virtude de ser dito, existe para nós e é dado.
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A doação não é nada além do surgimento que atravessa o dizer, e não se opõe a um não-dado ao lado do dado, pois tudo aquilo com que lidamos, em virtude disso, é dado.
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O dado é o que se acrescenta, mas ele não se acrescenta a nada, e o que o mantém como dado é precisamente que ele não faça parte de nenhuma coleção, rompendo com o modelo coisificado do dado e com a ideia de que há uma “coisa” a que ele é dado.
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A única dimensão que pode realmente salvar a noção de “dado” é a da exterioridade, mas de uma exterioridade tão radical que ela não é exterior a nada, sendo o puro surgimento do acontecimento como tal.
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O dado vem a acrescentar-se, mas não se acrescenta a nada, e esse suplemento é originário; a doação é o que, de si, desagrega o todo, e o dado é o que falta ao todo para ser um todo, ao mundo para ser um mundo.
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O sentido da exterioridade sem resto do dado reside na sua eventividade fundamental, que é o modo universal de vinda das coisas, e o dado é tudo o que acontece, na medida em que acontece.
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O acontecimento é o surgimento de todo instante em virtude do qual “há”, em virtude do qual qualquer coisa é “dada”, e ele é o lance de dados sempre recomeçado, que precede e acompanha toda significação do mundo.
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O dado é tudo aquilo com que se lida, caracterizando-se por sua contingência, e a contingência do dado não é a possibilidade do não-dado, mas a fragilidade fundamental do dado que o torna incontrolável.
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A imediatidade do dado é o sentido mesmo da doação, mas ela não é a imediatidade de nada de imediato; o dado é imediato porque é dado, e a imediatidade é a própria adveniência.
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O dado é sempre singular, e sua singularidade é a singularidade de sua doação mesma, que nunca se repete, e a vida é essa nudez do que é dado, essa sucessão de coisas que se produzem, de acontecimentos que fazem mundo ao mesmo tempo que desfazem todas as tentativas do mundo de se fazer.
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A doação é o lugar de uma subjetivação do sujeito, mas o sujeito não precede o dado; o sujeito vem depois, ele é um aspecto da doação, aquilo em que ela se deposita em seu fundo de passividade.
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A subjetividade é uma certa interpretação da passividade, e na nascença do acontecimento, experimenta-se a si mesmo como passivo antes de se experimentar a si mesmo, e o eu nasce da passividade fundamental associada ao acontecimento.
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A gratuidade do dado é um componente fenomenológico e ontológico essencial, pois o dado não é fundado nem justificado, ele é pura e simplesmente dado, e como tal, é o injustificável.
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O dado, em sua suplementaridade principial, é um dom sem dívida, pois não há nada a ser restituído, e sua gratuidade o liberta de qualquer valor, sendo a doação em si mesma absolutamente desprovida de valor.
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O dado, como dado puro, é absolutamente sem doador, ele está sempre já “depois” do dom, sem origem, na eventividade do que se produz, e a questão do donatário também é um erro, pois se há dom no dado, é um dom sem dívida, um dom para ninguém.
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A vida é exterior, e não em qualquer relação consigo mesma, nem mesmo ao fato de que algo seja dado; o dado em que se vive é apenas no próprio dado, no acontecimento mesmo, e não em qualquer espera ou nostalgia em relação a ele.
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A busca pelo acontecimento excepcional é uma estratégia de neutralização do dado, pois todo o real é dado no sentido em que ele nunca é jogado a priori, e a eventividade integral e “normal” do real faz com que não haja paradigma para o acontecimento.
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Liberar o dado como dado é quebrar a referência a um dado privilegiado, pois o dado não tem começo, e essa é a propriedade essencial dessa não-essência que ele é.
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