1964-1 B
HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Organizado por Peter Trawny (2018). Traduzido por Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2021
B. NOITE DE SEMINÁRIO 28 DE JANEIRO DE 1964 – ANDAMENTO
1. A introdução da segunda noite retoma a perplexidade diante das questões anteriores, especialmente o uso por Kant da palavra “manifestamente” (offenbar) em sua tese, e investiga-se o que significa “manifestamente” – de maneira patente, evidente, ἐναργής, algo que se mostra nele mesmo –, observando-se que a transcrição por outras palavras ou “termos” não deixa as coisas como estavam, mas a coisa se mostra de maneira mais clara, e a filosofia reflete sobre o óbvio, permanecendo aí junto àquilo que se encobre como próprio, enquanto o entendimento comum não tem nada mais a dizer sobre isso; o questionamento filosófico começa com a “existência” e a reflexão permanece junto àquilo que mostra a si mesmo, acolhendo o que se mostra como “suposição” (Annahme).
2. O diálogo alcançou uma diferenciação com vistas ao que a palavra suposição pode levar em consideração: suppositio e acceptio, que não são apenas dois significados diversos, mas dois “conteúdos materiais” diversos, correspondendo a dois modos diversos do pensar e do proceder nas ciências e na filosofia; a suposição como imputação (suppositio) refere-se a aspirações e forças sob os fenômenos, enquanto a suposição como acolhimento (acceptio) é a apreensão pura e simples daquilo que se mostra nele mesmo – o manifesto, como o “ser não é nenhum predicado real no existente”; a acceptio é comparada à “recepção de bagagem”, receber um presente, uma doação, o que se dá imediatamente, e o apreendido no acolhimento não carece de demonstração, comprovando-se por si mesmo como o solo e o fundamento sobre o qual o enunciado se funda, acessível por meio de um puro e simples aceno e direcionamento do olhar, sem dispêndio de argumentos; a suppositio, em contrapartida, é a imputação de aspirações e forças que causam e efetuam os fenômenos, permitindo uma demonstração de seu surgimento; a intelecção fundamental é que nem toda fundamentação precisa e pode ser uma demonstração, e toda demonstração é um tipo de fundamentação, e a falta dessa intelecção também falta à educação e à formação para a ciência, conforme Aristóteles (Metafísica I 4, 1006a6: ἔστι γὰρ ἀπαιδευσία τὸ μὴ γιγνώσκειν τίνων δεῖ ζητεῖν ἀπόδειξιν καὶ τίνων οὐ δεῖ).
3. Os dois modos da suposição não se encontram apenas justapostos, mas a suppositio se funda em uma acceptio, parte dela e retorna a ela, como no caso dos atos falhos; o que é acolhido é o que aparece – o fenômeno (Phänomen) –, e em Freud o fenômeno é a ocorrência (ente ôntico), enquanto em Kant o fenômeno é o “manifestamente” e o “ser” (não ente, ontológico); a suppositio, no sentido da ciência natural, oferece uma explicação, enquanto a acceptio oferece uma interpretação do homem e do Dasein terreno; o fenômeno é o que aparece de tal modo que se mostra nele mesmo, e as aparições, como a mesa, mostram-se na percepção como o real da mesa, mas mostra-se mais: o existir, que não é real nem perceptível, e há, portanto, fenômenos não perceptíveis, que se mostraram antes de tudo aquilo que é perceptível e são necessários para isso.
4. A questão sobre o que é a existência mesma é abordada com um olhar interpretativo para os próprios fenômenos, como no exemplo da mesa, e a confrontação entre a analítica psicodinâmica e a analítica existencial envolve a consideração do ser humano, decidindo-se sobre a determinação do ser do ente que nós mesmos somos; pergunta-se segundo que aspecto “os fenômenos” precisam se retrair ante “a suposição”, com vistas àquilo que é considerado como o efetivo – o nexo causal psicologicamente sem lacunas de forças –, e com vistas ao modo como “ser” é interpretado; nessa suppositio reside a base de uma acceptio, onde se assume como óbvio que ser é efetividade natural no sentido da pesquisa física da natureza, e com essa acceptio não levada em conta na visão prévia, decide-se sobre o ser do ser humano, não apenas os atos falhos, mas o todo do ser humano como um objeto causalmente explicável; toda suppositio se funda em uma acceptio, e pergunta-se se a acceptio determina a suppositio ou se a suppositio – como nexo causal sem lacunas e o verdadeiramente efetivo – determina o modo da acceptio, mas a suppositio é levada a termo com vistas a um acceptum, partindo dele e em direção a ele, e a sentença de que efetivo é o que é mensurável e calculável como nexo causal funda-se na certeza do calculável, na segurança e na ausência de contradição, com vistas a assegurar-se do homem como sujeito para objetos, onde a verdade é certeza.
5. A análise da “mesa” retoma a posição e o ter sido posicionado para o “eu”, e o “ser humano em jogo” é considerado ao ver a mesa existente; ver também que a existência não é nenhuma constituição da mesa enquanto mesa, mas o existir é dito da mesa e atribuído a ela como predicado, recusando-se ao mesmo tempo a existência como uma constituição nela, o que implica que se precisa ter em vista manifestamente a “existência”, embora não se a “veja” como se vê a mesa; Kant é convocado para auxiliar, afirmando que ser não é nenhum predicado real, mas de qualquer modo um predicado, e “Dasein” – existência – é algo dito da mesa existente, não do conteúdo material (conceito da mesa meramente representada); trata-se de ir além do conceito e posicionar a coisa mesma, como “posição absoluta” e “ter sido posicionado de um dado”, onde se posiciona algo dado por afecção, algo trazido para cá e apresentado; a mesa, como trazível e encontrável, é já “produzida” pelo carpinteiro, e a pro-dução envolve as quatro causas, e a mesa pro-duzida é posicionada para lá e para ali do já existente; visualiza-se a existência enquanto tal como posição e “posicionar-se” do “eu” – o ser humano em jogo junto ao ver da mesa existente –, e pergunta-se se a mesa existe pelo fato de ser vista ou se é vista porque existe; a existência da mesa é questão da própria mesa, que em pro-dução emerge do fazer do homem, sendo transportada para o uso; a relação com a mesa é de sentar-se à mesa, encontrá-la, vê-la como coisa de uso, e a coisa mostra-se sempre como “como” em seu quid, e a mesa se mostra no uso; o ver a mesa existente de um lugar a outro através do espaço envolve a permeabilidade, o aberto e o livre, e a espacialidade do espaço – a abertura mesma – não é nada espacial, mas o através e o aberto, o “diáfano”, e nesse aberto encontra-se de maneira diversa da mesa, pois se está nos lugares e ao mesmo tempo junto à mesa, mantendo-se no espaço e retendo-se junto ao que se mostra; o aberto e o livre não se baseiam no espacial, mas o espacial se baseia no aberto, no livre, no clareado de uma clareira (Lichtung), como no exemplo da biblioteca arrombada com livros roubados, onde as prateleiras estão cheias de buracos (clareiras); a estada na clareira do que se presenta é necessária para “ver” o que Kant diz negativamente da “existência”, e ao redor fala-se da presentidade que se encobre enquanto tal, circundado pelo que se presenta sem ser tematicamente apreendido “na consciência”, encontrando-se insistentemente em meio à clareira do que se encobre; ao vislumbrar a “existência” da mesa, já se admite que se mantém na clareira do ser (Lichtung des Seins), embora ainda não se vislumbre expressamente que o ser se dá a si mesmo, e cada um é apenas aquilo que é na medida em que se mantém nessa su-posição.
6. A linguagem e a metáfora (μεταφορά, “conversão”) são discutidas a partir do exemplo “o campo sorridente”, onde um campo não pode sorrir, mas o discurso é pertinente à coisa com uma única palavra de rico conteúdo, referindo-se ao sereno e irradiante na plenitude; o exemplo da biblioteca com espaços vazios – fileiras “muito clareadas” – mostra que “clareado” significa posição aberta livre, e não se converte nada, mas se pensa o que significa uma “clareira” (Lichtung), o aberto e o livre, sempre diverso de acordo com aquilo de que é dito, e o “aí” espacial é contraposto ao aberto no qual espaço e clareira se encontram; a “força” como “massa x aceleração” é analisada como o atuante, agens, acúmulo e dispêndio de força, a capacidade de “produzir efeito” (δύναμις), e a energia (vis, ἐνέργεια) é relacionada à obra (ἔργον) como o produzido em direção ao desvelamento.
7. O “compreender” (Verstehen) em Freud significa imputar forças não apreensíveis e tendências com a finalidade da explicação hipotético-causal, onde algo é compreendido quando se conclui hipoteticamente como efeito; em contrapartida, compreender uma frase ou palavra é acompanhar reconstrutivamente a frase, perceber sobre o que se fala, identificar e tornar inteligível – uma acceptio –, e nunca uma “explicação causal”; o “sentido” em Freud é fundamentalmente incompreensível, tomado como uma suppositio, e Freud define “sentido” de um “processo psíquico” como a intenção à qual ele serve e sua posição em uma série psíquica, substituível por “intenção” ou “tendência”, e o sentido de um sintoma resume duas coisas: seu de onde e seu para onde ou seu para que, ou seja, as impressões e vivências das quais ele parte e as intenções às quais ele serve, onde o para que, a tendência, é um processo endopsíquico inconsciente, e é no para onde, na tendência, que está fundada a dependência do sintoma em relação ao inconsciente; o “sentido de ser”, em contrapartida, é o âmbito aberto a partir do qual, por meio da acceptio, se torna imediatamente inteligível a proveniência – compreensível –, e aceitar não é o que é dito, mas o que se mostra, para o que é necessária a luz apropriada; a acceptio não se esgota no conhecimento da diferenciação em relação à suppositio, mas exige longo exercício e prova, difícil como o aprendizado de uma técnica experimental; o “fenômeno” em Freud é constatado como ocorrências conhecidas por meio da “associação livre”, como cadeias causais fechadas, e a suposição fundamental é a de cadeias causais sem lacunas; “compreender” forças na “psicodinâmica” é explicar para o entendimento calculador, onde cada fenômeno é superdeterminado por múltiplas causas, mas conexões causais são por princípio incompreensíveis, ao passo que o nexo de fundamentação e “consequências lógicas” e “motivo” são o que se mostra a si mesmo, e o nexo de sentido em sua propriedade é a “motivação”, fundada na presentidade; o motivo de uma ação – a intenção – não fala ao mesmo tempo da ratio, mas pertence à postura metódica do mostrar fenômenos mais simples e acessíveis, sem recurso a interpretações históricas, e a postura metódica diretriz determina a formulação do princípio de razão e o discurso da causa, onde a ação equivocada pergunta se a causa é o mesmo que ratio, ou seja, se é aberto ou fechado.
