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Metafísica 42-64

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Metafísica e Niilismo. Tr. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.

42. O acabamento da metafísica moderna revela-se na “psicologia” nietzschiana enquanto desdobramento absoluto e completo das Meditationes de prima philosophia.

43. A metafísica enquanto história do seer constitui o destino da verdade do ente, inserindo-se no ente que descobre e liberando o homem para um determinado modo de ser (animal rationale, subjectum), de modo que a história do seer só é experienciável a partir da sondagem da verdade do seer, e não a partir da consideração historicista da metafísica sob a forma de intuições e doutrinas.

44. A errância metafísica manifesta-se quando o pensamento da entidade se perde e volatiza-se no mais universal, ao passo que o pensamento do seer ainda não desdobrado se volta para o cerne do maximamente próximo, sendo esta errância a fuga para o particular e concreto como alternativa à desorientação, mantendo aberta estruturalmente a abertura do ente para o âmbito da entidade.

45. A metafísica e o “universal” articulam-se quando o pensamento em direção ao uno (hen) e ao universal (καθόλου) significa, sem que se saiba, pensar em direção à concentração primordial na constância da presentificação, transformando-se esta interpretação em interpretação falseadora que ancora o ente particularizado em uma causa primeira, tornando a metafísica vítima do conceito maximamente universal e culminando na doutrina dos “valores” através do papel normativo do a priori.

46. A metafísica nunca sabe algo acerca do seer, pois trata do ente e reduz o ser ao circuito mais extremo da objetividade, sendo esta ao mesmo tempo sua distinção e sua ambiguidade, uma vez que o seer é e é descoberto conquanto acontece apropriativamente através de uma metamorfose essencial no ser-situado.

47. Os conceitos fundamentais da metafísica constituem conceitos relativos ao princípio (αρχή-conceitos) que pensam o fundamental enquanto fundamento, pensando sempre a totalidade do ente e abarcando conceitualmente o que concebem, ainda que raramente atinjam a essência que é sintônica com a essência do próprio conceito, como exemplificado pelo noein (νοεῖν) parmenídico e pela razão finita cartesiana.

48. A essência histórico-ontológica da metafísica constitui o niilismo que não deve ser pensado apenas metafisicamente, mas histórico-ontologicamente, residindo na aniquilação da diferenciação entre ente e ser em sua fundacionalidade, sendo possível que a técnica e o historicismo impelam-se para o lugar da história essencial em virtude de a história do seer ainda não ter entrado em seu curso.

49. A metafísica e a “física” mostram que o saber acerca da essência da physis (φύσις) constitui para nós uma necessidade cuja agudeza ultrapassa toda urgência do vitalmente importante, uma vez que a história se apresenta diante de nós como superação da metafísica e nos encontramos jogados no abandono do ser.

50. A história do ser revela que a metafísica é meta-física no sentido aristotélico, tratando da physis em um sentido ainda mais essencial do qual, porém, permanece apenas eco, de modo que o pensamento principial da physis fecha o começo e o transforma em dominação ao invés de em deixar-solto, repousando tudo sobre a não-fundação da alétheia (αλήθεια).

51. A pergunta pelo ente na totalidade revela sua essencial duplicidade conforme a diferenciação, permanecendo esta duplicação não concebida e determinando-se o ser sempre a partir do ente através de categorias, causas e princípios, sem que se pergunte pelo ser mesmo em sua verdade.

52. “O metafísico” articula-se através dos pares do pensável (νοητόν) e do supra-sensível, da ideia inteligível e do universal, do eterno e permanente enquanto divino e do racional enquanto ideal, culminando na interpretação moral nietzschiana que anuncia a morte de Deus, sendo “meta” compreendido como supra e post.

53. O papel da ciência e da filosofia enquanto metafísica desdobra-se desde a mathesis como forma fundamental do saber até o positivismo, passando pelo caminho do apoderamento técnico e historicista do mundo, revelando-se uma constante perturbação da filosofia através da ciência que, na superação da metafísica, precisa ser decididamente repelida.

54. Para “O que é metafísica?” estabelece-se a tarefa de elaborar originariamente a pergunta tradicional “o que é o ente?” até a pergunta pelo ser, situando o nada como o mais monstruoso na essência do seer e não como objeto, e a angústia e o espanto como experiência do abandono do ser característico do ente, jamais avaliáveis moralmente como “não-heroicos”.

55. A má interpretação de “O que é metafísica?” reside em tomar o nada por si mesmo no lugar do ente, como transcurso único a partir das ciências, como palavra derradeira da filosofia e como niilismo, ao invés de compreendê-lo como passo metafísico em direção à superação da própria metafísica.

  • Correspondentemente, a angústia constitui a única tonalidade fundamental (Grundstimmung), e a lógica se opõe simplesmente ao irracional sem intelecção de sua proveniência metafísica, sendo preferível revolver-se em indignação quanto à destruição e à nulidade do que reconhecer o desconhecimento do nada.

56. “Da essência do fundamento” busca aquilo que o ser exige enquanto tal — sua verdade —, sondando a verdade do seer ainda a partir da proveniência metafísica e do intuito de tornar digna uma colocação mais originária das questões.

57. “Fundamento” e “verdade” revelam que a diferenciação entre ôntico e ontológico é obsoleta, pois a verdade sobre o ente enquanto tal constitui apenas verdade ontológica e desdobramento categorial da entidade, não verdade do seer, sendo o permanecer preso à transcendência uma recaída na metafísica, exigindo uma virada decisiva — não mera inversão — para o interior do seer e de sua verdade.

58. Esboço e apropriação em meio ao acontecimento revelam que a projeção só se essencializa a partir do ser-jogado, projetando-se desprendidamente para o interior da essencialização da verdade do seer enquanto o homem histórico determinado através da metafísica.

59. “Fundamento” interroga o que significa fundamento e desde onde ele se dá, articulando-se com o princípio (αρχή) enquanto ponto de partida e domínio, o sujeito subjacente (ὑποκείμενον), a razão (ratio) e a presentificação em sua qüididade.

60. “Fundamento” articula-se com physis (φύσις), logos (λόγος), o subjacente (ὑποκείμενον), o princípio (αρχή) e a causa (αἴτιον) em Aristóteles, sendo o fundamento, em razão do ab-ismo, a clareira enquanto essência do seer, e o ab-ismo a recusa essencial do fundamental enquanto não-fundamento ou sem-fundo.

61. “Da essência do fundamento” distingue a verdade ôntico-ontológica — que considera ou desconsidera o ente do ser — da verdade do seer propriamente visada, mostrando que o passo para a transcendência é insuficiente, ao contrário do que se supõe, e que o ab-ismo constitui a verdade do seer, impelindo para o âmbito da fundação sem que isto configure falta.

  • A liberdade enquanto fundamento da possibilidade constitui este fundamento enquanto ab-ismo, exigindo que se comece diversamente a partir da verdade do seer, sendo a liberdade ek-sistente em virtude do ser-jogado, e o deixar-ser um portar instante da fundação transmitida apropriativamente da clareira do seer.

62. A diferenciação, enquanto “a diferença”, é falsamente compreendida como direcionamento correto para a interpretação bifurcada da verdade ou como via de escape para a pergunta pelo fundamento de sua possibilidade enquanto transcendência, não devendo ser deduzida a partir de Leibniz nem conectada desta maneira ao fundamento.

63. A metafísica e a diferenciação revelam que a diferenciação, tomada por si e deixada infundada sem o ab-ismo, é já a destruição da verdade do seer, constituindo a história da diferenciação a história da não-fundação da verdade enquanto verdade do seer, e sendo a diferenciação, pela primeira vez, pensada a partir da diferença enquanto despedida.

64. A metafísica enquanto utilização desgastante da diferenciação revela que esta, tomada como paradeigma (παράδειγμα), constitui já um deslocamento essencial do caráter principial da alétheia (αλήθεια), sendo a diferenciação enquanto clareira infundada, inconcebida e inarticulável o que determina propriamente a superação histórico-ontológica da metafísica, distinta de uma mera fundamentação que recairia em uma “metafísica da metafísica”.

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