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A.9 Essência

A. DIVERSAS MANEIRAS DE INTERROGAR EM DIREÇÃO À COISA

IX. ESTRUTURA DA ESSÊNCIA DA VERDADE, DA COISA E DA PROPOSIÇÃO

A determinação tradicional da coisa como suporte subsistente de propriedades encontra sua fundamentação aparentemente definitiva na própria essência da verdade, compreendida como conformidade com as coisas, pois a estrutura da proposição verdadeira — constituída por sujeito, predicado e cópula — reproduz a estrutura atribuída à própria coisa — suporte e propriedades —, de modo que experiência cotidiana, tradição filosófica e concepção corrente da verdade parecem convergir para tornar a pergunta «O que é uma coisa?» definitivamente resolvida.

  • Se a pergunta pela coisa já recebeu uma resposta universalmente satisfatória, então ela aparentemente deixou de constituir uma verdadeira questão, pois a coisa seria suficientemente determinada como suporte permanente de propriedades que nela subsistem e se modificam.
  • A força dessa resposta parece residir não apenas em seu caráter familiar, mas também no fato de sua fundamentação ser considerada igualmente «natural», tão habitual que sua própria estrutura precisa inicialmente ser destacada para voltar a ser percebida.
  • A fundamentação da determinação corrente da essência da coisa encontra-se na própria essência da verdade: verdadeiro é aquilo que vale, e aquilo que vale é o que concorda com os fatos, isto é, o que se orienta pelas próprias coisas e toma delas sua medida.
  • Verdade significa, nesse sentido, conformidade com as coisas, e não apenas cada verdade particular deve conformar-se às coisas singulares, mas também a própria determinação essencial da verdade deve corresponder à essência da coisa.
  • Se verdade significa correção ou retidão enquanto orientar-se por algo, então a determinação da essência da verdade deve adequar-se à coisidade, de modo que a estrutura (Bau) da verdade precisa refletir a estrutura das próprias coisas.
  • Caso a mesma articulação encontrada na estrutura essencial da coisa apareça também na estrutura essencial da verdade, a determinação tradicional da coisa como suporte de propriedades receberá uma comprovação fundada na própria essência da verdade.
  • Para esclarecer essa correspondência, torna-se necessário determinar aquilo que propriamente pode ser verdadeiro ou falso, pois palavras isoladas como «porta», «giz», «grande», «mas» ou «e» não possuem por si mesmas verdade nem falsidade.
  • Somente uma conexão de palavras, como «A porta está fechada» ou «O giz é branco», pode ser verdadeira ou falsa.
  • Tal conexão é denominada enunciado, e, uma vez que somente o enunciado pode ser verdadeiro ou falso, ele aparece como o lugar e o sítio da verdade.
  • Por essa razão, pode-se chamar simplesmente determinado enunciado de uma verdade, de modo que verdades e não-verdades assumem inicialmente a forma de enunciados.
  • O termo «enunciado» (Aussage) possui quatro significações articuladas entre si, cuja unidade fornece o plano completo de sua estrutura:
  • enunciar de algo — proposição;
  • enunciar sobre algo — informação;
  • enunciar a alguém — comunicação;
  • exprimir-se — expressão.
  • No caso de uma testemunha convocada perante um tribunal, recusar-se a depor significa não fazer nenhuma declaração e conservar para si aquilo que se sabe, de modo que «enunciado» aparece aqui no sentido de comunicação declarativa em oposição ao silêncio.
  • Quando uma testemunha efetivamente depõe, seu enunciado não consiste normalmente numa sequência de palavras isoladas, mas numa exposição articulada em que se relata determinado estado de coisas.
  • Ao narrar um acontecimento, como uma tentativa de arrombamento observada diretamente, a testemunha situa a ocorrência e suas circunstâncias mediante afirmações como «A casa estava mergulhada na escuridão» ou «As venezianas estavam fechadas».
  • A comunicação em sentido amplo compõe-se, portanto, de enunciados em sentido mais estreito, isto é, de proposições que fornecem informação acerca de determinado estado de coisas.
  • Nesse sentido mais estreito, enunciar não significa simplesmente pronunciar palavras em voz alta, mas dizer algo acerca da casa, de sua situação e das circunstâncias do acontecimento.
  • Enunciar significa, assim, considerar a coisa e suas circunstâncias tal como aparecem e dizer algo a seu respeito, constituindo uma informação sobre aquilo de que se fala.
  • Essa informação realiza-se mediante uma proposição acerca daquilo que constitui o objeto do discurso.
  • Em um terceiro sentido, enunciar significa retirar daquilo de que se fala uma determinação que lhe pertence e atribuí-la expressamente à coisa como aquilo que lhe convém.
  • Aquilo que é assim atribuído à coisa recebe o nome de predicado, e o enunciado compreendido nessa dimensão é predicativo, constituindo propriamente uma proposição.
  • O enunciado apresenta, portanto, uma estrutura tríplice: é uma proposição que fornece uma informação e que, quando realizada diante de outros, converte-se em comunicação.
  • A comunicação torna-se possível quando a informação é correta, isto é, quando o enunciado enquanto proposição atribui adequadamente algo a alguma coisa e, por isso, constitui o sítio da verdade.
  • Na estrutura da proposição distinguem-se sujeito, predicado e cópula, correspondendo respectivamente ao objeto da proposição, ao que se enuncia acerca dele e à palavra de ligação que articula ambos.
  • A verdade consiste em que o predicado convenha ao sujeito e seja posto e dito na proposição justamente enquanto determinação que lhe pertence.
  • A estrutura da proposição verdadeira, constituída pelo objeto da proposição e pelo que dele é predicado, corresponde exatamente à estrutura da coisa enquanto suporte e de suas propriedades.
  • A construção da verdade reflete, portanto, aquilo pelo qual ela se orienta: a coisa enquanto substrato permanente ao qual pertencem determinadas propriedades.
  • A própria essência da verdade, compreendida mediante a estrutura da proposição verdadeira, parece assim fornecer uma prova inequívoca da verdade da determinação tradicional da estrutura da coisa.
  • A resposta à pergunta «O que é uma coisa?» pode ser resumida numa tríade de fundamentações convergentes:
  • 1º A determinação da coisa como suporte de propriedades parece derivar «naturalmente» da experiência cotidiana.
  • 2º Essa determinação da coisidade encontra-se presente na filosofia desde a Antiguidade, aparentemente porque se impõe de maneira igualmente «natural».
  • 3º A legitimidade dessa determinação da essência da coisa parece finalmente garantida pela própria essência da verdade, também tomada como autoevidente e «natural», enquanto conformidade entre proposição e coisa.
  • Uma pergunta que recebe resposta tão naturalmente e cuja resposta pode ser fundamentada de maneira igualmente natural parece já não constituir uma questão séria.
  • Insistir nela poderia então parecer simples obstinação ou até uma espécie de loucura que ousasse atacar aquilo que se apresenta como «natural» e fora de toda discussão.
  • Tudo parece aconselhar, portanto, que se abandone a pergunta aparentemente resolvida «O que é uma coisa?», embora, antes desse abandono definitivo, ainda se imponha uma última questão incidental.
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