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A.3 Coisidade

A. DIVERSAS MANEIRAS DE INTERROGAR EM DIREÇÃO À COISA

III. A ESPECIFICIDADE DA INTERROGAÇÃO EM DIREÇÃO À COISIDADE EM RELAÇÃO AOS MÉTODOS CIENTÍFICOS E TÉCNICOS

A pergunta «O que é uma coisa?» distingue-se radicalmente das formas científicas e técnicas de determinação dos entes porque não procura estabelecer o que sejam esta ou aquela pedra, planta, animal, utensílio ou instrumento segundo suas propriedades particulares, mas interroga aquilo que faz de uma coisa precisamente uma coisa, isto é, a coisidade da coisa, conduzindo assim do âmbito do condicionado (das Bedingte) àquilo que condiciona a coisa sem ser por sua vez uma coisa condicionada, o incondicionado (das Unbedingte), e instaurando um modo de saber inteiramente diverso tanto da ciência quanto da chamada «concepção de mundo».

  • À primeira vista, a interrogação filosófica parece chegar sempre tarde demais, pois as coisas circundantes já se encontram determinadas por conhecimentos especializados: a mineralogia e a química esclarecem o que são as pedras, a botânica determina plantas e arbustos, a zoologia investiga animais, enquanto o sapateiro, o ferrador e o relojoeiro dispõem de um conhecimento competente acerca dos respectivos produtos e instrumentos.
  • A existência dessas ciências, técnicas e práticas especializadas parece confirmar que nada se pode empreender com a pergunta «O que é uma coisa?», tornando necessário esclarecer que espécie de saber nela se procura e em que ele difere daquilo que pode ser fornecido pelos procedimentos científicos e artesanais.
  • Não se pretende determinar o que sejam granito, sílex, calcário ou arenito em suas diferenças mineralógicas, mas o que seja a pedra enquanto coisa; tampouco se procura estabelecer as diferenças entre musgos, samambaias, gramíneas, arbustos e árvores, mas compreender a planta enquanto coisa, e o mesmo vale para os animais.
  • Também no caso dos utensílios, não se pergunta pela diferença entre um alicate e um martelo, entre um relógio e uma chave, mas pelo que utensílio e instrumento são enquanto coisas, deslocando-se assim a questão das particularidades de cada ente para a condição pela qual ele pode aparecer como coisa.
  • A exigência científica de ater-se aos fatos e à observação exata permanece plenamente justificada em seu domínio, pois aquilo que as coisas são sob determinada perspectiva não pode ser simplesmente imaginado à mesa de trabalho nem decretado mediante discursos gerais, mas deve ser investigado nos laboratórios e oficinas competentes.
  • A interrogação filosófica, entretanto, parece transgredir justamente essa exigência ao saltar por cima dos dados e circunstâncias particulares que ordinariamente são considerados suficientes para informar adequadamente acerca das coisas, expondo-se novamente ao riso da serva trácia.
  • Esse salto ultrapassa não apenas pedras e minerais particulares, plantas e espécies vegetais particulares, animais e espécies animais particulares ou diversos instrumentos e utensílios, mas também as próprias regiões do inanimado, do vivo e do utilizável, pois a questão se dirige unicamente àquilo que faz da coisa, enquanto coisa e não enquanto pedra, madeira, planta ou instrumento, uma coisa.
  • Perguntar pelo que «condiciona a coisa» (was das Ding be-dingt) significa interrogar pela coisidade da coisa, isto é, por aquilo em virtude do qual uma coisa é precisamente coisa.
  • A coisidade que condiciona a coisa não pode ser novamente uma coisa, isto é, algo condicionado (ein Bedingtes), pois nesse caso a pergunta apenas remeteria de uma coisa condicionada a outra; aquilo que condiciona a coisa deve, portanto, ser pensado como incondicionado (Unbedingtes).
  • A pergunta «O que é uma coisa?» converte-se assim numa interrogação pelo incondicionado (Unbedingtes), de modo que, embora parta justamente do que está mais próximo e pode ser agarrado pela mão, afasta-se das coisas próximas ainda mais radicalmente do que Tales ao dirigir o olhar para as estrelas.
  • Enquanto Tales ultrapassava apenas aquilo que estava imediatamente a seus pés em direção aos astros, a interrogação pela coisidade ultrapassa as próprias estrelas e toda coisa determinada, avançando para o incondicionado, onde já não resta coisa alguma que possa servir de solo ou fundamento.
  • Esse afastamento extremo das coisas não significa, contudo, abandono do interesse por elas, pois permanece em questão precisamente o que sejam a pedra, o lagarto aquecendo-se ao sol sobre ela, o ramo de erva que cresce ao lado e a faca eventualmente segurada pela mão de alguém deitado na pradaria.
  • Procura-se nessas coisas algo que mineralogistas, botânicos, zoólogos e cuteleiros talvez não queiram propriamente saber e que possivelmente nem sequer possam saber mediante sua ciência ou habilidade artesanal, porque seus objetivos concretos podem consistir no avanço da ciência, na satisfação do desejo de descoberta, na demonstração da utilidade técnica das coisas ou simplesmente na obtenção do próprio sustento.
  • A pretensão inerente a essa interrogação não deve ser entendida como arrogância pessoal contra cientistas ou artesãos, nem como contestação da utilidade e da necessidade das ciências, mas como exigência própria de um modo de saber cuja direção não coincide com aquela dos conhecimentos científicos e técnicos.
  • A aspiração a esse saber possui o caráter de pretensão inerente a toda decisão essencial: trata-se de decidir se deve ser buscado um saber com o qual, no sentido habitual de utilidade, nada se pode fazer.
  • A renúncia a tal saber deixaria tudo aparentemente como está: exames poderiam continuar sendo realizados, talvez até com maior facilidade, e a formulação da pergunta não transformaria miraculosamente alguém em melhor botânico, zoólogo, historiador, jurista ou fisiologista.
  • A transformação possível situa-se em outro plano: professores, médicos ou juízes poderiam tornar-se não necessariamente «melhores» segundo os critérios profissionais correntes, mas diferentes em sua maneira de ser e de exercer sua atividade, embora a pergunta pela coisa não lhes ofereça nenhuma utilidade técnica diretamente aplicável.
  • A interrogação filosófica não pretende substituir nem aperfeiçoar as ciências, mas preparar a decisão acerca de saber se a ciência constitui a medida de todo saber ou se existe um saber mais originário no qual primeiro se determinam o fundamento e os limites da própria ciência e, com isso, também sua verdadeira eficácia.
  • Vincula-se a essa decisão a questão de saber se tal conhecimento autêntico é necessário a um povo historial ou se pode ser abandonado e substituído por alguma outra forma de orientação.
  • Decisões essenciais dessa natureza não resultam de discursos abstratos acerca delas, mas da instauração de uma situação e de disposições nas quais a própria decisão se torna inevitável, de modo que até a tentativa de esquivar-se dela constitui já uma decisão, e justamente uma das mais graves.
  • A preparação dessas decisões somente pode realizar-se por meio de uma interrogação que, segundo o julgamento corrente e a perspectiva das servas, parece não servir para nada, razão pela qual esse modo de perguntar inevitavelmente assume diante das ciências a aparência de uma pretensão de «saber melhor».
  • O «melhor», porém, designaria apenas uma diferença de grau dentro de um mesmo domínio, ao passo que a pergunta pela coisidade se situa fora do domínio próprio das ciências e aspira a um saber que não é nem melhor nem pior do que o científico, mas inteiramente outro.
  • Esse saber é outro não apenas em relação à ciência, mas também em relação ao que costuma ser denominado «concepção do mundo», pois não procura oferecer uma imagem geral dos entes, e sim abrir a dimensão na qual se tornam questionáveis o fundamento, os limites e a própria possibilidade dos modos determinados de saber.
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