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GA13 Serenidade

Aus der Erfahrung Denkens (1910-1976) [1983]

  1. A questão sobre a essência do ser humano não se resolve olhando diretamente para o ser humano, pois a essência do pensamento, sendo o essencial dessa essência, só pode ser vislumbrada quando se desvia o olhar do próprio pensamento.
  2. O pensamento, tradicionalmente compreendido como representação (Vorstellen), é equiparado à vontade (Wollen), como em Kant, que o define como espontaneidade; assim, pensar é querer e querer é pensar.
  3. A busca pela essência do pensamento leva ao “não-querer” (Nicht-Wollen), um termo ambíguo que pode significar tanto uma vontade que se nega a si mesma quanto aquilo que permanece inteiramente fora de qualquer espécie de vontade.
  4. O “não-querer” como negação da vontade pode servir como um caminho para se aproximar daquilo que não é vontade, pois através dessa recusa voluntária se prepara o acesso à essência do pensamento procurada.
  5. O verdadeiro objetivo não é despertar a serenidade (Gelassenheit) a partir de si mesmo, mas sim permiti-la (zulassen), pois ela não é causada ou produzida, mas ocorre quando a essência do ser humano se concede em se abrir para o que não é vontade.
  6. A serenidade (Gelassenheit) não se enquadra na distinção entre atividade e passividade, uma vez que não pertence ao domínio da vontade, representando, em vez disso, um fazer superior que, no entanto, não é uma atividade no sentido usual.
  7. A dificuldade fundamental reside na transição da vontade para a serenidade, especialmente quando a essência da serenidade permanece oculta e pode ser facilmente compreendida, de modo equivocado, ainda dentro do âmbito da vontade, como ocorre em certas doutrinas.
  8. A serenidade não deve ser confundida com o abandono da vontade própria em favor de uma vontade divina, como em mestres do pensamento como Meister Eckhart, pois a serenidade em questão não visa um ato de vontade, mesmo que seja para um fim superior.
  9. Para acessar a essência do pensamento, que não é uma representação, não se deve “fazer” nada, mas sim “esperar” (warten); essa espera é um estado de abertura e não a expectativa (erwarten) de algo que já é representado.
  10. A espera (warten) não tem um objeto, mas se abre para o aberto (das Offene), que é a região (Gegend) ou, em sua forma mais antiga, a “contra-região” (Gegnet), a amplidão que tudo recolhe e deixa repousar em si mesmo.
  11. A “Gegnet” (contra-região) é a amplidão que perdura (verweilende Weite), que tudo recolhe e se abre, permitindo que cada coisa repouse em si mesma, e não é um horizonte que nos cerca ou se oferece à nossa representação.
  12. O pensamento que busca sua essência não é mais uma representação (Vorstellen), mas sim o “chegar perto do distante” (In-die-Nähe-kommen zum Fernen), um movimento que se realiza na espera (warten) e na serenidade (Gelassenheit).
  13. A essência do pensamento é a serenidade em relação à “Gegnet”, e essa serenidade se manifesta como espera (warten) que se abandonou à representação transcendental para se entregar à “Gegnet”.
  14. A serenidade (Gelassenheit) é o “relacionar-se com” a “Gegnet” no qual o ser humano, em sua essência, é deixado (gelassen) e pertence a ela, sendo esta relação verdadeira porque é mantida e determinada pela própria “Gegnet”.
  15. O relacionamento com a “Gegnet” é a espera (warten), e essa espera é descrita como o “entregar-se ao aberto” da “Gegnet”, o que implica que o ser humano, como ser que representa de modo transcendental, está simultaneamente dentro e fora da “Gegnet”.
  16. A “Gelassenheit” autêntica, que é o relacionamento próprio com a “Gegnet”, não se funda em um estado de desprendimento prévio, mas em uma “pertença” (Gehören) original do ser humano à “Gegnet”, uma “apropriação” (Eignung) que vem da própria “Gegnet”.
  17. A transformação do pensamento de uma representação transcendental para a espera (warten) na “Gegnet” é a própria essência do pensamento, que passa a ser definida não por si mesmo, mas pelo “outro” de si mesmo, ou seja, pela “Gegnet” em seu evento de “contra-região” (Vergegnis).
  18. O pensamento é a serenidade para a “Gegnet”, e a essência dessa serenidade reside no “evento de contra-região” (Vergegnis), onde a “Gegnet” recolhe a serenidade em si e a deixa repousar em seu próprio ser.
  19. A relação entre a “Gegnet” e a coisa (Ding) não é causal, nem transcendental-horizontal, não sendo nem ôntica nem ontológica; a “Gegnet” deixa a coisa repousar em si mesma, e a isso se chama “condição” (Bedingnis).
  20. A relação entre a “Gegnet” e a serenidade (Gelassenheit) também não é causal ou transcendental-horizontal, mas é o “evento de contra-região” (Vergegnis), que é a relação própria da “Gegnet” com a essência humana.
  21. A relação entre o eu (Ich) e o objeto (Gegenstand), a relação sujeito-objeto, é uma modificação histórica da relação do ser humano com a coisa (Ding), e não é a relação mais universal, pois as coisas podem se tornar objetos antes de atingirem sua essência de coisa.
  22. A “Gegnet” e seu “evento de contra-região” (Vergegnis) são a base da história (das Geschichtliche), que não consiste em eventos ou feitos mundanos, mas no envio da “Gegnet” ao ser humano para apropriá-lo (ver-eignen) à sua essência.
  23. A relação entre a “Gegnet” e a coisa é chamada de “condição” (Bedingnis), e o que é o “condicionar” (Bedingen) deve ser aprendido a pensar, assim como o que é o pensamento, que é a experiência da “condição” e do “evento de contra-região” (Vergegnis).
  24. A serenidade (Gelassenheit) é o “abrir mão” (Sichloslassen) da representação transcendental, e portanto um “desviar-se” (Absehen) da vontade do horizonte; essa serenidade não é uma vontade passiva ou uma negação da vontade de viver, mas uma “decisão” (Entschlossenheit) para a verdade que é.
  25. A “Gelassenheit” autêntica implica uma “constância” (Inständigkeit), uma perseverança silenciosa que não se exibe como uma postura, mas que se recolhe na reserva e é a “receptividade” (Empfängnis) para o “evento de contra-região” (Vergegnis) da “Gegnet”.
  26. A “Inständigkeit” (constância) na serenidade é o verdadeiro ser da espontaneidade do pensamento, e a essência do pensamento é o “lembrar” (Andenken), aparentado com o nobre (Edel), sendo a constância da serenidade a própria “nobreza de espírito” (Edelmut).
  27. A essência do ser humano é deixada (gelassen) à “Gegnet” “de antemão” (im vorhinein) e “desde o impensável” (im Unvordenklichen) pela própria “Gegnet”, que a apropria ao seu próprio contrair; a “Gegnet” precisa da essência humana para poder ser o que é.
  28. A relação entre a “Gegnet” e a essência humana é tal que a “Gegnet” (como a verdade) precisa do ser humano, mas a verdade é independente dele; essa independência é, no entanto, uma relação que repousa no “evento de contra-região” (Vergegnis) que “usa” o ser humano.
  29. O ser humano é aquele que é “usado” pela verdade, e nessa “procedência” (Herkunft) de sua essência, ele é tocado pelo nobre (Edlen), e a “constância” (Inständigkeit) da serenidade é a “nobreza de espírito” (Edelmut), o puro repousar em si mesmo da vontade que se negou a si mesma.
  30. O “Edelmut” é a essência do pensamento e, portanto, do “agradecimento” (Danken), um agradecimento que não se dá por algo, mas que simplesmente agradece por poder agradecer, sendo a essência da “Gegnet” o que parece fundamentar tudo o que foi dito.
  31. Chegou-se à “proximidade” da essência da “Gegnet”, mas a própria “Gegnet” parece mais distante do que nunca; a “Gegnet” é a “proximidade da distância” (Nähe der Ferne), e o pensamento é a “constância na serenidade” (Inständigkeit in der Gelassenheit).
  32. O pensamento, como relação essencial do ser humano com a “Gegnet”, é experimentado como a “proximidade da distância”, e uma palavra grega, “ἐγγυάλιν” (engyalin), que significa “chegar perto” (Herangehen), poderia ser um nome, e talvez o mais belo, para a essência do pensamento encontrada.
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