1 Natureza
INGARDEN, Roman. Über die Verantwortung: Ihre ontologischen Fundamente. Stuttgart: Reclam, 1970.
O homem e a natureza
1. A transcendência humana em relação à natureza manifesta-se na criação de um mundo historicamente variável e nas atividades de conhecer a verdade, realizar o bem e configurar a beleza, mas sua compreensão exige esclarecer o sentido e o modo de existência das obras humanas, pois a natureza antecede essas atividades, transforma-se amplamente sem depender delas e constitui o fundamento último tanto do ser humano quanto de suas criações culturais.
2. O confronto com a natureza originária desperta simultaneamente um sentimento de estranheza diante de sua indiferença e uma consciência da dignidade humana que parece ultrapassá-la, levando o ser humano a resistir à identificação de si com a animalidade e a mortalidade e, diante da impossibilidade de superar inteiramente suas condições naturais, a criar ao redor e dentro de si uma realidade cultural pela qual assume sua humanidade.
3. A transformação da natureza e a criação de obras, saberes, instituições, vínculos e histórias conferem à existência humana significações, valores, obrigações e responsabilidade que não pertencem à natureza bruta, permitindo constituir-se como pessoa, orientar-se por ideais e buscar a comunhão com Deus, embora essa camada cultural, capaz de modificar o sentido de toda a vida, permaneça sustentada por uma natureza indiferente aos valores e da qual sua existência continua dependendo.
4. A criatividade humana não pode conferir existência autônoma ao mundo cultural, mas apenas transformar bases naturais de modo que sustentem formações intencionais dotadas de novas significações, cuja presença e eficácia na vida espiritual e, em certa medida, corporal dependem da atividade da consciência e se enfraquecem quando desaparece o empenho humano em ultrapassar sua condição natural imediata.
5. A existência humana situa-se na fronteira entre a animalidade natural que a sustenta e o mundo especificamente humano sem o qual não pode viver, permanecendo obrigada a existir no interior da natureza e, simultaneamente, a ultrapassar seus limites sem jamais satisfazer integralmente sua necessidade de humanidade.
6. A tensão entre criatividade e finitude constitui a dimensão trágica da condição humana, cuja superação possível reside tanto no conhecimento verdadeiro de si e da natureza quanto na realização dos valores do bem e da beleza, que, embora se manifestem em obras intencionais, possuem para o ser humano uma realidade superior à natureza bruta e permitem reconhecer que sua vida não transcorre em vão.
