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obra:ga89:2021:anima

DE ANIMA

HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Organizado por Peter Trawny (2018). Traduzido por Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2021

A DETERMINAÇÃO ARISTOTÉLICA DA PSYCHÉ

1. A determinação aristotélica da psyché (ψυχή), quando pensada a partir das representações modernas, chama a atenção pelo que não ocorre – a saber, nenhuma “consciência” (Bewusstsein), nenhum “sujeito” (Subjekt) e nenhum interior/exterior (Innen/Außen) –, e pelo que está em questão, que é ter visto cientificamente para, então, pela primeira vez “ver”, considerando-se a enteléquia (ἐντελέχεια), o homonímico (ὁμώνυμον) como “corpo vivo” (lebendiger Leib) e o “ὄργανον λόγον ἔχον”.

2. No livro “De anima” (De anima B 1, 412 a 3 e seguintes), retoma-se o que foi apresentado pelos pensadores mais antigos sobre a alma, lançando-se novamente às coisas para delimitar o que é a psyché (ψυχή) e qual seria a maneira mais comum de interpelá-la em seu quid (quid), partindo-se do princípio de que a entidade (Seiendheit) é a presentidade (Anwesenheit) do que se presenta, e que um de seus modos é o “a partir de que” (ὑποκείμενον), enquanto outro é a figura e o aspecto (εἶδος), e o terceiro é o que advém desses dois, sendo que o “a partir de que” é a base (Hypokeimenon) e o aspecto é o que mantém algo na consumação (Vollendung) de seu presentar, de maneira dupla: como saber (ἐπιστήμη) e como contemplação (θεωρεῖν), e que, antes de tudo, estão o “elemento corporal” (körperliches Element) e, a partir dele, aquilo que se encontra por si mesmo no presente, constituindo as saídas de todo o resto.

3. Denomina-se vida (Leben) aquilo que se alimenta, cresce e definha por si mesmo, de modo que tudo o que é corporal e desponta assim por si, e que contém vida, tem o direito de ser algo que se presenta à maneira da reunião (Versammlung); na medida em que um tal ente corporalmente presente se mostra como um este aí (Dieses da) e retém a vida junto a si, a psyché (ψυχή) não pode ser nenhum ente corporalmente subsistente por si, pois o que é corporalmente presente não pertence àquilo que é dito em primeiro lugar com vistas a algo que já se encontra de antemão aí, mas ele mesmo é como algo que prontamente se encontra de antemão na base (Hypokeimenon) e como aquilo “a-partir-de-que” (ὑποκείμενον) do qual algo diverso é produzido.

4. A psyché (Psyché) é, necessariamente, presentidade (Anwesenheit) sob o modo do aspecto (Aussehen), ou seja, trazer à aparência (Erscheinung), sendo algo corporal que desponta por si mesmo e que contém, segundo a sua base, vida; a presentidade, aqui, é o manter na consumação (Vollendung) do presentar-se, manifestamente no que se refere a um tal elemento corporal, e a divisão (Unterscheidung) se dá de maneira dupla: uma como saber (ἐπιστήμη) e a outra como contemplação (θεωρεῖν), isto é, ver (ter visto).

5. De maneira patente, porém, o que está em questão é o saber (ἐπιστήμη), pois no vigor prévio da psyché (ψυχή) há tanto o dormir (Schlaf) quanto o despertar (Wachen); de maneira correspondente, a essência (Wesen) está para a contemplação (θεωρεῖν), assim como o sono está para a retenção (Verweilen) e para o não essenciar-se na obra, enquanto que, anteriormente, de acordo com o emergir, o saber se volta para o mesmo, e por isso a psyché (Psyché) é o manter-na-consumação (Vollendung) e é aquilo que antecede tudo – algo corporal (Körperliches) que desponta por si –, que tem, segundo a sua estrutura (Gefüge), vida.

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