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obra:ga89:2021:1963-4-e-5

1963-4e5

HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Organizado por Peter Trawny (2018). Traduzido por Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2021

III. DIÁLOGOS COM MEDARD BOSS NA SICÍLIA DE 23 DE ABRIL A 4 DE MAIO DE 1963

1. A saída para o interior das “imagens da lembrança” baseia-se em uma concepção insuficiente e restrita de presentidade (Anwesenheit) e tempo (Zeit), o que levanta a questão sobre os diversos modos de presentidade; o passado, embora tenha sido e não possa estar ao mesmo tempo na lembrança, vive na lembrança como um saber sobre o passado, o que é possível na medida em que o passado está presente para a consciência, e, portanto, o passado precisa ao mesmo tempo estar dado no presente, mas, uma vez que ele está ausente, apenas uma imagem diversa dele pode estar presente, e, ao conceber essa imagem como imagem de um objeto passado, obtém-se mediatamente um saber sobre um objeto passado.

2. As anotações sobre o diálogo com Boss tratam do “abarcar” (umfassen) em “Ser e tempo”, da relação entre ciência, antropologia e unidade como uma região do ente, e da ciência do ser humano como behavioral science ou comportement, que envolve o comportamento co-humano e a “caracterização” da essência, remetendo à natura.

3. A suposição construtiva, com fins de uma explicação una e sem contradição, opera por ressonância por detrás, sem consideração de que se movimenta em uma região ontológica; a visada prévia para o essencial envolve a visão da essência (enunciado de essência, καθ'αύτό) e a percepção de fatos (enunciados de fatos, τί κατά τίνος); o quimismo fisiológico, orgânico e material é uma condição necessária do Dasein terreno, mas não a condição “suficiente”, e o “fundamento” é discutido a partir das quatro causas (Ursachen), onde a base (ὑποκείμενον) não é aquilo em que consiste (εἶδος), e o movimento (κίνησις) é diferenciado em γένεσις, φθορά, αὔξησις, ἀλλοίωσις e μεταβολή, com as noções de ἐκ τίνος e εἰς τί.

4. A con-sciência (Bewusst-sein) é contraposta ao Dasein, onde ser con-sciente é ser co-saber, contemplar, ter uma visão, ser trazido à luz e perceber em sua verdade, e o “aí” é a cada vez clareado; a consciência pertence ao Dasein, e não o inverso, e pergunta-se em que medida toda consciência é autoconsciência e con-sciência de algo.

5. O condicionar (bedingen) é abordado a partir do contingere e cotangere, em contraste com o in-condicionado; a condição necessária é o que concerne concomitantemente de maneira necessária ao Dasein e, assim, pertence a ele, enquanto o necessário para o Dasein é dependente dele e o possibilita pela primeira vez; o “aí” é a clareira do mundo terreno, da terra mundante, como estada, e a condição suficiente concerne à essência como o projeto do ser que constitui essa essência, insistindo na clareira do encobrir-se; o Dasein mesmo é incondicionado ou con-dicionado na medida em que é concernido pela interpelação do ser, e propriamente é autorizado na autorização para precisar, usado para a exportação resolutora do acontecimento apropriador (Ereignis), de maneira correspondente à inaterpelação da saga (Sage) da junção livre e fugidia do aconselhável; o condicionar, de maneira indicativo formal, não é materialmente determinado, mas determinável e transformável, e o corpo vivo (Leib) é algo condicionante que, por sua vez, é con-dicionado, sendo o terreno pertencente à terra do Dasein.

6. As anotações sobre a conversa com Boss colocam a meta e a razão da terapia como ajudar, onde o ser humano, carente de ajuda, é auxiliado por um querer ajudar; o “temporal” (zeitlich) é caracterizado como temporalizar (zeitigen), eclodindo e se desdobrando na clareira, e o nasci e a natura são confrontados com as noções de natura naturans e natura naturata em Scotus Eriugena, e com a tradução de “temporalizar” por Beaufret como amadurecer, emergir e desdobrar-se, referindo-se ao ser-no-mundo (In-der-Welt-sein).

7. O Dasein é o ente para o qual, em seu ser [ser-no-mundo que cuida de si existindo], o que está em jogo é o ser-no-mundo mesmo, e esse “mesmo” não é um eu, nem um egoísmo, nem um solipsismo, nem um sujeito, mas o ser um com o outro e o ser junto a, onde o mesmo é a totalidade do co-pertencimento e o si mesmo que se temporaliza, e a interpelação exige correspondência, satisfação e pertencimento ao que é preciso.

8. O Dasein é confrontado com as incompreensões alegórica, idealista, platônica, subjetivista e egoísta, e com a referência ao “Hino de Demeter” (χαλεποὶ δὲ θεοὶ θνητοῖσιν ὁρᾶσθαι, ἀληθέα μυθήσασθαι, μέγα γάρ τι θεῶν σέβας ἰσχάνει αὐδήν), que trata da dificuldade de ver os deuses e de dizer a verdade.

9. O comportamento (Verhalten), o estado, o morar (Wohnen), o mundo (Welt) e o acontecimento apropriador (Ereignis) são articulados com a resolução (Entschlossenheit), o sustentar (Tragen) e a estada (Aufenthalt) no mundo em relação com o que se presenta e se ausenta; o mundo e a quaternidade (Geviert) são relacionados ao acontecimento apropriador e à clareira (Lichtung), e a estada é o manter-se no mundo como um se afastar da visão da estada no mundo, imergindo na concernência do que se presenta e se ausenta; a presentidade, como quaternidade do mundo, acontece apropriadoramente no acontecimento desapropriador (Enteignis) para a junção livre e fugidia do aconselhável, e o mundar a partir do acontecimento apropriado é o próprio acontecimento apropriador que munda; o “comportamento” é o reter as ligações com as coisas (homens, divinos, terra e céu), e o “ser-no-mundo” é a estada, o comportamento e o sustentar (morar e habitar) a ligação com a coisa, onde o mundo não é o entorno, mas o fogo do mundo, e não é algo em face de, mas a com-posição (Ge-stell) e a relação, sendo o mundo como relação.

10. As anotações para o diálogo com Boss tratam da representação (Vorstellung), da ideia, da repraesentatio mental, do conteúdo mental, do imaginado e do conteúdo de uma representação; a “projeção” é exemplificada pelo encontrar o mal junto aos outros e xingar o inimigo como performance de um poder ekstático, e a “transmissão” e a “ligação caduca” são discutidas com exemplos como o pai rigoroso e o ódio, em contraposição à inserção na afinação (Gestimmtheit).

11. O esquecimento (Vergessen) é diferenciado em três modos: não pensar em algo (como esquecer de pegar o guarda-chuva), o não suster mais (como um nome suprimido) e o permanecer velado inicial (o ser enquanto tal); o esquecimento envolve o obscurecimento, o não poder mais se lembrar, a retração (Entzug) e o encobrimento, sendo que o esquecível é apenas o que alguém já pensou ou experimentou, como o “ser”, mas não enquanto tal; o turbilhão do esquecimento é contraposto ao poder reencontrar o que foi experimentado, e o manter (Behalten) é distinguido do receptáculo e do “engrama” (hipótese explicativa), onde a experiência fenomenológica é necessária para que o engrama tenha sentido, e o engrama não esgota o manter, enquanto o rememorar não é uma exportação rigorosa; o estar afinado (Gestimmtheit) e o esquecer são expostos ao acontecimento desapropriador (Enteignis), e o esquecimento do ser (Seinsvergessenheit) é o não atentar para o ser e o não considerar o ser enquanto ser, já como consequência do acontecimento desapropriador no acontecimento apropriador; todo esquecimento é de algum modo ter se esquecido, como encobrir, ocultar, encapsular e velar, e pergunta-se se o esquecer é uma execução ou um acontecer-conosco.

12. A vis primitiva activa de Leibniz, como perceptivo e appetitus, é contraposta ao pensar e planejar freudianos, onde a “diferenciação das pulsões” é vista a partir do ser-no-mundo, e o pensar é uma pulsionalidade e satisfação pulsional em desvio, com o representar e planejar como fazer psíquico a serviço da satisfação pulsional; a citação de Freud sobre o orgânico que aspira a retornar à quietude do inorgânico é confrontada com a noção de quietude como distensão e recolhimento da tensão, e as “pulsões” são caracterizadas como “essências mitológicas de uma origem desconhecida”, enquanto o ser humano é um feixe pulsional (do acontecimento apropriador).

13. O fenômeno (Phänomen) é definido como o que se mostra a partir de si mesmo, para aquele que libera esse fenômeno no seu âmbito respectivo para o seu presentar, para aquilo que respectivamente se presenta e como se presenta; porém, há também aquilo que não pertence ao presentar segundo o modo de ser das coisas e dos objetos das ciências, antes de tudo o ser humano, e pergunta-se o que é o ser humano, como o que e como se temporaliza para nós o nosso próprio ser, quando se alijam todos os modos de consideração científica do homem e todas as teorias da antropologia; as questões, segundo esse aspecto, envolvem a direção do olhar e o aceno para os pressupostos, e indaga-se em que medida a antropologia nunca vislumbra o elemento normativo do ser humano.

14. A clareira (Lichtung) e o Dasein são articulados: é sem a clareira do ser, que o ser humano, usado para isso e protegendo nela habitando, não pode fazer com que o ente apareça como algo que se presenta ou ausenta; assim, o ser humano consegue experimentar o que já se presenta como um tal diante de seu próprio Dasein – o fato de que ele outrora já era –, mas não consegue dizer nada sobre algo que outrora se presentou ou se ausentou, na medida em que outrora a clareira do ser ainda permanecera de fora; em relação a um sempre a cada vez hoje, onde nenhum hoje, nenhum outrora e nenhum sido, nem presente nem ausente, e também nenhum velamento, e o ainda não diz respeito ao desconhecimento; sem compreensão de ser (Seinsverständnis) não há ente nem manifestabilidade do ente enquanto tal; outrora, uma vez que o ser humano não existia, não havia nem manifestabilidade nem velamento do ente, mas o ente já era, e isso só se consegue experimentar a partir da clareira de outrora, não, contudo, um ente de outrora não humano, mas o ente é; a compreensão do ser é o projeto do ser (Seinsentwurf), jogado e solto na decisão (clareira) do ser, como estada junto ao ente; o fato de que algo certo indubitavelmente é – ego cogito, eu sou – é abstrato como res cogitans subsistente por si, enquanto o (Ego) habito – eu moro em um mundo – é a concreção fundamental, entretecido em seu crescimento com o originariamente concrecido, onde eu sou como Dasein.

15. Em “Ser e tempo”, o estabelecimento é em termos ontológico-fundamentais, não sendo nem uma ontologia tematicamente completa do Dasein, nem mesmo uma antropologia concreta, mas também não é “abstrato”, se a questão do ser é aquilo em que de antemão tudo se reúne (em que tudo concresce originariamente), ou seja, o unicamente concreto; a clara diferenciação entre “ideia do ser em geral” e ser do Dasein é indicada, e o ser não é simples, mas é visto como presentidade (Anwesenheit), desvelamento (Entbergung) e acontecimento apropriador (Ereignis).

16. O eu (Ich) e o si mesmo (Selbst) são discutidos: o eu é um si mesmo que se é, um ser-no-mundo que se sobreapropria de si em meio ao acontecimento, e o “meu”, “teu” e “seu” são modos desse si mesmo; o eu e a egocidade nada são “por si” sem o ser-no-mundo, e o ego habito – eu sou em um mundo, habito o mundo, me mantenho em um mundo – é contraposto ao ego cogito, onde em mim como psyché subsistente em si ocorre um pensar e um representar imanente, permanecendo interno em uma alma fechada e encapsulada; a referência a Freud traz o Id como corpóreo e “abertamente contra o somático”, com a condução de tensões, a satisfação e a experiência de tensão, onde o “eu” é desprezado e o Super-eu são as requisições morais dos pais introjetadas no id, e as “três instâncias psíquicas” são denominadas a partir de um si mesmo – o mesmo –, enquanto Jung vê o si mesmo como id + eu, e a loucura como o incessantemente constante.

17. A questão sobre a terra sem os seres humanos é colocada em duas alternativas: ou há ser e, com isto, ente apenas sob o uso da clareira – e, neste caso, não haveria nenhuma terra antes do homem, e não se poderia dizer que a terra era antes de o ser humano existir sem referência à clareira –, ou há ente sem o uso da clareira, e então a transcendência não é válida; a idade da terra constatada por meio do relógio atômico pressupõe que ela já era, e pergunta-se o que significa ente “é”: ele se mostra como algo que se presenta em seu presentar, ou ele se “pre-” senta (onde, junto ao que e como?); a contradição entre “havia ente sem o ser humano” e a doutrina de que ser precisa do homem para a manifestabilidade do ente é confrontada, e a terra pode ser sem o ser humano, mas ser precisa do homem para a manifestabilidade do ente, onde ser e manifestabilidade são inseparáveis.

18. A interpretação de ser e Dasein é equívoca quando se diz que a terra era antes de o Dasein existir, pois o que significa “era” – a terra era sem ser levada em consideração pelo homem, subsistente, ela havia, há, como “ser em si e por si”, e ela ocorre em um lugar e é por isso anteriormente aí; a terra não precisa, para ser, do homem, e isso é apenas acidentalmente em referência ao ser observada.

19. A sentença “a terra é já (em um tempo), quando o ser humano ainda não existia” coloca que a terra é sem o ser humano, mas o “ser” é indeterminado – já ser, ser antes de, ser antecedente –, uma maneira de ser do ente independente do homem; segundo a doutrina, nenhum ser sem clareira e encobrimento, e para a conservação (proteção), o ser humano é necessário, o que gera uma contradição entre sentença e doutrina; ou a sentença é possível, ou a doutrina, e se se abandona a doutrina, pergunta-se o que significa “ser” sem referência à clareira e ao homem; ou a sentença não pensa aquilo que é visado nele, e a doutrina é normativa; ou, porém, não há contradição, e na sentença está compensado o que a doutrina diz: a referência à clareira e à proteção da clareira pelo homem; na sentença sobre o ser da terra, esse ente é interpelado como já sido, não em sua presença outrora atual, mas em referência ao homem e mesmo ao seu não-Dasein e sua possibilidade, e o todo está na clareira do ser na qual nos encontramos – já ter sido “outrora”; o assim chamado ser da terra não é sem clareira, sendo protegido pelo homem, e a terra ganha a presença a partir dela mesma como já sida antes do homem, antes de nós, ou para os camponeses que protegem a clareira da presentação como ter sido; a clareira não é apenas de ser como agora presente, mas como antigamente já presente, na temporalidade ekstática (ekstatische Zeitlichkeit); o ser da terra no sentido de ser antes do homem é também clareira na qual nos encontramos, antes do homem, e o homem não é pensado como referência.

20. O presentar (Anwesen) é algo que não precisa do homem, e pergunta-se como e a partir de onde o ser humano é preciso, no per-durar e no átimo que concerne, onde algo tal pode se deixar concernir; o pastoreio da clareira do encobrir-se (Hütung der Lichtung der Verbergung) é o ser usado como pastor do ter sido clareado, um modo insigne de pertencimento à clareira; o já tendo sido, como uma presentação sem um homem outrora presente, mostra que a presentação da terra – sua manifestabilidade – não precisa de um homem outrora já presente, não precisa do homem como aquele que se encontra na clareira do pleno presentar.

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