obra:ga34:ga34-1-opinioes-sobre-a-verdade
§ 1. O caráter questionável de nossas opiniões preconcebidas, “consideradas evidentes”, sobre a “essência” e a “verdade”.
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A interrogação sobre a verdade implica a busca de sua essência, assim como ocorre ao perguntar pela essência de qualquer coisa — mesa, montanha, mar ou planta —, uma vez que ao questionar “o que é isso?”, busca-se o ser daquilo que é.
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A essência é o que constitui algo como aquilo que é; é o universal comum a todas as manifestações particulares de um mesmo ente, o que permanece idêntico entre as variações individuais.
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Contudo, o acesso a essa universalidade dá-se pela comparação dos entes singulares, e o conhecimento das coisas particulares é condição prévia para a pergunta pela essência; assim também ocorre na pergunta pela essência da verdade.
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As verdades particulares — como proposições matemáticas, fatos históricos ou constatações cotidianas — mostram-se como expressões do verdadeiro, mas o que faz com que um enunciado seja verdadeiro é sua conformidade com o que é, sua coincidência com a coisa ou com o fato ao qual se refere.
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A verdade é, então, compreendida como coincidência, e essa coincidência fundamenta-se na retidão: o enunciado é verdadeiro na medida em que se orienta conforme o ente de que fala.
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Essa definição, aparentemente evidente, encerra um problema: conhecemos já a essência da verdade de modo implícito, pois, ao enunciar qualquer proposição verdadeira, pressupomos saber o que é “verdade”.
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A evidência da definição tradicional — verdade como coincidência ou adequação — suscita a questão de saber se tal compreensão é realmente compreensível, se alcança a estrutura essencial daquilo de que fala.
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A concepção da verdade como coincidência leva a um círculo: o enunciado coincide com o conhecido, o conhecido é verdadeiro porque coincide com a realidade, e o verdadeiro, em última instância, volta a ser definido pela coincidência; trata-se de uma regressão infinita que nada esclarece.
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A própria noção de “verdadeiro” é equívoca: aplica-se não apenas a enunciados, mas também a coisas e pessoas (“ouro verdadeiro”, “amigo verdadeiro”), indicando que o termo possui sentidos diversos e que sua origem comum permanece velada.
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A definição da verdade como adequação mostra-se, assim, insuficiente e obscura, pois não determina claramente a procedência e o sentido unitário de “verdade”.
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A reflexão conduz à necessidade de distinguir entre a essência da verdade e a essencialidade da essência: se o caráter de essência é o mesmo em todos os casos ou se difere segundo o tipo de ente considerado.
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Perguntar pela essência da verdade como se pergunta pela essência de uma mesa ou de qualquer coisa material pode ser um erro metodológico, pois talvez o modo de ser da verdade não se deixe apreender pelas mesmas categorias aplicáveis às coisas.
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Além disso, a própria noção de essência — entendida como universal ou ser-que — revela-se problemática, pois falamos dela com familiaridade sem realmente compreender o que significa “ser”.
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A peculiaridade de toda essência consiste em ser conhecida de antemão: só podemos reconhecer algo como mesa, montanha ou verdade se já possuímos um saber prévio de sua essência; contudo, o sentido dessa anterioridade permanece obscuro.
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Mesmo admitindo a clareza da definição tradicional da verdade como adequação, resta indagar se essa evidência é critério suficiente para garantir sua veracidade.
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O apelo à obviedade como fundamento do saber mostra-se infundado, pois o que nos parece evidente pode ser mera aparência, ilusão ou erro reiterado.
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O que é “compreensível por si” o é porque nos “entra na cabeça” sem esforço, mas isso não assegura sua validade ontológica; o homem erige-se em juiz da evidência sem saber quem é nem quais são os limites de sua própria compreensão.
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A questão da verdade torna-se inseparável da questão do homem: somente conhecendo quem é o homem e quais são as condições de seu conhecimento pode-se decidir se a evidência é um critério legítimo.
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A investigação revela que a definição tradicional de verdade como coincidência e retidão, antes tida como evidente, converte-se em algo profundamente incompreensível.
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O caráter duplo da essência da verdade, da essencialidade da essência e da apelação à evidência mostra que o que parecia claro exige ser questionado em sua origem.
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O que é mais imediato e familiar é justamente o que menos entendemos, pois sua proximidade impede a reflexão distanciada.
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Assim, o primeiro passo do pensamento deve ser o distanciamento daquilo que se apresenta como evidente, um recuo que permita ver o habitual sob nova perspectiva.
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Esse retorno exige um movimento histórico: olhar para o modo como a verdade foi concebida anteriormente, investigar o percurso histórico do conceito de verdade.
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Tal investigação não é fuga das exigências do presente, mas condição para compreender o fundamento de nossas próprias convicções e libertar o pensamento da ilusão da obviedade.
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