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obra:ga15:heraclito:2

2 Panta

A Relação entre o Raio e τὰ πάντα e a Rejeição da Tradução de Diels

1. A dificuldade em explicar a locução τὰ πάντα, evitando propositalmente o termo “conceito” para não sugerir uma terminologia heraclítica, mostrou que o raio, como luz que irrompe e fogo na fase da momentaneidade, traz τὰ πάντα à manifestação, delineia cada coisa em sua figura e dirige a movimentação e a mudança de tudo o que pertence a τὰ πάντα, sendo o raio o que governa e não uma autorregulação imanente, distinguindo-se, portanto, como o Uno da totalidade múltipla.

  • A pergunta sobre se o princípio governante está fora ou acima do todo é confrontada com a observação de que a relação entre o Uno do raio e τὰ πάντα não pode ser capturada pelas categorias relacionais correntes, tratando-se da relação de um Uno ainda não esclarecido com o Múltiplo no sentido de um todo abrangente (Inbegriff).
  • A tradução de Diels de τὰ πάντα por “Universo” (Weltall) é rejeitada porque, se estivesse escrito τὸ πᾶν, a tradução seria justificada, mas τὰ πάντα não forma o universo, e sim o todo do mundo intramundano (Inbegriff des Binnenweltlichen), sendo o raio, em seu esplendor, o formador do universo (Weltall-Bildende) que faz as muitas coisas em sua totalidade virem à aparência diferenciada, constituindo τὰ πάντα o reino das diferenças.

A Dimensão do Pensamento de Heráclito e a Abordagem dos Fragmentos

2. Os fragmentos de Heráclito, embora vinculados à linguagem popular, ressoam em múltiplas dimensões, e o esforço da interpretação deve visar alcançar a dimensão exigida por ele, questionando até que ponto se pode tornar visível essa dimensão a partir do próprio pensamento, sendo a filosofia compelida a mostrar justamente através do dizer (Sagen), em oposição ao velho provérbio chinês de que “uma vez mostrado é melhor que cem vezes dito”.

  • A análise das passagens que mencionam πάντα começa pelo fragmento 1, onde os πάντα são chamados de γινόμενα (devires), e seu movimento é compreendido como sendo segundo o λόγος, estando também em uma relação com os homens que se tornam incompreensivos (ἀξύνετοι γίνονται ἄνθρωποι) por não entenderem o λόγος segundo o qual os πάντα acontecem e são movidos.
  • Em contraste, o fragmento 7, “εἰ πάντα τὰ ὄντα καπνὸς γένοιτο, ῥῖνες ἂν διαγνοῖεν” (“se todos os entes se tornassem fumaça, o olfato os distinguiria”), aborda os πάντα como sendo distintos (unterschiedene), uma vez que a fumaça, embora oculte as diferenças, não as elimina, e a locução πάντα τὰ ὄντα não significa uma contagem dos entes, mas os πάντα que são entes e estão separados uns dos outros, sendo correlatos de um διαγνῶσις (discernimento).

Relações com o Conhecimento Humano e a Distinção entre os Fragmentos

3. Enquanto no fragmento 1 os πάντα são vistos em sua relação com o λόγος, que não é humano, no fragmento 7 eles são abordados em sua relação com o conhecimento humano (γνῶσις), e o διαγνῶναι é um indício de que os πάντα são caracterizados como distinguíveis, embora ainda não como já distinguidos; a pergunta sobre se o ser-ente (ὄντα) dos πάντα é uma qualidade necessária para o conhecimento que distingue é respondida afirmativamente, mas com a ressalva de que ὄντα não é uma qualidade.

  • A aproximação com a coisa mesma só é possível lidando com a visão (ὄψις) e a audição, e o fragmento 80 introduz que os πάντα são chamados de γινόμενα (devires) não segundo o λόγος, mas segundo a discórdia (κατ' ἔριν), entrando na relação semântica com a luta.
  • O fragmento 10, “ἐκ πάντων ἓν καὶ ἐξ ἑνὸς πάντα” (“de tudo um e de um tudo”), apresenta um devir total que não é o movimento da coisa individual, e a relação não é de parte para todo, mas de uma totalidade abrangente (Inbegriff) para o Uno; a palavra grega ἕν não deve ser traduzida meramente por “um”, pois tem o caráter de unificar (das Einigende), exigindo que se pense o Uno em sua relação com o λόγος como o reunir (Versammeln) e com a discórdia.

A Unidade como Unificante e a Relação com o Fragmento 29

4. A tradução impensada de “de tudo um e de um tudo” é criticada porque o ἕν não é um “um” separado que nada teria a ver com os πάντα, mas é o que unifica, podendo ser ilustrado pela unidade de um elemento, desde que se retorne ao Uno do raio, que em seu esplendor reúne e unifica a totalidade dos múltiplos em sua diferença; essa noção de ἕν perpassa toda a filosofia até a apercepção transcendental de Kant.

  • No fragmento 29, “αἱρεῦνται γὰρ ἓν ἀντὶ πάντων οἱ ἄριστοι, κλέος ἀέναον θνητῶν” (“pois os melhores escolhem uma coisa em vez de todas, a glória eterna entre os mortais”), os πάντα são colocados em relação a um comportamento humano de preferência, onde os nobres preferem a glória eterna (κλέος) a todas as outras coisas, refletindo a relação fundamental entre ἕν e πάντα, enquanto a multidão se apega a coisas perecíveis e não vê o Uno unificador.

A Visão Cósmica, o Fragmento 30 e a Problemática da Transmissão

5. O fragmento 30, “κόσμον τόνδε, τὸν αὐτὸν ἁπάντων” (“este mundo, o mesmo para todos”), direciona o olhar para a relação entre πάντα e κόσμος, onde ἁπάντων é traduzido como “para a totalidade dos πάντα”, e a discussão sobre a autenticidade da expressão τὸν αὐτὸν ἁπάντων leva à menção do trabalho de Karl Reinhardt, que descobriu que a expressão πῦρ ἀείζωον no contexto do fragmento 64 é autenticamente heraclítica; a citação de Reinhardt destaca a dificuldade de identificar palavras desconhecidas de Heráclito entre os padres da igreja e de reconhecer a fama de uma palavra célebre.

  • O fragmento 41, “ἓν τὸ σοφόν, ἐπίστασθαι γνώμην, ὄτῃ ἐκυβέρνησε πάντα διὰ πάντων” (“uma coisa é a sábia, compreender o pensamento, que governou tudo através de tudo”), acrescenta o σοφόν ao ἕν, questionando se o σοφόν é uma propriedade do ἕν como unidade unificante ou sua própria essência, e essa é a primeira caracterização mais precisa do ἕν como uma espécie de ἑνότης, ainda que o termo seja de carga neoplatônica.

O Papel do Polemos e a Consideração dos Fragmentos 100 e 102

6. O fragmento 53, “Πόλεμος πάντων μὲν πατήρ ἐστι, πάντων δὲ βασιλεύς” (“Guerra é de todas as coisas pai, de todas rei”), estabelece que os πάντα são colocados em relação ao πόλεμος, que é pai e rei de todas as coisas, revelando a uns como deuses e a outros como homens, uns como escravos e outros como livres; o fragmento 80 já havia antecipado essa relação ao falar de ἔρις (discórdia), mas aqui a guerra é o que instaura as diferenças e posições no ente.

  • O fragmento 100, “Ὧραι αἱ πάντα φέρουσι” (“As Horas que trazem todas as coisas”), introduz a noção de que as horas, ou os tempos, trazem os πάντα, trazendo o tempo ao ἕν de maneira explícita, embora ele já estivesse presente no raio e nas reviravoltas do fogo; a relação entre tempo e trazer é central, devendo ser pensada em conexão com a dialética de συμφερόμενον (reunir) e διαφερόμενον (diferenciar) do fragmento 10.
  • O fragmento 102, “τῷ μὲν θεῷ καλὰ πάντα καὶ ἀγαθὰ καὶ δίκαια” (“Para Deus, todas as coisas são belas, boas e justas”), coloca os πάντα sob uma dupla perspectiva, a divina, onde tudo é belo e justo, e a humana, onde os homens assumem umas coisas como injustas e outras como justas; a visão verdadeira é a divina, enquanto a humana é imprópria e insuficiente, ecoando a distinção entre os nobres e a multidão no fragmento 29.

O σοφόν como Separado e a Conclusão sobre a Fragwürdigkeit

7. O fragmento 108, “σοφόν ἐστι πάντων κεχωρισμένον” (“o sábio é separado de todas as coisas”), apresenta o σοφόν não apenas como uma determinação do ἕν, mas como o próprio ἕν que se mantém separado dos πάντα e, no entanto, os abrange, sendo a interpretação de Karl Jaspers de que esse “separado” indica a transcendência como o “completamente outro” considerada totalmente equivocada por Heidegger.

  • O fragmento 114, “ξὺν νῷ λέγοντας ἰσχυρίζεσθαι χρὴ τῷ ξυνῷ πάντων, ὅκωσπερ νόμῳ πόλις” (“É preciso fortalecer-se com o comum a todos, como a cidade com a lei”), aborda os πάντα a partir do comportamento humano, onde o “comum a todos” (ξυνόν) pode se referir tanto ao comum da cidade quanto à relação fundamental entre ἕν e πάντα; tanto o ξυνόν quanto o κεχωρισμένον exigem um grande questionamento (Fragezeichen).
  • O exame de uma série de fragmentos para verificar em que perspectiva os πάντα são mencionados não resultou em uma clareza maior sobre seu significado, mas tornou a locução mais questionável (fragwürdig) no que diz respeito ao que são os πάντα, ao seu vir à manifestação e à relação com o ἕν, e essa “questionabilidade” significa que as questões surgidas são dignas de serem perguntadas.
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