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Lógica Formal e Lógica Transcendental
Suzanne Bachelard. A Study of Husserl’s FORMAL AND TRANSCENDENTAL LOGIC. Evanston: Northwestern University Press, 1968.
Introdução
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uma ciência digna do nome deve justificar cada um de seus passos, podendo caracterizar-se a ciência dessa maneira sem pressupor nenhuma teoria particular da ciência, mas ao se perguntar pela justificação envolvida logo se percebem as diversas e opostas concepções de ciência que se podem formar, indicando a resposta a tal questão a orientação não apenas de uma epistemologia mas de toda uma filosofia
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para Husserl, somente uma justificação que alcança princípios puros e verdadeiramente primeiros pode atingir a dignidade de justificação genuína, afirmação que marca o radicalismo absoluto evidente em toda a filosofia husserliana
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aos olhos de Husserl, o êxito técnico da organização de uma ciência jamais pode ser considerado justificação da fundamentação dessa ciência, devendo a ciência prestar contas em termos de princípios radicalmente primeiros
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não há necessidade de esperar que o ideal de ciência genuína seja separado por abstração comparativa das ciências efetivamente constituídas, pois somente a pura ideia de ciência pode conferir às ciências existentes uma verdadeira existência, impondo suas normas e prescrevendo seus caminhos
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a ética da justificação científica pode adotar a fórmula kantiana de que é coisa triste deduzir o que se deve fazer a partir do que é, podendo apenas o possível fundamentar o efetivo
se as ciências não estão em condição de nos ensinar por seus resultados, resta perguntar de onde deriva a pura ideia de ciência, havendo para Husserl uma teoria da ciência que deve distinguir as possibilidades a priori às quais uma ciência deve conformar-se para ser verdadeira ciência-
uma lógica concebida como Wissenschaftslehre, teoria da ciência, teria por missão tornar-se a teoria pura da ciência possível
pergunta-se se a lógica tradicional poderia assumir essa tarefa de tornar-se a ciência da ciência, e, embora consciente dessa missão ao surgir na dialética platônica, foi ficando aos poucos atrás justamente das ciências que deveria preceder e guiar-
no seu desenvolvimento e especialização, as ciências encontraram tarefas organizacionais cada vez mais complexas e diferenciadas, aguardando-as um imenso empreendimento positivo que as absorveu sem satisfazer plenamente o espírito de autojustificação crítica, tendendo além disso a depreciar a atividade lógica de fundamentação, julgada estéril em comparação com a atividade construtiva, sempre geradora de organizações teóricas novas e mais ricas
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como observa Husserl, a própria lógica foi cúmplice dessa situação, traindo sua missão como ciência da ciência, não podendo, qualquer que seja a posição filosófica adotada, negar-se que a lógica abandonou esse ideal de tornar-se uma Wissenschaftslehre
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não é injusto afirmar que a lógica tradicional é disciplina completamente separada da ciência, e, voltando-se para a lógica moderna, reconhece-se sua crescente tendência a tornar-se ciência particular que desenvolve seus métodos, mais precisamente seu estilo demonstrativo, tomando-os de empréstimo à matemática
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a ciência da ciência, ao contrário, destinada a fornecer os fundamentos absolutos de todas as ciências, deve ser ciência universal, diferenciando-se já por sua universalidade das demais ciências, que são ciências especiais e, além disso, ciências unilaterais, pois seu ponto de vista provém apenas de suas províncias particulares de objeto, estando diretamente voltadas ao conhecimento objetivo, podendo chamar-se de positiva e reta, gerade, a atitude do cientista
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a ciência da ciência, pelo contrário, deve reforçar a atitude objetiva do cientista com uma atitude reflexiva, pois não pode alcançar verdadeira justificação do conhecimento sem o exame reflexivo da própria atividade subjetiva do conhecer
pergunta-se se uma consciência clara do método não nos conduziria tão fundo na atividade cognitiva a ponto de a própria ciência produzir, em seu tema, as preocupações reflexivas, não sendo, propriamente falando, para Husserl, o controle metódico uma consciência da atividade subjetiva-
a formação dos métodos, a aplicação dos métodos, a própria supervisão dessa aplicação constituem partes de uma técnica intelectual simples
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Husserl fala das antolhos impostos por seu método, como consequência inevitável do enfoque exclusivo de cada ciência em sua própria província particular, denunciando o autoesquecimento do teorizador que, em sua produção teórica, se dedica à matéria, às teorias e aos métodos, nada sabendo assim da interioridade dessa produção
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“the blinders imposed by their method, as an inevitable consequence of the exclusive focusing of each [science] on its own particular province”
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“the self-forgetfulness of the theorizer who, in his theoretical producing, devotes himself to the subject-matter, the theories, and the methods, and accordingly knows nothing of the inwardness of that producing — who lives in producing, but does not have this productive living itself as a theme within his field of vision”
mesmo a mais característica das ciências teóricas, a matemática, é para Husserl apenas uma técnica, pois, estudando somente sua província objetiva e apenas os produtos de sua produção consciente, permanece presa a uma compreensão unilateral, faltando-lhe percepção da ratio de sua produção realizada, não sendo a ciência teórica mais do que uma técnica teórica-
se o leitor quer permanecer fiel ao estilo do pensamento husserliano, é obrigado a assumir essa estranha associação, sendo o verdadeiro teórico aquele que pratica essa ciência universal da ciência, não sendo o próprio matemático, em verdade, um puro teórico, mas um engenhoso técnico
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“is not in truth a pure theoretician, he is an ingenious technician”
frequentemente aqueles que veem na fenomenologia um repúdio à ciência deixam de notar a constante admiração que Husserl nutria pelas realizações da ciência, tendo as ciências estabelecido métodos altamente diferenciados, operando as tão admiráveis ciências da natureza segundo um método que se comprovouHusserl afirma explicitamente na Krisis continuar a chamar Galileu, com toda seriedade, de o principal entre os grandes descobridores da era moderna, admirando igualmente os grandes descobridores da física clássica e pós-clássica, cujo pensamento, longe de ser meramente mecânico, é um pensamento produtivo espantoso-
“Naturally I am quite in earnest when I continue to call Galileo the foremost among the supremely great discoverers of the modern age; and naturally I am also quite in earnest in admiring the great discoverers of classic and post-classic physics and their thinking, which far from being merely mechanical, is indeed a most astonishing productive thinking. This thinking is not at all depreciated by the above-given clarification of it as techné.”
as críticas fáceis dos detratores modernos da técnica, tão frequentemente ouvidas, jamais se encontram nos escritos de Husserl, pois a técnica traz a marca do homempergunta-se como, se a ciência traz a marca da engenhosidade humana, pode Husserl falar tantas vezes de ingenuidade científica, ingenuidade ou engenhosidade parecendo exigir escolha-
Husserl previu essa objeção afirmando que na ingenuidade científica se trata de uma ingenuidade de ordem superior, em contraste com a ingenuidade da vida cotidiana, sendo a ingenuidade da ciência uma ingenuidade no bom sentido do termo, como diz nas Logische Untersuchungen
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pergunta-se se a própria noção de graus de ingenuidade é aceitável, parecendo que a ingenuidade só pode ser denunciada quando se a transcende, mas questiona-se se não é ao mesmo tempo abolida ao ser denunciada
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a fenomenologia reconhece, na verdade, diferentes níveis de pensamento, elevando a ciência acima do pensamento da vida cotidiana e a fenomenologia acima do pensamento científico, encontrando-se, mesmo depois de alcançada a atitude fenomenológica, diferentes níveis de investigação, sendo o proceder da fenomenologia uma ascensão de um nível a outro superior
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o fenomenólogo é um homem novo que não se despoja de sua ingenuidade de uma só vez, implicando a exigência de radicalismo absoluto um relativismo em sua abordagem, chegando Husserl a dizer que as investigações fenomenológicas assumem uma relatividade penosa e ainda assim inevitável, uma provisoriedade, em lugar da definitividade a que se aspirava, superando cada investigação, em seu próprio nível, alguma ingenuidade, mas permanecendo ainda acompanhada da ingenuidade de seu nível
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“take on a painful and yet unavoidable relativity, a provisionalness, instead of the definitiveness for which we were striving: Each investigation, at its own level, overcomes some naïveté or other, but is still accompanied by the naïveté of its level”
só por etapas se pode alcançar a plena consciência de nossa atividade cognitivaessa plena consciência é designada por Husserl com expressão carregada de ressonâncias éticas, a total autorresponsabilidade, assumindo essa autorresponsabilidade a ciência genuína que perseguisse a pura ideia de ciência até suas fontes-
pergunta-se como pode a ciência moderna distribuir as tarefas reflexivas dentro de um horizonte cultural que delas não se ocupa, e como pode iniciar-se essa reflexão radical quando, de um lado, sem má consciência, as ciências existentes traíram o antigo ideal platônico de ciência, e, de outro, a lógica, deixando-se dominar pelo desenvolvimento fecundo das ciências, tornou-se ela própria simples ciência especial
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desenvolvimento das ciências, desativação da lógica, eis a situação científica dos tempos modernos, perguntando-se onde estão as forças motivadoras que nos moveriam da atitude científica positiva para a atitude fenomenológica reflexiva
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Husserl é pouco explícito nesse ponto, limitando-se a dizer, depois de apontar a culpa das ciências por não compreenderem o caráter unilateral de suas produções e da lógica por não cumprir sua função própria, que a condição presente das ciências europeias exige investigações radicais de sentido
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deve-se compreender que nada se pode discernir que ocasione vontade de abandonar a atitude natural, a atitude da ciência positiva, enquanto nela se permanece, mas percebe-se que a vocação filosófica é essencialmente vontade de autoinvestigação, vontade de autorresponsabilidade, exigindo isso que o próprio filósofo se erga acima da atitude natural
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não se pode separar a humanidade genuína e o viver com autorresponsabilidade radical, não se podendo, portanto, separar a autorresponsabilidade científica de todo o complexo de responsabilidades pertencentes à vida humana como tal
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“We cannot separate genuine humanity and living with radical self-responsibility, and therefore cannot separate scientific self-responsibility from the whole complex of responsibilities belonging to human life as such”
a ciência tem função humana que ultrapassa a teoria, devendo a vocação científica encontrar seu lugar dentro da mais alta ideia prática, a de uma vida ética abrangente de tudo, sendo a busca de uma compreensão última de nós mesmos também um modo de indagar pelo verdadeiro sentido da ciênciamas se se percebeu como redescobrir o antigo ideal de ciência, outra questão se impõe, a de como foi possível perder esse ideal, devendo reconhecer-se que a Lógica Formal e Transcendental não persegue a articulação interna desse ideal nem fornece seus motivos externos-
a ciência sob a forma de ciência especial tornou-se espécie de técnica teórica, tendo assim a ciência moderna abandonado o ideal de ciência genuína vitalmente operante nas ciências desde a época de Platão, abandonando em sua prática a radicalidade da autorresponsabilidade científica
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“Science in the form of special science, has become a kind of theoretical technique… Thus modern science has abandoned the ideal of genuine science that was vitally operative in the sciences from the time of Plato; and, in its practice, it has abandoned radicalness of scientific self-responsibility”
a questão que Husserl efetivamente retoma orienta-se rapidamente para uma tarefa viva, a de como reinstituir o antigo ideal e constituir ciências genuínas, e por qual método se alcança a universal Wissenschaftslehre-
por mais crítica e cética que seja a atitude perante a cultura científica tal como historicamente se desenvolveu, não se pode simplesmente abandoná-la, com razão não maior do que a de faltar-lhe compreensão última e a capacidade de administrá-la em virtude dessa compreensão
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“we cannot simply abandon it, with no more reason than that we lack an ultimate understanding of it and are unable to manage it by virtue of such an understanding”
basta tornar claro a si mesmo, observando a atual situação científica e cultural, a necessidade de investigações radicais e universais de sentido-
“the necessity of radical and universal investigations of sense”
o leitor que aprendeu a lição husserliana do radicalismo pode surpreender-se com esse modo de considerar as ciências existentes, mas, antes de justificar esse ponto de partida paradoxal, acompanha-se Husserl no exame de diferentes caminhos possíveis para uma investigação radical de sentidopoder-se-ia ser tentado a considerar as doutrinas filosóficas contemporâneas, centradas usualmente nos problemas da teoria do conhecimento, procedendo a uma crítica para apurar seus fracassos e extrair suas contribuições fecundas, mas, na situação confusa da filosofia contemporânea, tal seria empreendimento completamente sem esperança, sendo específico Husserl na Introdução às Meditações Cartesianas-
em vez de uma discussão séria entre teorias em conflito que, no próprio conflito, demonstrem a intimidade de sua pertença mútua, a comunhão de suas convicções subjacentes e uma crença inabalável em uma filosofia verdadeira, tem-se um pseudorrelatar e um pseudocriticar, uma mera aparência de filosofar seriamente uns com e para os outros, mal atestando isso um estudo mútuo conduzido com consciência de responsabilidade, no espírito que caracteriza a colaboração séria e a intenção de produzir resultados objetivamente válidos
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“we have a pseudo-reporting and a pseudo-criticizing, a mere semblance of philosophizing seriously with and for one another”
ainda existem congressos filosóficos, encontram-se os filósofos, mas, infelizmente, não as filosofias, faltando às filosofias a unidade de um espaço mental em que pudessem existir umas para as outras e agir umas sobre as outras-
“The philosophies lack the unity of a mental space in which they might exist for and act on one another”
dentro dessa Introdução, Husserl só pode indicar o caminho cartesiano das meditações sobre a filosofia primeira que retomará meses depois em suas Meditações Cartesianas, tendo as próprias Meditações de Descartes sido animadas por um radicalismo filosófico que pode ser tomado como modelo e revivido, supondo-se que a situação presente seja análoga à que Descartes encontrou em sua juventude-
infelizmente aquelas meditações foram guiadas por preconceitos não percebidos que frustraram a tentativa de fundamentação absoluta do conhecimento
a Lógica Formal e Transcendental tomará outro caminho, sugerido precisamente pela relação historicamente dada entre a ideia de ciência genuína e a lógica como sua norma antecedente, voltando-se então das ciências para a lógica, tratando-se de considerar e examinar a lógica existente tal como se a encontra, a fim de redescobrir sua verdadeira função como norma da ciência e, através dela, redescobrir o que as ciências genuínas sãoa objeção de não radicalismo que se pode opor a tal maneira de proceder é tanto mais forte quanto diz respeito não apenas às ciências mas também à lógica que deve fundamentar normativamente essas ciências, formulando o próprio Husserl essa objeção, ao dizer que já se pressupõem as ciências, bem como a própria lógica, com base na experiência que as dá previamente, parecendo por isso o procedimento nada radical-
Husserl logo se justifica, embora o faça de modo bastante alusivo, afirmando que, sejam genuínas ou espúrias as ciências e a lógica, delas se tem experiência como formações culturais dadas previamente e portadoras em si mesmas de seu sentido, por serem formações produzidas pela prática dos cientistas e gerações de cientistas que as foram construindo, tendo assim um sentido final para o qual os cientistas vinham continuamente aspirando e visando, podendo, ao situar-se em uma comunidade de empatia com os cientistas ou nela ingressar, acompanhá-los e compreendê-los, realizando investigações de sentido
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“Whether sciences and logic be genuine or spurious, we do have experience of them as cultural formations given to us beforehand and bearing within themselves their meaning, their 'sense'”
esse texto permanece mudo se tomado sem seu horizonte de compreensão, se não reinserido na teoria da intencionalidade, pois toda consciência é consciência de algo, dirigida a um objeto, envolvendo uma relação entre os processos de consciência e o objeto que implica reciprocidade-
há correlação que liga indissoluvelmente a consciência e seu objeto, não sendo sem razão que Husserl emprega a mesma palavra, intencional, para caracterizar tanto o processo mental que se relaciona ao objeto quanto o próprio objeto dessa intentio
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ao empregar-se de modo geral a palavra objeto, tem-se em mente o correlato de um processo de consciência, não necessariamente a coisa, o objeto da percepção externa, permanecendo, dentro da esfera de interesse da Lógica Formal e Transcendental, o interesse precisamente na relação entre a atividade de pensar e o pensado formado nessa atividade, por exemplo entre o julgar e o juízo julgado
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pelo fato dessa conexão intencional, os juízos revelam a atividade de pensamento que os gerou, sendo há muito significações mortas de que se retirou toda intenção viva, podendo contudo ser reativadas, revivendo-se, ao questioná-los, a atividade subjetiva que os engendrou
assim, as formas culturais, como as ciências existentes, uma vez questionadas, podem liberar a intenção viva que as constituiu, ocorrendo porém uma objeção, a de que essa intenção não é, ela mesma, plena consciência do que deve ser a ciência genuína-
a ciência moderna, ao afirmar falsa autonomia em relação a uma atividade de reflexão e fundamentação, não traz em si a ideia de ciência genuína, pretendendo ser ciência sem verdadeiramente o ser, derivando daí sua ingenuidade
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o sentido de toda essa meditação implica que as ciências, enquanto fatos da cultura objetiva, e as ciências em sentido verdadeiro e genuíno não precisam ser idênticas, envolvendo as primeiras, além de serem fatos culturais, uma pretensão que deveria ser estabelecida como algo que já satisfazem
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“sciences, as these facts of Objective culture, and sciences 'in the true and genuine sense' need not be identical and that the former, over and above being cultural facts, involve a claim, which ought to be established as one they already satisfy”
essa pretensão, em sua própria ingenuidade, é a marca de uma exigência de cientificidade, jazendo ainda encoberta precisamente nessa pretensão a ciência como ideia, como a ideia de ciência genuína-
“science as an idea — as the idea, genuine science — 'lies,' still undisclosed, precisely in this claim”
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partindo dessa pretensão científica, pode-se esperar redescobrir a ideia de ciência genuína, podendo então a ciência tal como existe servir de pista para a reflexão
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mesmo sem tomar posição quanto à validade das ciências de fato, aquelas que reivindicam validade, isto é, quanto à genuinidade de suas teorias e, correlativamente, a competência de seus métodos de teorizar, nada impede que se mergulhe no esforço e no fazer científicos que lhes são próprios, a fim de ver clara e distintamente o que realmente se está visando
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“there is nothing to keep us from 'immersing ourselves' in the scientific striving and doing that pertain to them, in order to see clearly and distinctly what is really being aimed at”
vem gradualmente à luz a ideia teleológica que rege toda atividade científica, a de que o cientista não apenas formula juízos mas também os fundamenta, vendo-se nisso uma simples pretensão e que a ciência tal como existe não existe em grau suficiente para garantir uma crítica última do conhecimento-
na vontade de fundamentar apreende-se, contudo, uma intenção que, ao ser questionada, pode conduzir ao ideal genuíno da crítica do conhecimento
graças a uma investigação de sentido, Besinnung, pode-se conduzir corretamente tal inquirição, cabendo perguntar o que se deve entender por essa denominação, empregando Husserl quase sempre a expressão radikale Besinnung como se houvesse conexão inseparável entre os dois termos-
a noção de Besinnung só pode ser verdadeiramente compreendida se referida aos dois polos da relação intencional, a consciência e seu objeto, restringindo-se, no âmbito do juízo, a investigar o sentido a tornar-se simultaneamente plenamente consciente da atividade de julgar e fazer aparecer o verdadeiro sentido que é correlato dessa atividade
cabe assinalar, nessa conexão, uma equivocidade envolvida no vocabulário da intencionalidade, sendo, de um lado, a intencionalidade a propriedade fundamental da consciência, não significando a palavra intencionalidade senão essa propriedade fundamental universal da consciência, a de ser consciência de algo, como cogito, portando em si seu cogitatum-
“The word intentionality signifies nothing else than this universal fundamental property of consciousness: to be consciousness of something; as a cogito, to bear within itself its cogitatum”
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todo cogito tem objeto intencional, sendo o juízo, por exemplo, o objeto intencional, o sentido intencional, da atividade de julgar, mas, considerando-se mais de perto essa atividade, frequentemente se formulam juízos cuja exatidão não se verificou, sendo esses simples significações ou opiniões, Meinungen
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opina-se ou se supõe, meinen, que as coisas são assim ou assado, sem contudo haver-se verificado que as coisas são tal como se imaginam, permanecendo então a significação vazia, devendo, para tornar-se verdadeira, ser preenchida, erfüllen, mediante confronto com as coisas
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traduz-se erfüllen por preencher, seguindo tradição já estabelecida, mas essa tradução omite aspecto importante da significação da palavra, significando erfüllen tanto preencher uma forma vazia quanto satisfazer uma condição, cumprir uma exigência, esperando-se, ao formar uma opinião, que as coisas sejam como se pensa que são
surge assim a distinção entre significação vazia e juízo preenchido, ficando reservado, nesse quadro, o termo intencional dessa vez para caracterizar a significação, resultado de uma simples intentio que deve ser confirmada em seguida pelo preenchimento, Erfüllung-
o juízo é apenas um sentido intencional ainda não preenchido, deixando, uma vez preenchido, de ser opinião antecipatória, estando aí em pessoa, selbst, como juízo verdadeiro, sancionado por uma adequação às coisas, não se tratando mais do sentido intencional mas do próprio sentido
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essa equivocidade no emprego do termo intencional é, em verdade, menos perceptível na Lógica Formal e Transcendental do que em obras anteriores, pois Husserl emprega de bom grado a expressão vermeint em lugar de intencional para caracterizar o juízo como opinião, sendo a opinião um objeto meinado, vermeintes Objekt
investigar o sentido é precisamente transformar o juízo que é simples opinião em juízo preenchido-
a investigação de sentido, Besinnung, não significa senão a tentativa de efetivamente produzir o sentido em si mesmo, que, na mera significação, é um sentido meinado, pressuposto, ou, equivalentemente, a tentativa de converter o sentido intencionador, intendierenden Sinn, como se chamava nas Logische Untersuchungen, o sentido que paira vagamente diante de nós em nossa visada obscura, no sentido preenchido, claro, procurando-lhe assim a evidência de sua possibilidade clara
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“Sense-investigation signifies nothing but the attempt actually to produce the sense 'itself,' which, in the mere meaning, is a meant, a presupposed, sense”
na atividade de significar, julga-se de modo confuso, longe das coisas, podendo apenas o contato com as coisas trazer evidência de clareza, sendo preciso, na investigação de sentido, voltar ao dado mesmo, às coisas mesmas, zu den Sachen selbst-
como observa Fink, esta última não é expressão feliz, podendo levar a interpretações errôneas, estando o lema voltar às coisas mesmas tão distante, para Husserl, de exprimir o programa de um realismo ingênuo quanto de exprimir o de uma determinação especulativa do conceito de ser
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“That is to say: The watch-word: 'Back to the things themselves!' is, for Husserl, as far from expressing the program of a 'naïve realism' as it is from expressing that of a speculative determination of the concept of being”
de um lado, as coisas não são necessariamente as coisas do mundo externo, podendo ser números, juízos e assim por diante, tendo Husserl, ainda assim, procurado com frequência prevenir uma interpretação grosseiramente realistao dado em si mesmo, das selbst-gegeben, não se identifica com o dado originaliter, o dado em pessoa, mit dem originär-gegeben, dem leibhaft, sendo, no sentido definidamente caracterizado, o dado e o dado em si mesmo a mesma coisa, empregando-se a expressão redundante apenas para excluir a doação em outro sentido, na qual se diz por fim de tudo o que é objetivo, von jedem Vorstelligen, que é dado na objetivação, in der Vorstellung, mas talvez de maneira vazia-
“The 'itself given' we do not identify with the 'given originaliter,' the given 'in person'”
não é necessário, portanto, entender por coisa apenas o dado perceptivotambém não se trata, ao adotar-se o retorno às coisas, de confinar-se dogmaticamente a uma teoria especulativa que decida de antemão o que são as coisas, o que é o ser, devendo antes buscar-se descobrir o que as coisas são, não se oferecendo as coisas em imediatidade ingênua-
a investigação de sentido não se contenta em exprimir o que vê à primeira vista, sendo antes o desvelamento de um verdadeiro sentido inicialmente oculto sob uma confusão de modos de doação, constituindo a explicitação de sentido, Sinnauslegung
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tomando-se o exemplo do juízo, vê-se que usualmente se julga de modo confuso, seja quando, cedendo à autoridade de outrem, se repete um juízo formulado por outra pessoa, seja quando, sem repensá-lo ativamente, se repete uma demonstração matemática outrora compreendida e decorada, seja ainda quando vem à mente uma ideia vaga, tratando-se então de esclarecer essas significações vazias e transformá-las em juízos genuinamente preenchidos
mas para compreender o verdadeiro sentido de qualquer cogitatum não basta estudar os processos correlativos de consciência que são atuais, estando implicados processos mentais potenciais na intencionalidade dos processos mentais atuais-
as funções intencionais se entrelaçam, não podendo os próprios dados ser considerados isoladamente de seus meios e apenas no modo como são dados, exigindo cada determinação uma determinação mais rica e mais específica
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a explicitação de sentido é enriquecimento de sentido, Sinnesbereicherung, como diz Erfahrung und Urteil, tendo assim toda intencionalidade um horizonte que a investigação de sentido deve explicitar progressivamente
a investigação de sentido deve assim penetrar nas profundidades últimas do sentido, sendo ao mesmo tempo Enthüllung, desvelamento, e Vertiefung, aprofundamento, não sendo essa Vertiefung motivada por simples curiosidade, o que a tornaria questão de paciência prolongada, mas obedecendo antes a uma vontade de confirmar, corrigir, justificar, fundamentar, em suma, uma vontade de saber-
a investigação radical de sentido é, como tal, ao mesmo tempo crítica em vista de um esclarecimento originário, significando esse esclarecimento originário conformar de novo o sentido, e não meramente preencher, Ausfüllung, uma delineação já determinada e estruturalmente articulada de antemão, significando então a investigação originária de sentido uma combinação de determinar mais precisamente a predelineação vaga e indeterminada, distinguir os preconceitos derivados de sobreposições associativas e cancelar aqueles preconceitos que conflitam com o preenchimento claro de sentido, mit der besinnlichen Erfüllung, em suma, uma discriminação crítica entre o genuíno e o espúrio
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“Radical sense-investigation, as such, is at the same time criticism for the sake of original clarification”
a investigação de sentido é um retorno às significações antecipatórias a fim de ver se podem ser confirmadas ou, ao contrário, canceladas, sendo a vida do conhecimento feita de antecipações, de precompreensões apressadas e ainda vagas mas fecundas que permitem avançar e permitem também retornar criticamente a essas antecipações-
a investigação de sentido é também reativação das evidências que outrora foram vivas e que depois se sedimentaram, sendo o esclarecimento das origens, não devendo crer-se que a palavra origem indique em si mesma uma origem cronológica
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desde os Prolegômenos Husserl usa habitualmente a palavra Ursprung, especificando logo, ao atribuir à lógica a investigação das categorias lógicas como uma de suas tarefas, tratar-se de intuição da essência dos conceitos em questão e, metodologicamente, de fixação de significações verbais inequívocas e nitidamente distintas, alcançáveis somente tornando presente intuitivamente, em intuição adequada, a essência
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“insight into the essence of the concepts in question and, methodologically, a matter of fixing unambiguous, sharply distinguished, verbal significations”
as investigações sobre origens são investigações sobre genuinidade, buscas de fundamentos radicaisem obras anteriores à Lógica Formal e Transcendental Husserl insiste repetidamente no caráter descritivo do método fenomenológico, vindo aqui, ao contrário, o termo Besinnung substituir o termo Deskription, ou seu equivalente Beschreibung, ainda que Husserl não proíba o emprego deste último-
assim ocorre porque a noção de Besinnung implica a noção de crítica, e porque a Lógica Formal e Transcendental confere à crítica papel fundamental dentro do método fenomenológico, papel que antes não tinha, parecendo a crítica ter não apenas função controladora mas também função constituinte, não podendo nenhum conceito, nenhuma teoria, receber o selo de aprovação sem ter sido fundamentado pela crítica, pela crítica última que a Besinnung fenomenológica realiza
Husserl, contudo, não nega o estilo descritivo que em suas primeiras obras havia reivindicado para o método fenomenológico, permanecendo a descrição a primeira etapa em que a fenomenologia se inicia-
a descrição fenomenológica está longe do que usualmente se entende por descrição, não sendo simples descrição empírica mas descrição pura, não tendo diante de si objetos pregivés
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a fenomenologia não é ciência de fato mas ciência a priori das essências, mais precisamente ciência que investiga tipos essenciais, podendo perguntar-se, sob essas condições, por que Husserl reteve o termo descrição para caracterizar o método de uma disciplina a priori
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se o termo descrição pode provocar confusão da parte dos psicólogos que julgam poder apreciar descrições fenomenológicas, pode também, por outro lado, prevenir má interpretação da parte dos defensores do Apriori, indicando a distância que separa a fenomenologia das demais ciências a priori
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a fenomenologia é ciência a priori mas não dedutiva, sendo possível afirmar que foi essa negatividade que Husserl principalmente pretendeu indicar ao designar a fenomenologia como ciência descritiva, isto é, a fenomenologia é chamada descritiva porque não é dedutiva
Husserl trabalhou em matemática, tendo sempre conservado a exigência de rigor, o desejo de alcançar objetividade legítima através do Apriori, querendo inaugurar uma filosofia que fosse também ciência a priori e rigorosa-
compreende, porém, que a filosofia deve ter seus próprios métodos, capazes de proteger o ideal de rigor ao mesmo tempo em que abandona a dedução, o método rigoroso por excelência
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lendo-se Filosofia como Ciência Rigorosa, vê-se com que vigor Husserl afirma essa convicção, tendendo-se, por ser nas mais impressionantes das ciências modernas, as matemático-físicas, resultante de métodos indiretos a maior parte exteriormente visível de seu trabalho, a superestimar os métodos indiretos e a desconhecer o valor das compreensões diretas
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na medida em que a filosofia remonta a origens últimas, pertence precisamente à sua essência que seu trabalho científico se mova em esferas de intuição direta, sendo o maior passo que nossa época deve dar reconhecer que, com a intuição filosófica em sentido correto, a apreensão fenomenológica de essências, se abre um campo ilimitado de trabalho, uma ciência que, sem todos os métodos indiretamente simbólicos e matemáticos, sem o aparato de premissas e conclusões, ainda assim alcança plenitude dos conhecimentos mais rigorosos e decisivos para toda filosofia futura
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“Because in the most impressive of the modern sciences, the mathematico-physical, that which is exteriorly the largest part of their work, results from indirect methods, we are only too inclined to overestimate indirect methods and to misunderstand the value of direct comprehensions”
esse trecho unifica duas teleologias opostas em um propósito comum, a apreensão intuitiva direta e a apriorística científica, dando essa união paradoxal à descrição fenomenológica seu estilo própriopergunta-se como essa união paradoxal pode efetivar-se, questionando o próprio Husserl se uma eidética descritiva não seria algo absolutamente descabido, vindo essa pergunta imediatamente à mente precisamente porque ainda se está preso ao ideal do estilo demonstrativo da matemática-
sendo as disciplinas matemáticas as únicas que atualmente podem sustentar eficazmente a ideia de uma eidética científica, está-se de início longe de pensar que possa haver disciplinas eidéticas de outra espécie, não matemáticas, fundamentalmente diferentes em todo seu tipo teórico daquelas que se conhecem
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“as the mathematical disciplines are the only ones that at present can uphold efficaciously the idea of a scientific eidetics, at first we are far from thinking that there can be eidetic disciplines of another sort, non-mathematical ones”
a partir do momento em que se começa a considerar a esfera de estudo escolhida pelo fenomenólogo, é-se seriamente obrigado a constatar tratar-se de objetos de espécie inteiramente diversa dos objetos da matemática-
a geometria, por exemplo, tem como ponto de partida essências, o círculo, a reta, que pode definir de modo exato mediante conceitos fixos, ao passo que a tentativa de determinar um processo de consciência como objeto idêntico, com base na experiência, à maneira de um objeto natural, com a pressuposição ideal de uma possível explicitação em elementos idênticos apreensíveis por conceitos fixos, seria de fato loucura
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“the attempt to determine a process of consciousness as an identical object, on the basis of experience, in the same fashion as a natural Object… would indeed be folly”
um processo de consciência só pode ser estudado por meio de uma descrição que respeite os caracteres eidéticos descobertos pela intuição, não sendo assim o método fenomenológico de modo algum inferior aos métodos dedutivosum método não tem valor em si mesmo, devendo ser usado em sua própria província de aplicação, sendo os objetos da fenomenologia objetos concretos que devem ser apreendidos intuitivamente, não consistindo o método fenomenológico em deduzir, em explicar, erklären, por teorias, mas em ver as coisas como são, em elucidar, aufklärense se recorda que, para ver as coisas, não basta apenas olhá-las, sendo necessário buscar para ver melhor, descobrir, explicitar, esclarecer, então já se compreende que as tarefas descritivas podem conciliar-se com as tarefas críticasaceitando-se isso, e concordando de bom grado que a natureza da matéria da fenomenologia lhe impõe método inteiramente diverso do método dedutivo, ainda se pode ser cético quanto à possibilidade de erigir uma verdadeira ciência a partir de dados tão fluentes-
Husserl não contesta ser impossível determinar univocamente os objetos individuais da esfera fenomenológica, mas, se não se pode definir de modo exato os concreta fluentes, ao menos, quando se eleva o olhar para as essências cada vez mais gerais, pode-se pôr em jogo a determinação científica, determinando essas essências de modo estrito
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descreve-se e, assim, define-se em conceitos estritos a essência genérica da percepção como tal ou de espécies subordinadas como a percepção de algo físico e a percepção de seres animados, do mesmo modo a essência genérica da memória como tal, da empatia como tal, do querer como tal, e assim por diante, situando-se antes dessas, porém, as mais altas universalidades, o processo mental como tal, o cogito como tal, que já tornam possíveis descrições abrangentes
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“Thus we describe, and thereby define, in strict concepts the generic essence of perception as such”
se se pode descrever de modo puro e estrito, é porque na vida intencional prevalece uma conformidade essencialmente necessária a um tipo, apreensível em conceitos estritos-
“an essentially necessary conformity to type prevails and can be apprehended in strict concepts”
a descrição eidética é, assim, uma das diferenças de estilo entre a nova ciência a priori que é a fenomenologia e as ciências matemáticas, afirmando Husserl isso continuamente no período da Lógica Formal e Transcendental com a mesma clareza de antes-
com esse livro, porém, impõe a si mesmo um novo passo fenomenológico, essencialmente crítico e não mais meramente descritivo, separando-se aqui novamente o método fenomenológico do método da ciência objetiva, pois a crítica fenomenológica se distingue da crítica científica por ser uma crítica que descobre a genuinidade originária, desmascara todos os preconceitos e, ao esclarecer os horizontes intencionais, determina o verdadeiro alcance das evidências
cabe indicar agora o itinerário da investigação de sentido que parte da lógica tradicional para chegar por fim à ideia da ciência da ciência tomada em sentido genuíno e radical-
esse ponto de partida pode parecer arruinar toda pretensão de radicalismo, superando apenas o apelo às relações intencionais entre pensamento constituído e atividade constituinte do pensar tal objeção
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se essa objeção é ainda mais forte quando se toma como ponto de partida não apenas as ciências existentes mas também a lógica existente, ao menos a lógica tem a vantagem de ser base melhor para a investigação intencional do que as demais ciências, sendo o sentido originário mais visível na lógica do que nas ciências
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o estabelecimento sistemático de uma arquitetura do pensamento se manifesta de maneira muito nítida na lógica formal, prevalecendo mesmo através de apresentações amplamente divergentes e, na verdade, de caricaturas deformantes, um núcleo essencialmente idêntico de conteúdo irrenunciável
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“even through such widely divergent presentations and, indeed, distorting caricatures it has prevailed, with an essentially identical core of unrelinquishable content”
o sentido específico de seu caráter formal, porém, não foi apreendido com plena consciência, sendo precisamente tarefa da investigação de sentido distinguir a teleologia imanente que permanece confusa para as próprias pessoas por ela guiadasa orientação da lógica tradicional permanece essencialmente objetiva, focada unilateralmente no objeto, em direção a formações de pensamento, Denkgebilde, obrigando-se a investigação de sentido a restringir-se de início a esse ponto de vista unilateral-
mas, no estilo de pensamento husserliano, um começo nada compromete, mesmo na esfera da lógica, indo a investigação de sentido, ao distinguir gradualmente o sentido próprio da lógica tradicional, descobrindo os pressupostos da lógica que a revelam como lógica ingênua, uma que nunca sonhou questionar o que declara como evidente por si
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a investigação de sentido será então levada a criticar as evidências da lógica, retornando assim à atividade subjetiva constituinte e ao esclarecimento dessa atividade, vindo a orientação subjetiva dessa crítica a sustentar a orientação exclusivamente objetiva do tema da lógica tradicional
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não há razão, contudo, para interpretar os problemas referentes à subjetividade como problemas da subjetividade humana natural, portanto como problemas psicológicos, sendo os problemas de que trata a crítica fenomenológica da lógica os problemas da subjetividade transcendental
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chega-se assim a uma lógica que desce às profundezas da interioridade transcendental, podendo somente então o sentido da ciência em sua verdadeira Objetividade ser plenamente compreendido
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somente uma ciência esclarecida e justificada transcendentalmente, no sentido fenomenológico, pode ser ciência última, somente um mundo esclarecido transcendental-fenomenologicamente pode ser um mundo compreendido em última instância, somente uma lógica transcendental pode ser teoria última da ciência, teoria última, mais profunda e mais universal dos princípios e normas de todas as ciências
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“Only a science clarified and justified transcendentally (in the phenomenological sense) can be an ultimate science”
o leitor pode surpreender-se com a existência de um caminho que conduz da lógica formal à lógica transcendental, não compreendendo, se treinado nas disciplinas matemáticas, que se pudesse desejar horizonte diverso do da lógica matemática axiomatizada, nem compreendendo, se filósofo, que se possa levar em consideração tal lógica formal, mesmo como simples via de entrada, ao instituir uma lógica verdadeiramente filosófica que, de certo modo, torna declassée os problemas do formalismo-
não diz Husserl que a lógica historicamente existente, com sua positividade ingênua, seu modo de obter verdades como objetos de evidência ingenuamente direta, revela-se espécie de puerilidade filosófica, faltando-lhe em si mesma aquela genuinidade originária pela qual poderia alcançar autocompreensão e autojustificação últimas
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“the historically existing logic, with its naïve positivity, its way of obtaining truths as objects of naïve straightforward evidence, proves to be a kind of philosophic puerility”
é exatamente o mérito do livro de Husserl ter conseguido ir além da lógica formal, e não simplesmente descartá-la, sendo este o único exemplo encontrado na literatura filosófica de uma crítica do formalismo que não procede em espírito de crítica mal informadaas objeções ao formalismo ordinariamente feitas exemplificam usualmente uma ignorância e uma preguiça intelectual que destroem pela raiz o valor de seus argumentos, sendo o leitor já disposto contra o formalismo o primeiro a tomar de bom grado as conclusões de Husserl, mas sendo Husserl o primeiro a denunciar a ingenuidade dessa tendência risívelnão diz Husserl nos Prolegômenos que não é o matemático, mas o filósofo, quem sai de sua esfera natural de competência, se resiste às teorias matematizantes da lógica e se recusa a devolver seus filhos adotivos provisórios a seus pais naturais, não alterando em nada o desprezo com que os lógicos de orientação filosófica costumam falar das teorias matemáticas de inferência o fato de que, nelas, como em todas as teorias rigorosamente desenvolvidas, o tratamento matemático é o único científico, o único que oferece fechamento e completude sistemáticos, oferecendo uma visão de todas as questões possíveis e as formas possíveis de sua solução-
“Not the mathematician, but the philosopher, steps outside his natural sphere of competence, if he resists the 'mathematizing' theories of logic and is unwilling to hand over his provisional foster children to their natural parents”
Husserl distingue-se, de um lado, dos lógicos de orientação filosófica que desdenham a lógica matemática, não deixando de sublinhar o poder estimulante dos métodos matemáticos das teorias modernas de dedução-
de outro lado, ao reconhecer a necessidade de uma matematização da lógica, proclama os direitos de uma lógica filosófica genuína, tendo-se visto que sua primeira concepção de tal lógica, tal como aparece nos Prolegômenos, evoluiu, e que o enfoque subjetivo das investigações fenomenológicas subsequentes lhe deu fundamentos filosóficos mais profundos
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depois dos Prolegômenos, Husserl sublinha a necessidade de uma disciplina filosófica da lógica que vá além das tarefas da matemática, falando de uma divisão de trabalho entre matemáticos e lógicos, devendo a construção de teorias, a solução de problemas metodológicos e afins permanecer na província do matemático
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o matemático, porém, é apenas um técnico da teoria, somente podendo o filósofo iniciar uma crítica radical e assim penetrar na essência do conhecimento teórico
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o espírito matemático tem, entretanto, um poder inventivo que não deve ser mal compreendido por quem se depara com seus resultados, falando Husserl em numerosas ocasiões de um instinto científico que, por mais cego que seja quanto à investigação de origens, é guia seguro para o matemático, sendo em qualquer conflito melhor estar do lado dos matemáticos do que do lado dos filósofos intemperados
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a memória da batalha de Berkeley contra o cálculo infinitesimal deveria servir de advertência para confiar no instinto matemático, que a princípio é acrítico mas, nos traços principais, guia com segurança, escreve Husserl em seu segundo artigo no Archiv
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“The memory of Berkeley's battle against the infinitesimal calculus ought to serve us as an admonition to trust the mathematical instinct, which at first is uncritical but, in the principal features, guides us safely”
pode-se mesmo discernir, em observações ocasionais, uma nostalgia de Husserl pelo poder construtivo que o lógico pode empregar contra as críticas apressadas dos filósofos, sendo isso de fato o que fazem os matemáticos, excluindo os problemas especificamente filosóficos e, por assim dizer, de maneira ingenuamente dogmática, sem se preocuparem com as objeções dos filósofos, o que, em sua opinião, beneficia a ciência-
“That is actually done then by the mathematicians, while excluding the specifically philosophic problems and in, so to speak, a naïvely dogmatic manner, without concerning themselves with the philosophers' objections — in my opinion, to the benefit of science”
o gênio da matemática tinha razão, como sempre, quanto às questões em jogo, ainda que sua autocompreensão lógica fosse falha-
“for the genius of mathematics was right, as always, about the matters at issue; even though its logical self-understanding was faulty”
frequentemente, além disso, o lógico formado em matemática tem, por assim dizer, um superego matemático, com tudo o que isso implica de admiração e vindicação, não sendo necessário conceder maior importância do que a apropriada a essa dimensão psicológica do problema da relação entre matemática e lógicadeve manter-se em primeiro lugar que, para Husserl, a elaboração técnica das teorias, por mais engenhosa e aperfeiçoada que seja, deve necessariamente ser completada por um esclarecimento filosófico fundamentalhusserliana/husserl/lflt/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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