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A essência dos alemães

A essência dos alemães consiste em permanecerem vinculados à luta por sua própria essência, pois somente ao assumirem essa luta são o povo que unicamente podem ser, sendo apto para tal luta apenas aquele que, com inabalável confiança em seu orgulho essencial, é capaz de suportar a suprema dignidade de questionamento daquilo que mais merece ser questionado, o Seyn.

1. Os impulsos do Seyn e a historiografia

São raros na história aqueles impulsos que, embora irreconhecíveis por sua própria época, penetram todo o ente e vêm a ser em outro campo espaço-temporal de um outro Seyn, sendo ainda mais raro que tais impulsos sejam reconhecidos, reconhecimento que consiste em abrir caminho à trajetória dessas projeções e preparar os que projetam, ao passo que a historiografia quase sempre os captura, isto é, os aparta.

2. A cultura como organização da vivência

A história do ente, como o aparar dos impulsos do Seyn, configura-se como “cultura”, a qual não por acaso degenera na forma gigantesca da organização da vivência, sendo a política cultural, a preocupação cultural e a assimilação cultural cristã, apesar de aparentemente combaterem-se, da mesma e idêntica essência.

3. Apologética cristã e historiografia moderna

As empresas apologéticas do cristianismo cultural, arraigadas no Ocidente desde Ireneu, constituem forma preliminar da historiografia moderna, a qual não deve ser associada a Tucídides, mas a Agostinho e à civitas dei, dando origem, por fim, ao reino cultural cristão moderno dos mais altos valores culturais, que confirma justamente aquilo que apenas pretende “reavaliar”.

4. Catolicismo e modernidade

Por ter a Igreja Católica, como “catolicismo”, operado a maior cristianização da modernidade desde Trento, tudo que aspira a um futuro moderno deve necessariamente tornar-se “católico”, o que se realiza mais eficazmente quando uma “conversão” à Igreja não é necessária, mas a luta contra ela permanece possível apenas contra o curialismo romano em “política”.

5. O conceito de Estado e o caráter de aparato

Houve outrora um pensamento alemão que superava de longe o conceito de Estado como aparato de repartições e autoridades, ainda que, malgrado a essência moderna desse pensamento, ele não escapasse, ao final, desse mesmo conceito.

6. O império, a angústia e a equipagem gigantesca

Existem ainda românticos infantis que se exaltam com o “império” e a universidade “imperial” no sentido da ideia de império de Stefan George, esquecendo-se de que, no gigantismo desse aparato (Zu-rüstung, equipar-para), abrem-se as possibilidades gigantescas da “vivência”, negada a ninguém, e que nesse equipar-se a “cultura” primeiro se assegura e se equipa como organização da vivência.

7. O pensador futuro e a dialética

O pensador futuro deve conhecer a essência desfigurada do Seyn, não podendo por isso jamais tornar-se negador nem afirmador do “ente”, nem tampouco duvidador, restando-lhe, caso contrário, apenas a astúcia do dialético que faz valer todos os “lados” do ente e ao mesmo tempo os elimina, equilibrando tudo no absoluto sem sair da oposicionalidade sujeito-objeto.

8. O artista, o cientista e a ausência de verdade

Ao “artista” de hoje, que se contém e “trabalha” apenas por indireção longa e indiscernível, é estranho tudo aquilo que se cobre pela atividade dos ofícios agora vazios e pelo uso das formas costumeiras de produção e exibição.

9. A criatividade obscurecida e a superficialidade cultural

O mero criar e pôr em jogo de uma produtividade aparente carece de verdade, sem que se saiba o que tem primazia sobre a história, questionando-se por que os poetas e pensadores essenciais permanecem tão ineficazes frente à mais vazia mediocridade do escrever corrente.

10. O princípio dos alemães como luta por sua essência

Aquilo que unicamente faz dos alemães um povo é, segundo a lenda, serem o “povo de poetas e pensadores”, sendo estes apenas os precursores dos criadores que hão de, na história do Ocidente, repor o ente na decisão do Seyn, não havendo princípio operativo universal que faça de cada povo um povo, mas sendo cada povo elevado à estrutura de sua essência por sua história e por seu próprio princípio, sendo o princípio dos alemães a luta por sua essência mais própria.

11. O perigo da fuga e a coragem essencial

Por estarmos designados a essa luta mais própria por nós mesmos, devemos aceitar também o perigo da fuga a essa mais difícil das lutas, movendo-se todo o essencial sobre uma aresta tênue, tanto mais difícil de encontrar e de manter quanto mais essencial é, crescendo correspondentemente os perigos e, entre eles, o mais perigoso: a irreconhecibilidade.

12. O maior perigo: o equilíbrio das culturas

O maior perigo que ameaça nossa essência, isto é, a luta por nossa essência, é que um dia venhamos finalmente a afirmar tudo o que foi negado no primeiro abalo da revolução, cultivando ostensivamente todos os “valores culturais” e oscilando do excesso inicial de unilateralidade para um excesso de equilíbrio.

13. A política cultural como transformação essencial da cultura

Assim como um padeiro digno que, ao acaso, tem “vivência” da costa norueguesa poderia crer-se o primeiro a descobrir aquele país, também a política cultural não é mera aplicação extrínseca da cultura anterior a domínios antes indiferentes a ela, mas realiza uma transformação essencial da própria “cultura”, já co-posta por sua essência.

14. A certeza dos fins como ausência de fins

Não é que faltem “fins”: possuímo-los tão incondicionalmente que dispensam recordação, sendo o ponto antes que, nessa espécie de posse de fins e de “certeza” acerca deles, os próprios fins tornam-se supérfluos e se afastam de si mesmos, fundando-se isso no fato de o homem, como subjectum, interpretar a humanidade como “cultura”.

15. O erradio como dádiva velada da verdade

O erradio é a dádiva mais velada da verdade, pois nele se outorga a essência da verdade como custódia da autorrecusa e como a mais pura preservação do Seyn na proteção irreconhecível daquilo que sempre é, não sendo “erro” nem falha da verdade como correção, mas pertencendo ao “aí” do Dasein.

16. A filosofia e o incalculável

A filosofia deve, a partir do ente e daquilo que mais o é, entregar-se ao Seyn, em vista de uma capacidade de recordar o ente, não sendo o incalculável o meramente irracional, que o racionalismo poderia afinal vencer, mas antes aquilo que primeiro proporciona morada ao cálculo e a seus limites, abrindo-se apenas àqueles que já não “contam” com ele, mas suportam seu impulso.

17. Os resultados como medida do inessencial

Hoje nada é mais fácil do que “resultados”, mas também nada tão inessencial, questionando-se o que se passa numa época em que os resultados aparecem não apenas como testemunho da verdade, mas como a própria verdade.

18. A certeza e a destruição do ser

Toda certeza tem por notável “intenção” desligar aquele que está certo daquilo em face de que se certifica, retirando o gume de seu vazio, aparentando esse estado firmeza, sendo, contudo, menos ainda que a incerteza, por constituir uma destruição do ser.

19. O errar do pensamento e a proximidade do Seyn

Nas ciências felizmente não há erráveis, apenas equívocos e incorreções, medindo-se a profundidade de uma filosofia, quando há medida possível, por sua capacidade de ser errante, capacidade essa que jamais pode ser querida ou fabricada, mas que brota do próprio Seyn de modo cativante, dizendo algo sobre a proximidade desse pensar ao Seyn.

20. A proximidade da realidade e a confusão entre idealistas e realistas

O que se chama “proximidade da realidade” consiste em tomar os estados subsistentes de uma época presente tal como são, provando nessa mesma imediata dominação a própria capacidade de realização, sem que se veja como, nisso, a loucura reinante é antes afirmada de modo mais radical do que se a deixasse em paz.

21. A meditação e o salto histórico

Toda meditação corre o risco de saltar sobre estágios preliminares essenciais do que é historicamente necessário, sendo esse risco tanto maior quanto mais essencialmente ela procede, devendo por isso conservar o poder de saltar para trás permanecendo no salto adiante.

22. A visão de mundo nacional-socialista e o catolicismo

Essa visão de mundo, por essência, não pode pensar além dessa vitória, nem sequer o deseja, pois, se se compreende a si mesma, deve pôr-se como “incondicional” conforme sua própria “autoconsciência”, assim como o papa só é cabeça da Igreja se cuida de que esta se permita tudo o que for possível, mesmo o que lhe é contrário.

23. A impaciência dos tempos de transição

Em tempos de transição, a impaciência inclina frequentemente os melhores a exigir de imediato algo “positivo”, conferindo-lhe falsa importância no lugar errado, encontrando tal aspiração o caminho próprio somente quando a transição é tão abrangente que todo o pensar e agir dos transitórios deve manter-se já fora do simples ou-ou entre positivo e negativo.

24. A linguagem e a lei oculta das palavras

Nem todo uso linguístico é o mesmo, havendo o uso corrente que domina a cotidianidade e a legalidade oculta das palavras, surgida da história do Seyn, não constituindo aquele o vinculante primário para os que questionam, que devem antes ser compelidos de volta à essencialidade das palavras e criar linguagem antes que ela seja retomada no “uso”.

25. O “negativo” e o mal-entendido sobre a negação

A maior e mais fácil má interpretação recai sobre toda negação pensante, tomada por mera rejeição e proibição, quando, na verdade, a negação é a luta pela mais essencial afirmação da plena essência do Seyn, sendo o mais nítido traço dessa má interpretação o modo como se maltrata todo dizer do “nada”, desvalorizando-se o “niilismo” como meramente “negativo”

26. A educação espiritual e a criação da penúria

A “educação espiritual”, se existe, só pode visar a despertar os homens e reuni-los, já despertos, para que sejam capazes de exigir, questionando-se onde estariam os criadores da penúria nesta época, e se uma “educação” voltada a isso não haveria de parecer ao presente pura insensatez.

27. As exigências, a coragem e a subjetividade

Pergunta-se se as exigências brotam de importunações, e quem seriam os importunos, sendo a coragem para a verdade do Seyn e para o que é mais digno de questionamento aquilo que não parte dos homens, mas vem ao seu encontro, desde que estes se libertem do enredamento na subjetividade, algo que não pode ser forçado, restando apenas extrair-se para dentro do Seyn e apontar para sua história.

28. O sujeito, a raça e o esquecimento do ser

Se o homem se põe como subjectum sem apreender o sujeito em termos de subjetividade, e se este subjectum é tomado como algo simplesmente subsistente e interpretado “biologicamente”, concentrado no sangue como o propriamente subsistente e portador da hereditariedade e da “história”, tudo isso é compreensível para um pensar cada vez mais grosseiro, permanecendo, contudo, o esquecimento do ser em esquecimento.

29. O conhecimento e a ação

Concede-se que o pensamento não pode “efetuar” nada imediatamente, sobretudo se “efetuação” e “realidade” se medem pelo número de mudanças no subsistente, admitindo-se a necessidade dos que agem, mas devendo-se também meditar sobre o que efetua a falta de pensamento e conhecimento, cujos “efeitos” são ainda mais gigantescos que todos os resultados da ação.

30. A modernidade e a ausência de meditação

A modernidade é a época que se torna mais e mais segura de sua essência quanto mais exclusivamente pensa apenas no que faz, mas o que “faz” é apenas o que a plenitude da subjetividade deve fazer: preservar-se na ausência de meditação, talvez até a autodestruição, não sendo essa ausência mera cegueira, mas gigantismo no cálculo.

31. A filosofia, o dizível e a reticência

Talvez já estejamos acostumados demais, e demasiado exclusivamente, a buscar e encontrar no dito e realizado, e portanto publicamente produzido, o desvelamento do velado, sendo por isso vulgares nossas pretensões ao velado, podendo advir na história um momento que exija de poucos homens levar a cabo expressamente essa reticência, mesmo que apenas por um instante.

32. A ausência dos impulsos do ser e a salvação da história

Nessa ausência dos impulsos do ser, surge a possibilidade daquilo que é insistente, ruidoso e usual do ente tomado como “extante”, isto é, tomado como “história” no sentido corrente, não sendo a história jamais salva pelo cuidado com a perpetuação e o “futuro”, mas somente se a “salvação” for em si mesma a justificação criadora do que ainda carece de fundamento.

33. A quietude da história do Seyn

A quietude da história do Seyn talvez deva permanecer algo apenas pressuposto, sendo, no entanto, em si mesma, o abismo inabalável de algo simples: que às vezes o Seyn deixa vir a ser um deus e lança o homem no tremor desse vir-a-ser, para que o homem possa recordar o ente em sua verdade ontológica.

34. A “dialética” desde Platão

A “dialética” tornou-se dominante pela primeira vez, não por acaso, desde que Platão apreendeu a entidade como ideia, não a conhecendo Heráclito nem Parmênides, sendo seu efeito o de nos tornarmos cada vez menos capazes de sequer saber de antemão aquilo que a dialética parece realizar: a superação de oposições.

35. Hölderlin, Nietzsche e a evitação das decisões

Depois de Hölderlin e depois de Nietzsche, não há mais, entre os alemães, poetizar nem pensar que, essencialmente, enquanto fundação de história, pudesse ser uma revolta contra Deus sem arriscar o último poder das últimas decisões, tornando-se hábito, até instituição exigida, a evitação dessas decisões.

36. O caráter alemão e a leitura escolar

Se a essência dos alemães exige deles uma luta por sua essência, que precisão ser primeiro conquistada em luta, que espécie de loucura seria instituir procedimentos educacionais segundo os quais só se lêem, em aula de alemão, poetas que promoveram essencialmente a “etnicidade”, pretendendo alguém, numa época tão confusa, fixar “para toda a eternidade” o que é alemão e o que é um povo.

37. O povo como comunidade e a subjetividade

Interroga-se se povo é comunidade de “sangue”, “destino”, “trabalho” ou “disposição”, e como e por que tais categorias, a menos que o homem seja tomado como subjectum e esse subsistente repartido em propriedades corporais, psíquicas e espirituais.

38. Kant e a subjetividade transcendental

Kant deveria certamente ser riscado da história dos alemães, pois em que teria contribuído para a “etnicidade”, pensando o imperativo categórico antes em termos de “humanidade” do que etnicamente, questionando-se então por que ainda Kant, senão como caminho ainda não trilhado para manter a meditação sobre a humanidade moderna na profundidade correta.

39. Os opositores contemporâneos e os resistentes

Os opositores contemporâneos de uma época olham sempre apenas para o passado e, contudo, comportam-se como sucessores, não sendo o futuro do Ocidente fundado por eles, meros opositores do que está à mão, mas por aqueles que se tornam resistentes na colisão dos impulsos que um dia advêm de uma convulsão do Seyn.

40. A oposição, a antítese e a superação

A oposição mais aguda parece ter o maior poder de superação, expressando-se em “antítese”, mas a oposição jamais é aquilo que supera, devendo todo aquele que supera ter primeiro superado a própria oposição, não sendo a questão da verdade do Seyn jamais “antítese” à questão de toda a metafísica ocidental.

41. A filosofia da existência e o subjetivismo

A “filosofia da existência” é uma filosofia moderna que, sem apreender o “subjectum” “eticamente” como mera “personalidade”, coloca toda ciência e toda metafísica a serviço de um “apelo” ao “sujeito”, confirmando a exigida “comunicação” apenas esse “subjetivismo”.

42. A solidão de Nietzsche

O modo como se toma e se julga a solidão de Nietzsche é pedra de toque para o caráter e a profundidade da compreensão de suas questões, tendendo-se a vê-la como recolhimento do domínio público contemporâneo, mas essa solidão, ainda que menos originária que a de Hölderlin, é de proveniência inteiramente diversa, constituindo primeira iluminação da aproximação do pensar ao domínio do Seyn.

43. A meditação e a simplicidade solitária

A meditação não significa mera reflexão nem entretenimento de reservas, mas o salto adiante na verdade do Seyn, sendo facilmente confundida com mera descrição da “situação presente” ou levando a um humor “pessimista”, parecendo, na época da des-divinização e da indecisão, obra de deformadores.

44. A história, o abandono do ente e o subjetivismo da raça

Questiona-se se a verdade do Seyn não se oculta apenas a poucos velados, soprando como rajada perdida sobre a terra, deixando por um instante acontecer toda filiação, permitindo que o deus seja recordado pelos homens e os homens sejam necessitados pelo deus.

45. A “lógica” de Hegel e as teorias de categorias

Após a grande “lógica” de Hegel, qualquer “teoria das categorias” é, para os eruditos bem preparados, apenas questão de diligência e engenho em variações, permanecendo, contudo, diferença essencial insuprimível: para Hegel, essa lógica é seu próprio fundamento metafísico absoluto.

46. A “apologética” bem-intencionada da filosofia

Toda “apologética” bem-intencionada da filosofia, que busca demonstrar quão premente é sua necessidade em toda “ciência” e na clarificação de uma “visão de mundo”, presta-lhe um desserviço, pois todo “serviço” prestado a ela já é desserviço, não pertencendo a “filosofia” ao âmbito do serviço.

47. A necessidade da filosofia e o outro início

À essência da filosofia corresponde apenas aquele questionamento pensante que, a partir de si mesmo, torna a filosofia sempre novamente necessária numa necessidade inédita, jamais apelando à mera presença subsistente da filosofia e de sua “história”, mas chamando-a originalmente ao ente.

48. A história como pista apagada do Seyn

A história dá-se quando uma trilha desobstruída do Seyn atravessa o ente, permanecendo essa trilha, em seu apagamento, imperceptível, de modo a sempre oferecer ao ente um erradio e amplo espaço para que os homens, em fuga de sua essência, coloquem o ente diante do Seyn.

49. O ekphanéstaton platônico e a sensibilidade

O ekphanéstaton de Platão ainda é a última iluminação moribunda do brilho velado da physis, sendo todo brilho escuro, e se as aparências abandonam essa escuridão, perdem seu fundamento, tornando-se o ekphanéstaton o “sensível”, do qual a moral desconfia e a ciência explica.

50. A historiografia da arte e a destruição da história da arte

Pergunta-se em que medida a historiografia da arte participa da destruição da história da arte, ou se surge apenas quando essa destruição interna já se iniciou, sendo tudo o que é extremo originado em recusa e renúncia, que se revertem entre si na mais rara atribuição.

51. As revoluções como agitações do subsistente

As revoluções são convulsões em algo já subsistente, jamais transformações em algo inteiramente outro, podendo preparar transformações mas também minar-lhes o caminho, correndo a história da humanidade ocidental rumo a um ponto que só pode ser cruzado por decisões cujo tipo permaneceu alheio à história anterior.

52. O conhecimento histórico e a historiografia

Na medida em que o essencial acontece em domínios fundamentalmente distintos, o conhecimento histórico precisa em si mesmo transformar-se, devendo a meditação histórica preservar liberdade interior para as respectivas necessidades singulares, ao passo que o historiógrafo conta sempre com o contexto explicativo, enquanto o pensador histórico busca, de modo quase desconexo, as origens do necessário.

53. O caminho do Seyn e a fuga do pensamento

Bem rente à borda do aniquilamento corre o caminho indicado pelo Seyn ao pensamento, devendo chegar o momento em que a própria verdade exigirá a fundação de sua essência, negando-se então todo apoio e proteção.

54. A ossificação das concepções de história

Quando se presume que os movimentos são os paradigmas da história, o primeiro resultado é a ossificação, o que se ossifica dá refúgio ao vazio e evidente, desenvolvendo-se o evidente como medida do “simples”, sendo, contudo, o simples aquilo que é abstruso e subtraído a todo cálculo.

55. A arte como objeto de festival

O que se passa quando a própria arte é transformada em objeto de “festival” e este é “elevado” a instituição é prova indubitável, talvez já supérflua, de que a arte chegou ao seu fim, encobrindo-se os sentidos com noções “historiográficas” sem necessidade histórica.

56. A defesa do século XIX e o triunfo de Wagner

Interroga-se de que modo e com que finalidade ainda podemos hoje pensar “sobre” as artes, se não devemos arriscar-nos a expor-nos, uma vez, ao “ente” sem atividade artística, revelando à luz da meditação a superficialidade de todas as “vivências”, sendo o triunfo de Richard Wagner no século XX o que “compele” à defesa do século XIX.

57. O estilo como fenômeno da modernidade

O estilo é um modo de autoconsciência e, por isso, fenômeno da modernidade, indagando-se se os gregos, do nosso ponto de vista, o possuíam sem, contudo, possuí-lo como estilo, sendo o desejo de estilo o mais claro indício do predomínio da autoinstituição.

58. As revoluções e o retorno historiográfico

As revoluções jamais superam uma época histórica, pois pretendem apenas validar dentro da época o que antes era suprimido, tentando deter a época justamente por meio e em sua consumação, expandindo a aparência de um novo início histórico que apenas mascara maior arraigamento no historiográfico.

59. O crescimento, o lugar e a decisão

Tudo o que cresce deve poder permanecer em seu lugar e esperar seu tempo, tomando-se comumente o crescimento como aplicável apenas à “vida”, questionando-se como nomear aquilo que historicamente vem a ser, diferindo do desenvolvimento, sendo tal coisa primeiramente fundada em seu lugar e por isso mais constantemente enraizada nele do que qualquer coisa “viva”.

60. O opositor transformado em inimigo e a ossificação da luta

Se o opositor é imediatamente convertido em inimigo, e o inimigo já convertido em “demônio”, toda oposição se vê privada não apenas do criativo, mas do próprio espaço da luta, produzindo a eliminação da luta uma ossificação da vontade, permanecendo a conduta moral como saída para manter desperta a consciência de valores.

61. Os fundadores e a superação dos deuses

Os fundadores devem, na verdade, superar de longe os deuses, pois a estes, e a seu êxito sem esforço, é negado o abismo, o Seyn, podendo apenas os homens cientes do abismo ser fundadores, e apenas enquanto perseveram nessa superação dos deuses.

62. Os rompedores e a instauração do “entre”

Aqueles destinados a pertencer aos rompedores não devem mais ser meros destruidores, tampouco formadores, sendo os que rompem os que criam uma penúria, concedendo antecipadamente lugar à verdade do Seyn, sendo preciso, para isso, romper esse “entre” e buscar o rochedo mais duro.

63. Schelling entre Leibniz e Nietzsche

Schelling, apreendido historicamente a partir da história do ser, situa-se entre Leibniz e Nietzsche, sendo tão inessencial desviá-lo para uma filosofia positivo-negativa aparentemente aristotélico-cristã quanto derivá-lo do romantismo, enfrentando ainda o pensamento moderno a tarefa, aparentemente contraditória, de tornar a “vida” e a “terra” objeto de teoria.

64. O incalculável, a luz e a escuridão

A “realidade” mais dura, a de força histórica, não é a realidade dos incidentes nem das resoluções que os sustentam, mas a realidade do fato de que o ente, permanecendo sem a verdade do ser, propaga a aparência do ente e a espalha como rede impenetrável.

65. A ausencialidade histórica e a instituição da historiografia

A ausencialidade histórica só pode preparar-se pela degeneração e desregramento próprios da historiografia, sendo atingida quando esta se institucionaliza em todas as ocupações humanas, tornando-se irreconhecível como historiografia, sendo o jornal e o rádio tais instituições.

66. Hölderlin e Nietzsche na história do Seyn

Nomeamos facilmente juntos Hölderlin e Nietzsche, mas só devemos fazê-lo sabendo o que os diferencia, sendo esse critério a história do Seyn, e não a historiografia da metafísica nem a da “literatura”, consistindo essa história em como o Seyn perde sua primeira verdade, mal despontada, própria a ele mesmo.

67. O “objeto” da filosofia e a ausência de objeto

O “objeto” da filosofia consiste, todo o esforço do pensamento, na postulação daquilo que deve ser questionado disclosivamente, tendo levado o longo acompanhamento da filosofia pela “ciência” a tomar como objeto algo subsistente a ser elaborado por muitos pesquisadores, quando o necessário é antes tornar cada vez mais premente, mediante o questionamento pensante do Seyn, a ausência de objeto da filosofia.

68. O olhar essencial e o espírito demoníaco do calcular

Interroga-se se o olhar essencial dos homens essenciais para a penúria do Seyn será algum dia forte o bastante para dominar o espírito demoníaco do calcular e instituir, o que só ocorrerá se o Seyn se outorgar à essência do acontecimento apropriador.

69. A decisão única e a compulsão total

Questiona-se se a decisão única seria hoje entre a destruição total e a coerção de uma compulsão total, e se tal decisão determinaria os povos a serem povos, permanecendo indecisas as forças do “cristianismo” e da “cultura” enquanto cristianismo cultural e cultura cristã.

70. A prioridade da instituição sobre a instauração

Que atitude é exigida dos criadores numa época que já está a pôr a instituição da forma de eficácia antes da própria eficácia, antes da clarificação de seus fins, devendo a essência da história, determinada pela verdade do Seyn, preceder a própria história.

71. O destino humano e a decisão metafísica

O destino humano, em todas as suas formas institucionais, é levado tão longe para dentro da maquinação que uma decisão metafísica não realiza mais nada, por já não poder incorporar em seu espaço decisório essa essência da humanidade.

72. A “terra” como objeto de filosofia e o perigo à terra

Um obstáculo, embora não um perigo, poderia logo se desenvolver para o pensamento do Seyn a partir do fato de que a “terra” e o que a ela pertence sejam declarados objetos da “filosofia”, degradando-se a relação goetheana com a natureza a diretriz da erudição filosófica.

73. Os pensadores como distinguidores do Seyn

Os pensadores são distinguidores cujo distinguir se move ao vento de decisões vindas de longe, correndo contra esse vento de olhos abertos e contra os impulsos nele ocultos, distinguindo o ser frente ao ente ao tornarem-se os primeiros decididos a partir da essência do próprio Seyn.

74. A configuração pensante em três graus

A configuração pensante compreende a apresentação ordenada do nomeado, a abertura de um caminho de questionamento e o movimento de um impulso do Seyn, incluindo o terceiro os dois primeiros, ainda que jamais deles derivável.

75. A clareza essencial e a escuridão

A clareza do explicável, do indubitável, do não contraditório não é clareza essencial, pois esta só pode brilhar onde reside a escuridão e é compelida como fundamento do pensamento, não desaparecendo, assim, a escuridão pela clareza, mas antes desdobrando-se.

76. A “vinculação à natureza” e a fuga do Seyn

A exigência contemporânea do “real” poderia indicar um processo cuja superfície os homens contemporâneos continuam a percorrer sem reconhecer o nível de seu caminho como superfície de outro, reinando confusão quanto ao que seria a realidade do “real”.

77. A antropologização do homem

Uma época em que não apenas a representação do homem, mas também a do ente em sua totalidade, tornou-se antropológica em sentido estrito, deve ter antropomorfizado o homem de modo singular, significando isso tomá-lo como algo subsistente ao qual, entre outras propriedades, também as espirituais estão presentes.