Resumo em tópicos
1. O último curso de Marburgo, ministrado no semestre de verão de 1928, propunha-se um confronto com Leibniz, guiado pela consideração do ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) extático do homem a partir do problema do ser, dando continuidade a um esforço análogo empreendido no semestre de 1923-24 acerca de Descartes, posteriormente incorporado a Ser e Tempo (Sein und Zeit, §§ 19-21).
2. Essas e outras interpretações eram determinadas pela convicção de que, no pensar filosófico, constitui-se um diálogo com os pensadores do passado, diálogo que não visa completar uma filosofia sistemática por meio de sua exposição histórica, nem se compara à identidade singular que Hegel alcançou entre pensar seu pensamento e a história do pensamento.
3. Segundo a tradição, a metafísica desenvolvida por Leibniz constitui uma interpretação da substancialidade da substância, e o texto que se segue busca mostrar a partir de qual projeto e seguindo qual fio condutor Leibniz determina o ser do ente.
4. É característica a própria palavra empregada por Leibniz para conotar a substancialidade da substância: a substância é mônada (Monade), termo grego que significa o simples, a unidade, o uno, mas também o singular, o só, empregado por Leibniz somente após 1696, quando dá forma acabada à sua metafísica da substância.
5. Três aspectos devem ser mantidos firmes para uma determinação suficiente da mônada.
6. Todo ente que subsiste por si é constituído como mônada e dotado de força, de modo que somente apreendendo bem o conceito de vis primitiva é possível compreender o sentido metafísico da doutrina das mônadas.
7. Resolver positivamente o problema da substancialidade da substância significa resolver, para Leibniz, um problema de unidade, de mônada, devendo o caráter de força ser pensado a partir do problema da unidade insito na substancialidade, distinguindo Leibniz seu conceito de vis activa do conceito escolástico de potentia activa.
8. A vis activa é, portanto, um certo agir, mas não a ação em sua efetivação própria; é uma capacidade, mas não uma capacidade em repouso, podendo ser designada como tendência ou, mais precisamente, como impulso (Drang), não sendo nem disposição nem processo, mas o ter pressa de si mesmo, o ter-se de mira, o interessar-se a si de perto.
9. O traço característico do impulso é traduzir-se por si mesmo em ação, não ocasionalmente, mas por essência, não necessitando de estímulo externo, pois o impulso já é de si algo que arrasta e que, por natureza, move-se a si mesmo.
10. Leibniz chega então à determinação essencial de que essa força é insita em toda substância e dela nasce sempre um certo agir, sendo o impulso produtivo, isto é, conduzindo algo para fora de si e fazendo-o resultar de si mesmo, o que vale inclusive para a substância corpórea, cujos cartesianos erram ao situar sua essência na mera extensão.
11. Todo ente possui esse caráter de impulso e como tal é determinado em seu ser, sendo este o traço metafísico fundamental da mônada, ainda que a estrutura desse impulso não esteja com isso explicitamente determinada.
12. Está nisso implícita uma asserção metafísica da maior importância, pois essa interpretação do ente propriamente dito deve iluminar também a possibilidade do ente em sua totalidade, o que suscita duas questões diante da tese monadológica fundamental sobre a presença contemporânea de vários entes no universo.
13. Se cada mônada é impelida por seu próprio impulso, nenhuma substância pode dar a outra seu próprio impulso, isto é, o que lhe é essencial, sendo capaz apenas de desinibir ou inibir, e mesmo assim de modo sempre indireto, de sorte que a relação entre substâncias é unicamente uma relação de limitação, portanto de determinação negativa, o que Leibniz expressa afirmando que uma substância criada recebe de outra apenas os limites e a determinação de seu esforço (nisus) já preexistente.
14. A vis activa é também conotada como ἐντελέχεια em referência a Aristóteles, justificando-se na Monadologia (§18) pelo fato de as mônadas terem em si uma certa perfeição (ἔχουσι τὸ ἐντελές), portando já em si seu positivo, que potencialmente é o próprio universo — interpretação que não corresponde à tendência autêntica de Aristóteles, mas à qual Leibniz se sente no direito de conferir novo sentido, sendo o termo traduzido já no Renascimento por Ermolau Barbaro como perfectihabia.
15. Recapitulado o conceito de vis activa como impulso insito em toda substância do qual constantemente brota um atuar, chega-se à autêntica problemática metafísica da substancialidade, isto é, à questão da unidade da substância como ente primário, sendo tudo o que não é substância chamado por Leibniz de fenômeno, algo emanado e derivado.
16. A unidade da mônada não é resultado de um conjunto nem algo posterior, mas aquilo que dá unidade a priori, sendo por isso ativa, vis activa; o impulso é o primum constitutivum da unidade da substância, e nisso reside o problema central da Monadologia.
17. Permanece obscuro como o próprio impulso pode conferir unidade e como, sobre o fundamento dessa mônada unitária em si, se constitui o todo do universo em suas conexões, sendo necessário, antes de responder, reconstruir os nexos e perspectivas essenciais seguindo o fio condutor que foi determinante para o próprio Leibniz.
18. A Monadologia quer esclarecer o ser do ente, sendo necessário extrair de algum lugar uma ideia exemplar do ser, a qual é extraída ali onde o ser se manifesta imediatamente a quem questiona filosoficamente: o próprio ser-aí (Dasein) de quem pergunta, uma vez que nos relacionamos com o ente e somos nós mesmos entes, e de modo algum indiferente, pois o nosso próprio ser nos diz respeito de perto.
19. A constante referência ao próprio ser-aí, à constituição ontológica e ao modo de ser do próprio eu (Ich), oferece a Leibniz o modelo para a unidade que atribui a todo ente, o que resulta evidente em múltiplas passagens, sendo decisivo perceber esse fio condutor para compreender a Monadologia.
20. Dessa analogia essencial com o “eu” resulta particularmente claro que a compreensibilidade máxima decorre precisamente dessa origem, chegando Leibniz a afirmar que pressupõe em toda parte e por tudo apenas o que reconhecemos em nossa própria alma, isto é, mutações internas espontâneas, esgotando com essa única pressuposição a soma inteira das coisas.
21. Essa ideia do ser, extraída da experiência de si, da mutação espontânea perceptível no eu, do impulso, constitui o único pressuposto e, portanto, o verdadeiro conteúdo do projeto metafísico, esclarecendo Leibniz, em carta a Bernoulli, que as formas substanciais não são simplesmente almas, mas algo correspondente à alma, servindo essa analogia apenas de ocasião para o projeto da estrutura fundamental da mônada.
22. Na Monadologia (§30), afirma-se que é pensando em nós mesmos que apreendemos ao mesmo tempo o pensamento do Ser, da substância, do simples ou do composto, do imaterial e até de Deus, concebendo que aquilo que em nós é limitado, nele é sem limites (via eminentiae), donde se pergunta de onde Leibniz extrai o fio condutor para a determinação do ser do ente: o ser é interpretado em analogia à alma, à vida e ao espírito, sendo o fio condutor o ego.
23. Também os conceitos e a verdade não derivam dos sentidos, mas brotam no eu e no intelecto, como resulta da carta à rainha Sofia Carlota da Prússia sobre o que é independente dos sentidos e da matéria, de grande importância para o problema da função condutora da autoobservação e da autoconsciência em geral.
24. Nos Novos Ensaios (livro I, cap. I, §23), Leibniz pergunta como poderíamos ter a ideia do ser se não fôssemos nós mesmos entes e não encontrássemos assim o ser em nós, equiparando-se aqui, ainda que de modo equívoco, ser e subjetividade: não teríamos a ideia do ser se não fôssemos entes.
25. Devemos ser, no sentido de Leibniz, para ter a ideia do ser, sendo justamente nossa essência que faz com que, sem a ideia do ser, não pudéssemos ser o que somos, constituindo a compreensão do ser algo constitutivo do ser-aí (Discours, §27), embora disso não se siga que alcancemos a ideia do ser referindo-nos a nós mesmos como entes.
26. Do exposto resulta, antes de tudo, que Leibniz, apesar de todas as diferenças em relação a Descartes, considera com este a autocerteza do eu como certeza primária, vendo no eu, no ego cogito, a dimensão de onde devem ser extraídos os conceitos metafísicos fundamentais, tentando-se assim uma solução do problema do ser mediante o recurso ao sujeito, ainda que esse recurso ao eu permaneça equívoco tanto em Leibniz quanto em seus predecessores e sucessores, por não ser o eu compreendido em sua estrutura essencial e em seu modo de ser específico.
27. A função condutora do eu é equívoca sob vários pontos de vista, sendo o sujeito, de um lado, o ente exemplar que, enquanto ente, dá com seu próprio ser a ideia do ser em geral, e, de outro, aquilo que compreende o ser, permanecendo o conceito de sujeito ontologicamente não esclarecido apesar da evidenciação de autênticos fenômenos ônticos.
28. Justamente por isso, tem-se em Leibniz a impressão de que a interpretação monadológica do ente seja um mero antropomorfismo, uma animação universal por analogia ao eu, concepção que seria exterior e arbitrária, procurando o próprio Leibniz fundamentar metafisicamente essa observação analógica ao afirmar, em carta a de Volder, que a natureza das coisas é uniforme e que nossa essência não pode diferir infinitamente das demais substâncias simples de que se compõe o Universo, tendo esse princípio ontológico fundamental, porém, necessidade de ser ele mesmo fundado.
29. Em vez de nos contentarmos com a constatação grosseira de um antropomorfismo, cabe perguntar quais estruturas do nosso ser-aí devem ser tidas por relevantes para a interpretação do ser da substância, e como essas estruturas se modificam para tornar monadologicamente compreensível todo ente e todo grau do ser, reformulando-se o problema central: em que modo deveria o impulso, que caracteriza a substância como tal, dar unidade, e como deve ser determinado esse impulso?
30. Se o impulso deve unificar enquanto impelente, deve ser algo simples, sem partes como um agregado ou conjunto, devendo o primum constitutivum ser uma unidade indivisível, pois aquilo que se divide em vários já existentes é agregado de vários, e o que é agregado de vários não é uno senão mentalmente, nem tem realidade senão emprestada dos conteúdos.
31. Se a substância é, enquanto simples, unificante, deve haver também uma multiplicidade por ela unificada, do contrário o problema da unificação seria supérfluo, devendo aquilo que unifica, tendo sua essência na unificação, referir-se por essência ao múltiplo, prefigurando a mônada, em sua simplicidade unificante, a possibilidade de uma multiplicidade.
32. Como primum constitutivum, o impulso deve ser unificante enquanto simples e, ao mesmo tempo, origem e modo de ser do mutável, o que significa que a unidade não é uma composição a posteriori, mas uma unificação originária que organiza, devendo o princípio unificante ser anterior àquilo que é submetido à possível unificação.
33. O unificante simples deve ser originariamente pré-compreendente (ausgreifend) e, enquanto pré-compreendente, antecipadamente circompreendente (umgreifend), de modo que toda multiplicidade já sempre se diversifique ao ser circompreendida, sendo, como aquilo que pré-compreendendo circompreende, antecipadamente predominante (vorweg überragend), substantia prae-eminens.
34. O impulso, a vis primitiva enquanto primum constitutivum da unificação originária, deve ser, portanto, pré-compreendente e circompreendente, o que Leibniz exprime dizendo que, no fundamento de sua essência, a mônada é re-presentante (vor-stellend, re-präsentierend).
35. O íntimo motivo metafísico do caráter representativo da mônada é a função ontológica unificante do impulso, motivação que ao próprio Leibniz permaneceu oculta, não devendo ser confundida com a reflexão de que a mônada, enquanto força, seria algo vivente, ao vivente pertenceria a alma, e à alma a capacidade de representar — o que resultaria numa aplicação extrínseca da alma ao ente em geral.
36. Como aquilo que enquanto simples e originário unifica, o impulso deve ser pré-compreendente-circompreendente, deve ser “re-presentante”, não devendo o representar ser aqui tomado como faculdade particular da alma, mas em sentido ontológico-estrutural, de modo que não é a mônada que é em sua essência metafísica alma, mas ao contrário, é a alma uma possível modificação da mônada.
37. À estrutura do impulso pertence, além do “representar”, também o “apetecer” (νόησις – ὄρεξις), nomeando Leibniz expressamente, junto à perceptio (repraesentatio), uma segunda faculdade, o appetitus, por não ter captado de imediato de modo suficientemente radical a essência da vis activa, sendo o impulso, em si mesmo, um apetecer que representa e um representar que apetece, tendo o appetitus significado próprio e constitutivo tanto quanto a perceptio.
38. O impulso originariamente unificante deve vir antes de toda possível multiplicidade, devendo estar-lhe à altura em potência, de modo a já tê-la ultrapassado e superado, devendo em certo sentido portar em si a multiplicidade e fazê-la nascer no próprio impelir, situando-se aí a origem essencial da multiplicidade.
39. É preciso lembrar que o impulso, que antecipadamente ultrapassa a multiplicidade, é a unidade unificante originária, isto é, a mônada é substantia, não sendo as substâncias totais aquelas que contêm partes formalmente, mas coisas totais que contêm eminentemente as partes.
40. O impulso é a natureza, isto é, a essência da substância, sendo esse elemento ativo sempre originariamente representante, afirmando Leibniz a de Volder que, se nada é por natureza ativo, nada será absolutamente ativo, pois toda ação contém em si uma mudança, resultando daí uma tendência à mudança interna que segue da natureza da coisa.
41. Nisso se diz claramente que, enquanto impulso, a atividade da mônada é impulso à mudança, tendendo o impulso por natureza a algo outro, sendo impulso que se ultrapassa, de modo que o múltiplo brota em algo que impele justamente enquanto impele, estando a substância sujeita à sucessão (successioni obnoxia).
42. O impulso se expõe como impulso à sucessão, a qual não é algo diverso do próprio impulso, mas o que intimamente lhe pertence, não sendo o múltiplo algo estranho ao impulso, mas o próprio impulso.
43. É insita no próprio impulso a tendência a passar de… a…, tendência essa que Leibniz chama appetitus, sendo appetitus e perceptio, em sentido próprio, determinações igualmente originárias da mônada, unificando a tendência a partir de uma unidade que antecipadamente ultrapassa, e sendo aquilo que ela unifica os trânsitos de uma representação a outra que se sucedem no impulso.
44. Segundo carta a de Volder, considerando a coisa com precisão, nada há nas coisas senão substâncias simples e, nelas, percepção e apetite, sendo o princípio de mudança interno a todas as substâncias simples, sem razão para que seja mais próprio de uma do que de outra, consistindo no progresso das percepções de cada mônada, sem que a natureza das coisas tenha mais nada além disso.
45. O progressus perceptionum é o elemento originário da mônada, a tendência a passar de uma representação a outra, o impulso, sendo instrutiva para compreender a gênese dessa doutrina a carta a de Volder de 1706, na qual Leibniz afirma bastar-lhe supor que há uma força no que percebe de formar de percepções anteriores novas percepções, algo reconhecido pelos filósofos antigos e recentes nas operações voluntárias da alma, mas que ele considera válido sempre e em toda parte, suficiente para todos os fenômenos.
46. Para responder à questão de em que sentido o impulso é unificante enquanto impulso, é necessário examinar sua estrutura essencial.
47. A mônada é antecipadamente unificante de modo simples e originário, de tal maneira que essa unificação produz individuação, residindo a possibilidade interior da individuação, sua essência, na própria mônada, sendo sua essência o impulso.
48. Recapitulando o que foi dito sobre a substancialidade da substância, a substância é aquilo que constitui a unidade de um ente, sendo esse elemento unificante o impulso, tomado nas determinações indicadas, isto é, como re-presentar que, enquanto tendência a passar, forma em si mesmo o múltiplo, tendo cada mônada sua propre constitution originale, dada com a criação.
49. Cabe perguntar o que, no fundo, faz de cada mônada uma determinada mônada, isto é, como se constitui a própria individuação, pois apelar à criação apenas fornece explicação dogmática da origem do que é individuado, sem esclarecer a individuação enquanto tal, devendo esta ter lugar naquilo que fundamentalmente constitui a essência da mônada: o impulso.
50. Se antes foi posta de lado a conexão com a criação por se tratar de explicação dogmática, o sentido metafísico que emerge da conotação da mônada como criada é a finitude, significando esta, do ponto de vista formal, limitação, cabendo perguntar em que sentido o impulso é limitável a partir de seu traço metafísico fundamental, a unificação que representa e que antecipadamente ultrapassa.
51. Há ainda algo não explicitamente captado: assim como o impulso é em si mesmo pré-compreendente, a ponto de ser e consistir nessa pré-compreensão, há algo que tem em si a possibilidade de captar-se a si mesmo, atravessando o impelente, em seu impelir-para…, sempre uma dimensão, isto é, a si mesmo, de modo a estar aberto a si segundo sua possibilidade essencial.
52. Com base nessa autoabertura dimensional, um impelente pode compreender expressamente também a si mesmo, isto é, além de perceber, pode ao mesmo tempo estar co-presente a si, pode perceber a mais (ad) a si mesmo, ou seja, apercebir, distinguindo Leibniz, nos Principes de la nature et de la grâce (§4), a Percepção, estado interior da mônada que representa as coisas externas, da Apercepção, que é a Consciência ou conhecimento reflexivo desse estado interior, não dada a todas as almas nem sempre à mesma alma.
53. Nesse ponto de vista — sempre numa determinada perspectiva do ente e do possível — é mantido, por assim dizer, todo o universo à vista, o qual, porém, nele se fragmenta de modo determinado conforme o grau do impelir de uma mônada, isto é, conforme sua possibilidade de unificar-se em sua multiplicidade, resultando disso que na mônada, enquanto impulso que representa, há uma certa co-representação de si mesma.
54. Esse autodesvelamento pode ter diversos níveis, da transparência perfeita até a insensibilidade e o atordoamento, não havendo mônada a que faltem perceptio e appetitus e, portanto, certa autoabertura, ainda que no grau mais ínfimo, sendo o respectivo ponto de vista e a consequente possibilidade de unificação, isto é, a unidade, sempre aquilo que torna cada mônada indivíduo.
55. Justamente enquanto unifica — pois nisso consiste sua essência — a mônada se individua, mas na individuação, no impulso que parte de sua própria perspectiva, a mônada unifica, apenas conforme sua possibilidade, o universo nela antecipadamente representado, sendo assim cada mônada em si mesma um mundus concentratus, concentrando o mundo, a seu modo, em todo impelir.
56. Por ser cada mônada, a seu modo, o mundo, na medida em que o presenta, todo impulso está em consensus com o universo, e por esse acordo entre cada impulso representante e o universo, também as mônadas estão em conexão entre si, implicando a ideia da mônada como impulso que representa e tende a passar que o mundo lhe pertença sempre em escorço perspectivo, e que todas as mônadas, como unidades de impulso, estejam antecipadamente orientadas à harmonia predisposta do universo do ente: harmonia praestabilita.
57. A harmonia praestabilita, como constituição fundamental do mundo real, dos actualia, contrapõe-se, contudo, à mônada central, isto é, a Deus, como aquilo que resultou de seu impulso (das Erdrängte), sendo o impulso de Deus sua vontade, mas o correlato da vontade divina o optimum, distinguindo-se entre o que Deus pode e o que quer: pode tudo, quer o melhor, sendo os actualia apenas os melhores dentre os possíveis comparados, e os possíveis aqueles que não implicam contradição.
58. Em cada mônada está potencialmente o universo inteiro, sendo a individuação que se efetiva no impulso unificante sempre e essencialmente individuação de um ente que pertence monadicamente ao mundo, não sendo as mônadas elementos isolados de cuja soma resultaria o universo, mas sendo cada uma, enquanto impulso com caráter próprio, sempre a seu modo o universo.
59. Resulta clara, do exposto, a imagem que Leibniz emprega com frequência para caracterizar a essência conjunta da mônada: a mônada é um espelho vivo do universo.
60. Um dos trechos essenciais a esse respeito encontra-se na carta a de Volder de 20 de junho de 1703, segundo a qual é necessário que as entelequias (as mônadas) difiram entre si, isto é, não sejam perfeitamente semelhantes umas às outras, devendo ser antes os princípios da diversidade, pois cada uma exprime o universo de modo diverso segundo seu próprio modo de ver, sendo justamente essa sua função específica: serem outros tantos espelhos vitais das coisas, isto é, outros tantos mundos concentrados.
61. Nessa proposição estão contidas várias afirmações.
62. Tendo presentes essas considerações, é possível captar com maior precisão a essência da substância finita numa perspectiva até então não considerada, afirmando Leibniz, em carta a de Volder de 1703, que toda substância é ativa e toda substância finita é passiva, estando à passividade conexa a resistência.
63. Essa negatividade, entendida em sentido puro como momento estrutural do impulso finito, define o caráter daquilo que Leibniz entende por materia prima, afirmando em carta a des Bosses que a matéria primeira é essencial a cada entelequia e dela jamais se separa, completando-a e sendo ela mesma a potência passiva de toda a substância completa, não consistindo a matéria primeira em massa, impenetrabilidade ou extensão.
64. Por essa passividade essencial e originária, a mônada tem a íntima possibilidade do nexus com a materia secunda, com a massa, com a resistência determinada no sentido da massa e do peso materiais, tema tratado na correspondência com o matemático Johann Bernoulli e com o jesuíta des Bosses, professor de filosofia e teologia no colégio jesuíta de Hildesheim.
65. Esse momento estrutural da passividade oferece a Leibniz o fundamento para tornar metafisicamente compreensível o nexo da mônada com um corpo material (materia secunda, massa) e para mostrar positivamente por que a extensio não pode constituir a essência da substância material, como ensinava Descartes, não sendo aqui o caso de aprofundar esse argumento nem de prosseguir o exame da ulterior estrutura da Monadologia e dos princípios metafísicos a ela conexos.