A Vorrangstellung Platons (posição predominante de
Platão) repousa no fato de que sua doutrina, juntamente com a de
Aristóteles e através da teologia cristã, sustenta a história inteira do Denken (pensar) ocidental, inclusive a filosofia de
Nietzsche.
-
A filosofia ocidental é Platonismus (platonismo), inclusive a filosofia de
Aristóteles.
-
O Ganze des Seienden (todo do ente) se mostra ao pensamento pela determinação do Sein des Seienden (ser do ente) como idea.
-
A cisão entre o sensível e o não sensível torna-se o traço fundamental pelo qual o Seiende (ente) no todo aparece.
O traço platônico do Seiende im Ganzen (ente no todo) atravessa tanto a interpretação que subordina o sensível ao suprassensível quanto a inversão que reduz o suprassensível a derivação, superestrutura ou aparência do sensível.
O Denken (pensar) que representa o Seiende (ente) em sua Seiendheit (entidade) chama-se filosofia, e “filosofia”, “platonismo” e “idealismo” nomeiam essencialmente o mesmo horizonte, no qual também realismo, empirismo e positivismo permanecem como contramovimentos internos ao platonismo.
O materialismo também é Platonismus (platonismo), pois suas refutações filosóficas permanecem presas ao mesmo campo que pretendem combater, sem atingir seu Wesen (essência).
O Wesen (essência) mais originário do materialismo não está em afirmar que tudo é matéria, mas em fazer aparecer o Seiende (ente) como Material (material) da Technik (técnica), cujo próprio Wesen (essência) ainda permanece oculto.
A questão do diabo e do materialismo pertence essencialmente ao problema das traduções de
Anaximandro, porque ambas se movem no horizonte histórico do platonismo.
c) A dependência das traduções de Diels e Nietzsche em relação ao platonismo da formação clássico-tradicional do século XIX. A filosofia de Nietzsche como “platonismo invertido”. A interpretação filosófica de Hegel dos “filósofos mais antigos” a partir de Aristóteles
-
As representações platônicas sobre Entstehen (surgimento), Vergehen (perecimento), necessidade, realidade, possibilidade, justiça, injustiça, ordem e tempo foram incorporadas ao saber formativo moderno, de modo que também o pensamento anterior a
Platão passa a ser compreendido historicamente a partir do platonismo.
-
A tradução de Diels, embora filológica, move-se necessariamente dentro de uma compreensão filosófica herdada, pois tornar a palavra de um pensador pré-socrático acessível em alemão já implica uma Auslegung (interpretação).
-
A semelhança entre Diels e
Nietzsche não se explica por dependência filológica ocasional, mas pela fonte comum das representações formativas correntes sobre a filosofia e suas doutrinas.
-
Nietzsche já é filósofo quando traduz
Anaximandro, pois sua máxima de libertar o século VI de seu túmulo e sua formulação da própria filosofia como “platonismo invertido” determinam todo o caminho de seu Denken (pensar).
-
A inversão do platonismo consiste em fazer o sensível aparecer como aparência do ente e como ideal, mas tal inversão continua sendo Verstrickung in den Platonismus (enredamento no platonismo).
-
Nietzsche interpreta
Heráclito e
Parmênides pelo esquema platônico de Sein (ser) e Werden (devir), no qual o Sein (ser) é associado ao suprassensível, imperecível e eterno, enquanto o sensível é dominado pelo Werden (devir).
-
Embora
Nietzsche tenha dado vivacidade à Persönlichkeit (personalidade) dos pensadores do século VI, sua interpretação de seu Gedachtes (pensado) ainda os empurra para o túmulo do platonismo que pretendia superar.
-
A incapacidade moderna de deixar os primeiros pensadores falarem mostra que entre seu Gedachtes (pensado) e a posteridade se interpôs o platonismo como uma cadeia montanhosa quase intransponível.
-
A dificuldade de
Nietzsche em abrir o caminho para a Frühe (aurora) do pensamento talvez se ligue ao peso de sua experiência do nihilismus (niilismo), que o impediu de alcançar a severidade exigida para repensar os primeiros pensamentos.
-
A pergunta por
Hegel torna-se necessária porque seu Denken (pensar) sistemático parece ter sido o primeiro a pensar filosoficamente a história da filosofia a partir da própria essência da realidade absoluta.
-
Hegel não interpreta diretamente o Spruch (dito) de
Anaximandro, mas aborda a determinação da natureza como apeiron (ilimitado), considerada pela tradição como a doutrina própria de
Anaximandro.
-
Hegel também pensa o Anfang (começo) grego como desenvolvimento que se encaminha para
Platão e
Aristóteles, tomando
Aristóteles como fonte privilegiada para conhecer os filósofos mais antigos.
-
A diferença entre
Hegel e as opiniões posteriores do século XIX está em que
Hegel fundamenta filosoficamente a mesma compreensão do começo como estágio superado de uma Entwicklung (desenvolvimento).
-
As traduções de
Nietzsche e Diels não bastam sequer para conhecer grosseiramente o Spruch (dito), caso se confirme que sua Auslegung (interpretação) permanece governada pelo platonismo.
-
A pergunta sobre por que não traduzir corretamente de imediato o Spruch (dito) revela que ainda se pressupõe a superioridade dos posteriores sobre os anteriores e a legitimidade de compreender
Anaximandro a partir de
Platão.
-
As considerações anteriores conduzem à pergunta decisiva sobre o Sinn (sentido) de ainda ocupar-se hoje de um Spruch (dito) pronunciado há mais de dois milênios e meio.
§ 4. As reservas essenciais contra o projeto de interpretação do dito. A possibilidade de sermos tomados por ele
-
A dificuldade não consiste em buscar uma tradução sem pressupostos, mas em ser previamente tomado de modo adequado pelo Zudenkende (aquilo-a-ser-pensado) que se pensa no Spruch (dito) do pensador.
-
A primeira reserva afirma que o conteúdo do Spruch (dito) é necessariamente inacessível, porque entre o Anfang (começo) do Denken (pensar) ocidental e a época atual há uma distância de dois milênios e meio.
-
A segunda reserva afirma que, mesmo se o salto até o Spruch (dito) fosse possível, seu conteúdo só poderia ser compreendido no horizonte das representações atuais, de modo que se tornaria impossível determinar o que
Anaximandro quis dizer.
-
A terceira reserva afirma que o que restasse do sentido originário seria apenas algo historicamente ultrapassado pelo progresso do Denken (pensar) moderno, tornando o dito antiquado para os atuais.
-
A quarta reserva concede ao Spruch (dito) um valor histórico como começo da filosofia da natureza, mas nega que uma ocupação histórica com ele possa falar do que hoje é.
-
As reservas declaram ilusórios o acesso ao Spruch (dito), seu proveito e o direito de ocupar-se dele, uma vez que tal ocupação pareceria permanecer apenas histórica.
-
As reservas não devem ser dissolvidas por contrarrazões, pois elas já supõem saber de antemão o que é o Spruch (dito) e qual acesso a ele é possível.
-
O momento decisivo consiste em tentar ser tomado pelo próprio Spruch (dito), pois somente depois disso as reservas podem ser retomadas, caso ainda se mostrem necessárias.
-
Ainda não há Einsicht (visão compreensiva) do Spruch (dito), mas já há Vorsicht (cautela) diante das próprias opiniões e pretensões modernas de superioridade.
-
O Spruch (dito) pode falar algo estranho e talvez deixar não dito um Rätsel (enigma), pois o Ungesprochene (não dito) só pode retirar-se no interior do Gesprochene (dito) que fala.
-
A Auslegung (interpretação) não precisa reconstruir psicologicamente o que
Anaximandro teria representado, pois o pensador é antes interpelado pelo Zudenkende (aquilo-a-ser-pensado).
-
As reservas precisam ser nomeadas porque o desejo impensado de saber melhor só pode ser deixado de lado quando se torna explicitamente conhecido como obstáculo.
-
A prontidão para ser tomado pelo Zudenkende (aquilo-a-ser-pensado) pressupõe que
Anaximandro seja pensador, que o Spruch (dito) seja dito de pensador e que aquilo que nele deve ser pensado ainda diga respeito ao presente.
-
A questão final não é se está ao arbítrio moderno ouvir o Spruch (dito), mas se ele já fala mesmo quando não é ouvido, decidindo assim algo sobre o Geschick (destino historial) dos que não o escutam.
§ 5. A construção do dito: sua articulação em duas partes e a ligação entre elas pela palavra yap
-
O Spruch (dito) de
Anaximandro é retomado em seu texto grego e na tradução de Diels para que sua Bau (construção) possa ser pensada antes de se decidir o que ele diz.
-
A pergunta sobre aquilo de que o Spruch (dito) fala não pode ser respondida de imediato por um tema único, pois ainda permanece incerto se ele possui algo como um Gegenstand (objeto) tematizável.
-
O Spruch (dito) se divide em duas partes, separadas entre a fórmula “segundo a necessidade” e o início do segundo membro por yap (pois).
-
As duas partes parecem construídas de modo semelhante, pois a primeira articula o “de onde” e o “para onde” do Entstehen (surgimento) e do Vergehen (perecimento), enquanto a segunda fala da reciprocidade do pagamento segundo a ordem do tempo.
-
A semelhança formal levou à opinião de que os dois membros dizem o mesmo em formulações diversas, e até à suspeita filológica de que a primeira sentença não seria de
Anaximandro.
-
A suspeita de que gênesis e phthora pertenceriam apenas à terminologia platônico-aristotélica não se sustenta, pois as palavras podem possuir Nennkraft (força nomeadora) originária sem serem comprimidas no esquema de uma terminologia posterior.
-
A relação entre as duas partes permanece decisiva, porque elas não podem ser simplesmente idênticas se a segunda começa por yap (pois), termo que funciona como Gelenk (articulação) entre membros distintos de um todo.
-
O yap (pois) indica uma relação de fundamentação, na qual Grund (fundamento) e Folge (consequência) se pertencem e se distinguem, mas ainda não se sabe se o segundo membro fundamenta o primeiro ou se dele decorre.
-
A própria possibilidade de pensar o que vem à linguagem no Spruch (dito) pode depender da explicitação desse pequeno termo de ligação, pois o yap (pois) ao mesmo tempo mostra e encobre a relação entre partes desiguais.
-
O Ganze des Spruches (todo do dito) só pode ser alcançado seguindo passo a passo suas palavras, sem compor artificialmente o todo a partir de partes isoladas.
-
As duas sentenças possuem conteúdos diferentes, pois a primeira nomeia Entstehen (surgimento) e Vergehen (perecimento), enquanto a segunda nomeia o pagamento de pena e expiação, embora ambas falem do Selbe (mesmo).
-
Segundo as traduções de
Nietzsche e Diels, esse Selbe (mesmo) de que falam as duas sentenças seriam “as coisas”, mas precisamente aí se abre a pergunta decisiva pelo que
Anaximandro realmente diz.