GA76 Ameaça da Ciência

Leitgedanken zur Entstehung der Metaphysik, der neuzeitlichen Wissenschaft und der modernen Technik [2009]

* A Wissenschaft (ciência) moderna é colocada sobre liberdade plena, o que não significa arbitrariedade, mas depende do nexo interno das reflexões; a Voraussetzung (pressuposição) é algo provisório e ambíguo, talvez muito adiantado, e a suposta Bedrohung (ameaça) da Wissenschaft não se manifesta em sua má situação, mas justamente em seu nunca antes visto bom progresso, o que indica que ela não está mais na Wahrheit (verdade), mas apenas no Fortschritt (progresso).

* O caminho se afasta do Nutzen (utilidade) e do Erfolg (êxito) como únicos critérios de interpretação e valoração, em direção ao âmbito da Wahrheit e do Da-sein (ser-aí) e da oculta história metafísica, através de possibilidades profissionais para a co-preparação unitária de um destino.

* A Bedrohung (ameaça) da Wissenschaft não é a queixa daqueles que a veem em perigo porque o tranquilo funcionamento do que vinha sendo feito é perturbado, mas a ameaça mais aguda consiste em que a ciência moderna vai tão bem como nunca, sendo confirmada e encorajada em sua utilidade e produção de progresso, o que é o sinal de que ela mesma não está mais na verdade e renunciou ao saber essencial, apesar de todos os revestimentos “cosmovisivos”, que são apenas utilizações “disfarçadas” da ciência.

* O que está ameaçado pelo emaranhamento no método é, primeiro, o desligamento do ente, não do objeto, pois este é justamente determinado pelo método e pelo fomento do progresso; segundo, o desligamento do próprio pesquisador da relação de si mesmo com o ente; e terceiro, o desligamento como sufocamento das forças originárias, a partir das quais a Wissenschaft deve ser saber essencial e sempre preparar e sustentar, excluindo-se a si mesma da fundação da verdade essencial do Dasein (ser-aí), para a qual ela só pode ser essencial como unidade originária fechada, em uma certa correspondência com a Kunst (arte).

* Nenhuma Wissenschaft (ciência) pode saber de si mesma na forma de conhecimento por ela mesma executada, pois não se pode refletir sobre a Física com a ajuda do procedimento da Física, nem a essência da Matemática pode ser determinada matematicamente, nem a Geologia pode ser pesquisada geológicamente, mostrando-se aqui um limite interno da Wissenschaft: seu próprio método fracassa na reflexão sobre si mesma.

* A “Krisis (crise) da Wissenschaft” consiste justamente em que ela se considera segura com base em seus progressos, exigindo-se que “o falatório sobre a crise da ciência deve silenciar”; a reflexão sobre a Wissenschaft, sendo filosófica, e a Philosophie o saber essencialmente inútil, não permite esperar utilidade imediata para a respectiva ciência, mas esta reflexão inútil não é sem significado, na medida em que nos dá a entender quem nós mesmos somos e devemos ser como pesquisadores e homens científicos.

* Assim como dentro da Wissenschaft um pesquisador não pode agir com nada, também na busca pela reflexão sobre a Wissenschaft não se pode proceder arbitrariamente, porque a própria Wissenschaft, a que a reflexão se destina, é histórica, devendo também a reflexão sobre ela ter sua história e, com isso, as instruções de procedimento para nós; o decisivo é apenas onde se começa, se se alcança o ponto de partida suficientemente frutífero e essencial e, acima de tudo, se o mantém e o desdobra em sua potência interior.

* O Begriff (conceito) de Wissenschaft (ciência) implica a Darstellung (representação) ordenada de uma conexão de conhecimentos, e a Grundbestimmung (determinação fundamental) é o Sistemático, a ordem segundo Prinzipien (princípios), sendo que a ciência da natureza só é propriamente a racional, enquanto a histórica é apenas doutrina da natureza, não ciência.

* Gesetz (lei) é Regel (regra), e a regra é a condição representada para a possível posição uniforme (síntese) de um múltiplo; a lei, por sua vez, é uma regra necessária, que não admite exceção, sendo as representações de tais condições que pertencem necessariamente ao Dasein (existência) de uma coisa.

* A Besinnung (reflexão) sobre a Wissenschaft se dirige ao Begriff (conceito) de Natur (Natureza) como a existência das coisas segundo leis, o que exige Gesetzlichkeit (legalidade) e Tatsächlichkeit (facticidade), e ao Begriff (conceito) de exakte Wissenschaft (ciência exata) e Strenge (rigor), onde Exaktheit (exatidão) significa mensuração quântica espaço-temporal.

* O Erklären (explicar) nas ciências exatas remete a um “Bekanntes (conhecido)”, isto é, geral – a uma Regel (regra) na qual se expressa uma relação necessária entre fenômenos, e a ordem e a conexão incluem relações e a da sucessão – Kausalität (causalidade), onde tudo o que começa a ser pressupõe algo sobre o que segue segundo uma regra.

* A “Unbestimmtheitsrelation (relação de indeterminação)” afirma que o produto das duas imprecisões na determinação prática de lugar e velocidade do elétron, multiplicado pela massa do corpo a ser observado, é igual ao quantum de ação h, onde lugar e velocidade são conceitos de medida, sendo necessário perguntar se o lugar é determinável sem referência à medida e o que significa o direito e o privilégio da mensuração.

* A transição para a Frage der Transzendentalen (questão transcendental) mostra o limite interno da Wissenschaft, que é justamente o fundamento que a sustenta; a ciência da natureza visa, segundo a opinião comum, Tatsachen (fatos) e Gesetze (leis), mas o que é um fato e o que é uma lei, e qual é a conexão entre ambos e em que fundamento?

* A confusão do pensamento na ciência da natureza é exemplificada por Pascual Jordan, que exige como princípio para a reflexão epistemológica que toda proposição científica só possui conteúdo e sentido real na medida em que expressa relações e legalidades no material de nossa experiência experimental, o que significa que não há reflexão epistemológica, porque o “conhecimento” mesmo não é objeto de “nossa experiência”, sendo este “Positivismus (positivismo)” que nega toda possibilidade de conhecimento da essência e declara as observações e vivências experimentais como a única “Wirklichkeit (realidade)”.

* O Wesen (essência) da Tatsache (fato) é que algo está presente aqui e agora, lá e então, que algo se comporta de tal e tal maneira, sendo o “que” ele é, determinável pela comprovação na percepção sensorial imediata, que é um Experiment (experimento), repetível e verificável por todos; no entanto, o “que” do fato já visa uma Regel (regra) (o representado como condição de uma possível ordem) e, com isso, um âmbito de ordem.

* O outro, que pertence à Wissenschaft, não fora dela, mas que a sustenta e a determina, igualmente não questionado por ela, é nomeado de várias maneiras na ciência da natureza – definições, pressuposições, axiomas, hipóteses de trabalho, ideias, categorias, ideias-guia, imagens de pensamento, postulados –, mas a arbitrariedade da nomeação mostra que ele é reconhecido e imediatamente descartado, visando ao objeto e ao seu modo de tratamento.

* No prefácio dos “Metaphysische Anfangsgründe der Naturwissenschaft” (Fundamentos Metafísicos da Ciência da Natureza), o essencial é o retrocesso ao “a priori”, o puro “de antes”, que se mostra na experiência comum do que está presente; pergunta-se o que está aí – a Gegenständlichkeit (objetividade) do objeto – e aonde pertence e em que se funda o a priori, distinguindo-se, portanto, o “que” do a priori na experiência e a determinação essencial e a fundação do a priori e da experiência, ou seja, do homem (Da-sein).

* O método transcendental – transcendental – é metafísico, ou seja, princípios ontológicos do objeto, e a Philosophie (Filosofia) é o saber imediatamente inútil, mas senhorial; tanto a superestimação falsa – de que se pode tirar algo dele e usá-lo – quanto a subestimação falsa – de que é abstrato – são razões para a desconfiança e o desligamento.