167. Seyn — Vom Anfang
O Seyn afirma-se como sem-fundamento (grundlos) e por isso sem porquê, sendo em si mesmo puro Er-eignis, ao mesmo tempo em que, como abismo (Ab-grund), constitui o início de toda apropriação (Über-eignung) de cada ente em sua essência, movimento no qual vige o segredo íntimo de que tudo o que repousa em si abriga em si o estranho intocável e se converte em apelo que faz soar, desde o início, a raridade do pertencimento de si (Sichgehören).
168. Einleitung
Recusadas a mera descrição, o mero relato do passado e o planejamento voltado ao futuro imediato, abre-se a possibilidade de pensar e dizer o Seyn, ainda que a essa recusa (Absage) do ente e da pretensão de que este forneça sustento à representação e à opinião raramente se corresponda com entendimento, de modo que a experiência inicial se assemelha antes a um Nada do que ao próprio Seyn, pois:
169. Der Unterschied (Aufriß)
Esboça-se o tratamento da Diferença (Unterschied) segundo um roteiro organizado em sete blocos articulados:
170. Der Unterschied und das Nichts
O Nada inicial (das anfanghafte Nichts) mostra-se como a clareira (Lichtung) puramente concedente enquanto Ereignis da reviravolta (Kehre), nele vigendo a recusa (Verweigerung) como traço fundamental do abismo, de modo que a partir desse Nada e de seu nadificar (Nichten) — isto é, recusar, isto é, iniciar-se (Anfängnis) — determina-se o que há de negativo na diferença, sendo o Seyn essencialmente essa diferença enquanto despedida inicialmente velada e recusada.
171. Der Unterschied und das Ereignis
O ser jamais “advém” ao ente como predicado nem lhe é estado ou algo devido; ao contrário, na diferença é o ente que “advém” ao ser, vindo ao seu encontro ao emergir na clareira, de sorte que o ente ad-vém (ent-steht) ao Seyn, enquanto o próprio ser vige (istet) como Er-eignis e não é sempre, trazendo consigo, na clareira, o espaço-tempo e concedendo, assim, a possibilidade de que, a partir do ente, algo se determine segundo o quando; nesse sentido, permanência (Ständigkeit) e instante (Augenblick) já pertencem à apropriação da diferença e não servem para determinar o Ereignis.
172. Der Unterschied (die Unterscheidung und die Metaphysik)
A diferença, ao deixar o ente emergir e cindi-lo de si mesmo, constitui o fundamento de todas as cisões que tornam possível a singularidade de cada ente, possibilitando algo distinto da “distinção” comum que caracteriza o pensar como representação, de modo que:
173. Der Unterschied (zum Wortgebrauch)
Distingue-se a distinção (Unterscheidung) do ente e do ser enquanto fundamento, da diferença (Unterschied) do ser — em genitivo subjetivo — para com o ente, sendo o Seyn a própria diferença que vige como despedida, cuja superação (Verwindung) consiste em conduzi-la à despedida, e o pensar do Seyn constitui a consumação (Austrag) da distinção, ao passo que o termo “a distinção” mostra-se ambíguo:
174. Der Unterschied und das “Seinsverständnis”
Quando a diferença entre ser e ente é tomada a partir da distinção representacionalmente entendida, e o ente é considerado o real percebido sensivelmente, o ser aparece de imediato como irreal, atribuído — por não ser inteiramente um nada — a um ens rationis relegado ao “mero” pensar como objeto, tornando-se um “conceito” do irreal, cuja relação com o real permanece incompreendida e é entregue “à filosofia”; nessa mesma via, o entendimento (Seinsverständnis) explicado a partir dessa opinião corrente converte o ser em objeto do intelecto, algo meramente “subjetivo” — explicação que pode ainda ser aproximada do idealismo kantiano, já que as categorias são conceitos do entendimento e toda objetividade é o apriori “subjetivo” dos objetos —, ao passo que “entendimento” é, antes, projeto (Entwurf), e projetar é estar lançado e admitido na clareira do Seyn a partir do próprio Seyn. A distinção, como essenciação do próprio Seyn que se autodiferencia e assim deixa o ente emergir no advento, é inicialmente a diferença, permanecendo velada no primeiro início e ocultando-se e mascarando-se, no avanço até a metafísica, sob o domínio da lógica e da ontologia e de sua “verdade”, vindo à luz pela primeira vez, enquanto tal, na “diferença ontológica” de Sein und Zeit, na medida em que esta é pensada a partir da experiência da verdade do ser.
175. Die Unterscheidung
A distinção entre ser e ente, quando se pensa referir-se a dois “objetos” pressupostos distinguidos por uma terceira instância — talvez uma consciência representadora que precisaria assumir alguma “perspectiva” —, é frequentemente tida como produto vazio de uma abstração improdutiva, sem lugar nem fundamento próprios, a não ser que se lhe atribua um fazer vazio do entendimento humano; contudo, é o próprio ser que se distingue do ente, sendo ele mesmo o distinguidor e “sendo” a diferença, de modo que não somos nós que realizamos primeiro a distinção, mas a seguimos, sendo esse seguir o que primeiro nos dá o entendimento — poder seguir supõe já demorar-se dentro dessa distinção, que constitui o lugar, ainda velado, da própria essência humana, restando em aberto como se dá esse autodistinguir-se do ser, sem que baste concebê-lo como intelecto geral ou razão universal, já que só se pode “pensar” o distinguir como atividade do entendimento enquanto ainda se permanece em certo horizonte — o do homem metafísico — que se contempla a si mesmo e explica o ente como o fabricado.
176. Die Unterscheidung und der Unterschied
Sem que se tenha experimentado a verdade do Seyn como Ereignis, a diferença — e com ela a distinção — permanece inacessível ao saber, causando estranhamento a afirmação de que o próprio “ser” se distingue, já que o ser é tomado como conceito vazio e produto do distinguir, sendo este último considerado obra nossa; a diferença em que a distinção essencia constitui a despedida enquanto declínio do Ereignis rumo ao início, e nela ressoa o eco da superação que se dá inicialmente como consonância, de modo que pensar o Seyn significa suster-se questionando a distinção e experimentar essa distinção como a diversidade inicial da despedida — a dor como essência da diferença. A palavra “distinção” chama atenção para aquilo que subjaz a toda metafísica, na medida em que esta pensa o ente enquanto ente, isto é, a entidade (Seiendheit) do ente, vigendo previamente, de modo despercebido, não questionado e infundado, a distinção entre ente e ser:
177. Nichtung und Nein-Sagen
O dizer-não constitui, antes de tudo, um reconhecimento do real e um apego a ele, incidindo justamente sobre o suposto real e revelando, assim, sua dependência deste, de modo que nele se percebe apenas o negado enquanto tal e se ouve a negação como recusa, dando a impressão de que, com o próprio ato de negar, já se cumpriu o essencial e o afirmável estaria com isso justificado; diversa da negação (Verneinung) é a nadificação (Nichtung), entendida como a retenção explícita da instância primeira dentro do Dasein, que se expõe ao que lhe é estranho, configurando-se como uma forma humana de rigor no esforço de reter um primeiro apropriado.
178. Das Nichts
Tomado como “negação” do ser, o Nada revela-se, dessa forma, dependente, referido, submetido e relativo ao ser, do que se concluiria não existir um Nada absoluto; tal conclusão, porém, é precipitada, não apenas por reduzir o Nada à “negação”, mas por não considerar que o Nada poderia “ser” tão originário quanto o ser, de modo que, se este é “absoluto” — questão ainda a decidir —, não há razão para que também e justamente o Nada não possa ser absoluto.