2. Ressonância

A. O ANKLANG (RESSOAR)

Durchblick (Vislumbre)

104. O Anklang do início (Anklang des Anfangs) anuncia-se velado em sua anfängnis (concepção inicial), antecipando os temas centrais: a modernidade e o Ocidente, a modernidade como zwischenfall (interlúdio) da metafísica, a consumação da metafísica e o vorbeigang (passar ao largo), a relação do interlúdio com o primeiro e o outro início, o abandono do ser (Seinsverlassenheit) e a ausência de ser (Seinlosigkeit), e o abandono do ser articulado com a devastação (Verwüstung), desdobrada em esvaziamento (Aushöhlung) e na servidão do aniquilar e do perecer.

105. O Anklang constitui o primeiro e mais próximo mostrar do outro início, evidenciando a passagem do primeiro ao segundo início e apontando a metafísica como o interlúdio (Zwischenfall) do domínio do ente sobre sua verdade.

106. O Anklang do trânsito da história para seu ser mais inicial diz respeito ao Geschicht (destinação) em que a verdade do ser vige no ser da verdade, deixando essa reviravolta (Kehre) começar como acontecimento apropriador (Ereignung) da consumação na clareira do Da-seyn; a história não passa apenas a outra época dentro do tempo-espaço até então vigente da metafísica, mas o próprio tempo-espaço se torna outro ao se clarear em seu ser como Da-sein.

107. A história do ser (Geschichte des Seyns) não conhece sucessão, pois sua articulação permanece inicial e volta sempre ao início, de modo que a historiografia (Historie), presa ao explicar, jamais alcança pensar o inicial.

108. No Anklang deve preparar-se um esclarecimento sobre o que se costuma chamar de ente, sua amplitude e a maneira como nele vige uma entidade (Seiendheit), a partir de cinco teses de recusa (Abwehr):

109. O primeiro Anklang é o Anklang do vorbeigang (passar ao largo): como Anklang “do” ser, é o Anklang da história do ser, articulação no acoplamento do início, dizendo respeito tanto ao Seyn (a articulação do ser) quanto ao homem, entendido como a humanidade historicamente ocidental.

110. O Anklang do Abschied (despedida) do acontecimento apropriador (Er-eignis) manifesta-se na palavra da saga do desenlace (Austrag), chegando como um vozear silencioso ainda indeterminado na época confusa, de modo que se atenta ao ente e ao ser sem ainda perceber que é a verdade no ser (Seyn) que chega, permanecendo esse advento o inaparente e o negligenciado no Anklang mais próximo, cujo brilho enigmático só se revela quando diminui o ofuscamento enraizado no esquecimento do ser; alcançar todo ente não faz surgir o rastro do ser, e reordenar todo ente jamais encontra o lugar livre no qual se dá a irrupção (Ein-fall) do ser.

B. OS SINAIS DA TRANSIÇÃO

O Vorbeigang (Passar ao Largo) / O Ínterim da História do Ser

111. Os sinais do ser (Zeichen des Seins) na época da consumação da metafísica permanecem, mesmo sob o domínio da vontade de vontade e o esquecimento do ser, na proximidade essencial resguardada na clareira de sua relação com o ser humano, manifestando-se veladamente sob a forma de sinais.

112. A errância (Irre) do astro errante (Irrstern), como o ínterim do vorbeigang, exprime-se em uma série de traços correlatos: a ausência incondicional de deus, a ordenação sem limites (técnica-história), a vontade à falta de meta, a vontade de vontade, a rejeição inadvertida da essência da verdade, a devastação e, precisamente por isso, a pura ausência de necessidade, o esquecimento da errância, a instauração do meio ambiente e o homem como satélite da devastação e “garante” da ausência de verdade.

113. A essência da verdade no vorbeigang opõe a certeza como segurança da objetivação incondicional do ordenar à circunspecção da guarda da dignidade do ser (Seyn), contrapondo o calcular no sem-meta ao desenlace (Austrag) da diferença na despedida do que é fadado ao ocaso.

114. O incontornável (Das Unabwendbare) diz respeito ao ser, na medida em que a exploração do ente sob o domínio da metafísica busca, sem saber, afastar o ser incognoscível em sua verdade.

115. A consumação da metafísica (Verendung) e a transição não formam uma sucessão, pois o início se dá inicialmente e essa ocorrência já é a superação da metafísica, idêntica à própria transição, de modo que a consumação e a transição passam uma ao largo da outra; a superação abismal consiste no abandono do que deve ser superado ao fanatismo de seu desmando, no qual é tragado, o que não constitui algo “negativo”, mas pertence à expropriação que distingue toda a metafísica desde o início.

116. O vorbeigang é o lugar em que dois cursos históricos, a consumação e o declínio, passam um ao largo do outro, questionando-se quem enxerga essa constelação e onde se situam os que veem e experimentam, sendo a consumação apenas a sombra de nuvem do ser, dotada de sua própria necessidade.

117. A época do pensar histórico-do-ser (seynsgeschichtliches Denken) corresponde ao passar-ao-largo entre o abandono do ser do ente e a consumação do ser rumo ao início, cujo tempo-espaço (Zeit-Raum), como acontecimento histórico-do-ser, se dá no acontecimento apropriador do início.

118. O vorbeigang do astro sem estrela (Unstern, o desmando da consumação maquinacional) e do astro precursor (Vorstern, o declínio na concepção inicial do acoplamento no acontecimento apropriador) experimenta-se no astro errante da Terra, que carrega errante, entre a devastação planetária e o velamento do início, o ínterim que é o abismo.

119. O vorbeigang do início do desdobramento essencial da modernidade, cujos três séculos anteriores foram apenas preparação transitória, coincide com o início do Ocidente, sendo o vorbeigang a articulação (Fuge) da transição.

120. O Anklang entre vorbeigang e zwischenfall revela, na época da consumação da metafísica, a aparência de esgotamento, pois o criar é extraído como princípio próprio da vontade de vontade e submetido ao planejamento; visto que nada do criar pode se opor à vontade de vontade como ser do ente, e o criador nunca alcançou o essencial do ser, o esgotamento é sentido como ameaça oculta e reforça ainda mais a afirmação da vontade de vontade, o que faz a duração de seu domínio condicionar o vorbeigang entre a devastação e a consumação, ambas sem “saber” uma da outra.

121. A superação da metafísica (Überwindung), embora ocorra historicamente na consumação, exige do homem histórico, mesmo sem poder iniciá-la ou realizá-la, permanência instante (Inständigkeit) nessa superação, já que ele não é indiferente a ela.

C. A MODERNIDADE E O OCIDENTE

122. A consumação da metafísica e a transição para o outro início não requerem uma “viravolta” no sentido de retorno, nem mesmo ao primeiro início, pois este só pode advir do próprio âmbito inicial, o que só é possível no outro início; nessa transição, o primeiro início só aparece em sua concepção primeira (Anfängnis).

123. A ausência de deus (Gott-losigkeit) experimentada historicamente-do-ser, associada a Hölderlin como destino do pensar histórico-do-ser, não corresponde à mera perda do deus cristão, ainda invocado sob formas irreconhecíveis, mas nasce da fuga diante da necessidade da ausência de necessidade (Notlosigkeit) provocada pelo abandono do ser.

124. A consumação da modernidade coincide com a época da consumação da metafísica, manifestando-se historicamente-do-ser em três direções unificadas: o domínio da visão de mundo (imagem de mundo, ordem, valores), a técnica (planejamento da calculação) e a historiografia (calculação do planejamento), todas confluindo na vontade de vontade, cujo “objetivo” de ordenar as ordens é continuamente frustrado pela própria fixação de metas, forçando a vontade a voltar-se sobre si mesma; nisso se dá a expropriação total do ente em relação ao ser, que fica esquecido e substituído pelo ente.

125. O vorbeigang, sob o signo da vontade de vontade, revela-se no cálculo incessante da técnica que faz do homem “a mais importante matéria-prima”, exigindo que esse processo seja acompanhado com a frieza própria do saber, sem esquecer que algo diferente já começou a se anunciar sem lugar possível no mundo até então vigente, situando-se todos na constelação do vorbeigang do astro errante junto à Terra, marcada pelo esvaziamento e pela devastação, funções do puro aniquilar e perecer.

126. A época do pensar histórico-do-ser (Zeit des seynsgeschichtlichen Denkens) constitui o vorbeigang mesmo, definido pela experiência de que o abandono extremo do ser, como domínio da vontade de vontade, passa ao largo do Anklang da consumação do ser rumo ao outro início, sendo essa a constelação suprema entre abandono e consumação do ser, em cujo tempo-espaço se dá a história do início do Ocidente próprio.

127. A vontade de vontade, no âmbito do Ocidente, encontra seu maior perigo no fato de os alemães sucumbirem ao espírito da modernidade ao emprestarem-lhe, com sua capacidade irrestrita de ordenar, sua incondicionalidade mais vazia, sem que esse “espírito” enquanto vontade de vontade se altere sequer minimamente; ao querer não mais saber de sua essência e destino sob a aparência de combate legítimo contra o intelecto, e ao converter o não-mais-querer-saber em traço fundamental do comportamento autêntico, forja-se o perigo de negar todo perigo real; a vontade de vontade necessita da antropologia, pois é ela que prende o homem ao humano, servindo de submissão a esse evento metafísico.

128. A errância da maquinação (Machenschaft), enquanto vontade de vontade, empenha-se na instauração da segurança incondicional em ordenamentos, supondo que só depois se poderia edificar sobre ela o restante (cultura, espírito ou seus opostos); seu fatalismo não está em jamais alcançar essa meta, mas em avaliar equivocadamente a própria essência da verdade, supondo poder primeiro explorar o ente para depois introduzir o ser, instaurando assim o esquecimento extremo do ser mesmo enquanto finge ainda perseguir seu acesso.

129. A essência da “modernidade” (Neuzeit) consiste no apego incondicional ao novo enquanto novo, medido pelo próprio homem que a si mesmo se calcula; não é simplesmente a “era nova” sucedendo uma antiga por juízo de um observador, mas inaugura, em seu começo de consumação, a nova-ordem; a técnica, entendida metafisicamente, é o fundamento essencial, a forma de execução e a meta da modernidade, que, ao penetrar mais fundo em seu ser mais próprio, tende a rejeitar e fazer esquecer o ocidental.

130. A modernidade e o Ocidente relacionam-se pela espera do entardecer como declínio em que vige a concepção do início, constituindo um vínculo com o que vem, mas esse vir é o iniciar, não voltado ao “novo” como inovação, e sim ao “antigo”, desde que este não seja confundido com o anterior já passado e conservado.

131. O “Ocidente” (Abendland), histórico-do-ser, nada tem a ver com o conceito moderno de “Europa”: o europeu é forma prévia do planetário, e a nova ordem da Europa antecipa o domínio planetário, que não pode mais ser imperialismo pois os imperadores são impossíveis no âmbito essencial da maquinação; o europeu e o planetário são fim e consumação, ao passo que o Ocidente é o início, sendo ambos incapazes de se reconhecerem, de modo que a Europa pertence continentalmente à Ásia, formando com a Rússia e o Japão a Eurásia.

132. O “Ocidente” histórico-do-ser é a terra do entardecer que prepara a noite da qual há de acontecer o dia do início mais inicial, enquanto “Europa” é conceito histórico-técnico e planetário que reúne ocidente e oriente sob a determinação da consumação do ser moderno, dominando tanto o hemisfério ocidental (América) quanto o bolchevismo russo, sendo Europa o nome da consumação da devastação incondicional que efetiva o declínio do Ocidente.

133. O abandono do ser e o Ocidente estão em correspondência recíproca entre o perigo da temeridade obstinada e o da fuga precipitada, ambas conduzindo ao ente como refúgio; diversamente da época do abandono do ser é a época do desamparo apenas pressentido, em que já se inicia a transição pela lembrança do que foi e pela advertência ao que vige, ainda desconhecida, da verdade do ser.

134. O Ocidente exige não apenas outra contagem do tempo, mas uma mudança no vínculo com a história, irredutível a qualquer alteração de concepções historiográficas do passado ou instauração de novo presente.

135. O Ocidente (Abendland), pensado historicamente-do-ser, não deriva do “Oriente” pretérito nem constitui simples “ocidente do oriente” ou “fruto de Hespéria”, mas o entardecer determinado a partir de uma manhã e um dia por vir, e não pelo passado; a terra do entardecer é a pré-época da noite, mãe do dia do início mais inicial, e o Ocidente, assim experimentado, não é “o ocidental”, “o cristão-romano”, “o europeu” nem “o moderno”.

136. A história mundial (Welt-Geschichte) só pode ser experimentada e pensada historicamente-do-ser a partir da essência do “mundo”, pois, do contrário, “mundo” equivale a terra, cosmos, natureza ou história universal, conceito derivado da historiografia (Historie), que a modernidade mais recente estende ao planetário, transformando tudo em item de cálculo em seu lugar histórico.

137. A certeza, a segurança, a instauração, o cálculo e a ordem constituem, em conjunto, a renúncia à questionabilidade e à decisão essencial, pois ordenar pressupõe o efetivo como dado e traz consigo o modo mais ou menos seguro de ordenar.

138. A devastação (Verwüstung) consiste na instauração incondicional da maquinação e no adestramento da humanidade para ela, erguendo o abandono do ser em sua forma inapreensível.

139. A concepção inicial do início (Anfängnis des Anfangs) e o ser mantêm-se de tal modo que, na verdade da humanidade histórica e em sua palavra, o Seyn vige mesmo depois de o ser ter sido superado e o Seyn, consumado; a distância entre concepção inicial e Da-sein é acontecida como proximidade abissal, não como abandono do ser do ente, mas como entrega do ente ao ser inicial.

D. A METAFÍSICA — O INTERLÚDIO ENTRE O PRIMEIRO E O OUTRO INÍCIO — A TRANSIÇÃO (SEUS SINAIS)

140. A metafísica constitui, historicamente-do-ser, o interlúdio (Zwischenfall) do domínio do ente diante do ser, na medida em que o ser se abandona à entidade do ente e se entrega ao abandono do ser, preparando assim a ausência de ser (Seinlosigkeit) e a possibilidade do outro início, sendo essa ausência de ser, na consumação da metafísica, essencialmente distinta daquela que precedeu o primeiro início; o interlúdio é a história do vigorar do ser como ideia, energeia, actus, perceptio, efetividade e representação, reunidos na vontade de vontade, situando-se entre os dois começos e trazendo, por meio dele, a concepção inicial do início ao primeiro Anklang.

141. A “metafísica” exige distinguir quatro planos: seu ser essencial acontecido historicamente-do-ser como o interlúdio entre os dois começos; o “pensar” que nela permanece, correspondendo, em sua consumação, à antropologia sob o predomínio incondicional da “técnica”; o pensar metafísico “sobre” a metafísica; e a discussão histórico-do-ser do pensar inicial, na qual as distinções anteriores emergem e a metafísica é experimentada em sua necessidade.

142. O início e o prosseguimento (Fortgang) opõem unicidade e dispersão, multiplicidade e calculação, sendo o soterramento do início o surgimento do cálculo, quando o logos se converte em ratio, razão e “ordem”.

143. A metafísica e o ser mantêm relação essencial, pois a metafísica só é metafísica, ou seja, verdade do ente enquanto tal, porque vige a partir do Seyn, já que também a entidade permanece do ser do Seyn; por isso, mesmo na metafísica, quando se torna mais experiente, ainda se ouvem ecos do início, embora reinterpretados como o repousante-em-si, o absoluto, o incondicionado, a “origem” e o princípio, impedindo que se pergunte de outro modo pelo início; mesmo no esquecimento do ser próprio da metafísica ainda vige a essência primeiro-inicial do ser.

144. O desmando (Unwesen) pertence ao Seyn a partir do ser como início, não como o “negativo” nem como aniquilação vigente no acontecimento apropriador no sentido de suspensão prévia no absoluto, como em Hegel, onde a negatividade permanece mera aparência incapaz de constituir seriedade de disposição.

145. A metafísica costuma ser julgada segundo “lógica”, “sistemática” ou “aforística”, relegando à “arte” e à “poesia” ou à confusão e ao arbítrio o que não se encaixa nessas medidas, sem jamais indagar se a medida do pensar não provém daquilo que há de ser pensado — o Seyn, dizível apenas na dor da experiência do acontecimento apropriador.

146. A consumação da metafísica na vontade de vontade tem como estágio prévio a “vontade de poder”; a vontade de vontade é a vontade que quer a si mesma, cujo querer consiste em trazer-se-diante-de-si o representável, isto é, o conjunto dos objetos, o ente dentro da verdade da certeza.

147. “Essência” e “ser” na metafísica são pensados como essentia convertida em quidditas, isto é, a ousia como entidade, privilegiando o “quê” (τί) em detrimento do “que” (ὅτι), sendo este último, na verdade, apenas imobilizado sob o predomínio da ideia, enquanto a “existentia” nomeia algo inevitável, porém não cognoscível.

148. O fim da metafísica e a “imagem de mundo” (Weltbild) percorrem, historicamente, dois milênios, mas, experimentados como história da verdade do ente, constituem o caminho da “alegoria da caverna” até a “imagem de mundo”, em que o mundo se torna plano de auto-instauração, sendo a caverna a mundo iluminada agora pela luz do planejamento, e as “ideias” meros valores, formas vazias a serviço da planificação ilimitada; embora o vínculo com a caverna platônica não seja mais imediatamente reconhecível, trata-se do mesmo mundo, já que a diferença entre mundo suprassensível e sensível foi suprimida em prol da pura instauração calculada.

149. A consumação da metafísica percorre sete momentos: o desdobramento da subjetividade incondicional (o espírito); a inversão dessa subjetividade; o nivelamento na subjetividade plena (desdobrada e invertida) como efetividade-maquinação; a maquinação como abandono do ser historicamente-do-ser; o abandono do ser como recusa (Versagung) inicial da verdade do Seyn; essa recusa como prenúncio do declínio, presente sempre desde antes no início; e o caráter fadado ao declínio da saga como silêncio calado da graça protetora (hütende Anmut).

150. A permanência instante no início requer duas viravoltas unificadas na transição para o outro início: do ser-homem (e da “antropologia”) ao Da-sein, e da entidade (e da metafísica) ao Seyn, viravolta que jamais se reduz a mudança de “postura”, mas consiste em voltar-se para outra essência, correspondendo à orientação da relação do Seyn com o homem.

151. O “ser” (Sein) deve ser sempre pensado a partir da diferença com o nada, de modo que o nada e a própria diferença se compreendam a partir da essência do ser, servindo esse pensamento apenas para questionar o fundamento da essência do ser como verdade do Seyn; nem a dialética hegeliana, presa à metafísica, nem seu conceito de ser bastam para essa pergunta, sendo o ser, como diferença do nada, mais originário que todo devir, sem que “ser” precise significar, como pretendeu a tradição de Platão a Nietzsche, a “quietude” da rigidez.

152. A “ordem” e o esquecimento do ser correspondem, na fase consumada da verdade metafísica, à certeza como segurança da garantia do ente, previamente determinado como objeto; esse pensar de ordenamento planeja partições setoriais dentro das quais tudo deve ser controlável para uma disposição que ajusta cada elemento a qualquer utilização a serviço da vontade de vontade, sendo esse ordenar das ordens a “nova-ordem” própria da modernidade, cuja pressuposta finalidade nenhuma corresponde à ausência incondicional de meta e ao esquecimento incondicional do ser, convertendo o mundo em “imagem” no sentido de plano dominável.

153. O fim da metafísica e a reflexão apontam para o caminho do pensar do Seyn: nesse fim, a verdade como garantia do disponível é elevada ao ápice da consciência, incorporando “raça”, “caráter”, “instinto” e “ação” como meios a serviço do armamento e da ordem, submetidos a “legislações”; ao mesmo tempo, surge a necessidade, para a transição, não da “reflexão” em si, mas de sua verdade essencial: o próprio questionar pensante como vigência da verdade do Seyn, em lugar de opor-lhe apenas o “inconsciente” ou o “orgânico”.

154. Os últimos resquícios da “filosofia” em consumação, na época da consumação da metafísica, contorcem-se ainda nas formas da “ontologia” e da “antropologia”, sendo equivocadamente atribuída a “Ser e Tempo” a condição de “ontologia” insuficiente ou “antropologia” unilateral, quando, na verdade, a “ontologia fundamental” significa ir ao fundamento da ontologia e, com isso, afastar-se da antropologia.

155. No esquecimento do ser (Seinsvergessenheit), o homem é, ao mesmo tempo, o esquecido e o esquecediço, pois não apenas deixa de pensar o ser, como se torna incapaz de meditar sobre sua verdade, permanecendo entregue ao predomínio (Vormacht) do ente, que implica que o ente seja o poderoso e o ser, a vontade de poder — sendo esta a última dissimulação da vontade de vontade, na qual efetividade e objetividade se encontram em seu fundamento.

156. O ser como maquinação (Ge-Stell) perde não apenas todo equilíbrio, mas o próprio peso, tornando-se ausência de peso completa como distinção da incondicionalidade do poder; o nada, aqui, não é decorrência do niilismo, mas o inverso: a vontade de poder tem em sua própria incondicionalidade a causa do niilismo, ao qual, no entanto, permanece indiferente.

157. O ser como o não-sensível constitui apenas uma marca de sentido meramente abwehr (defensiva) e metafísica, referindo o ser ao seu apreender e representar correspondentes: o ente não pode ser buscado como fonte do ser, tampouco jamais é algo “sensível”, sendo essa marca apenas um aceno para o que nos é mais próximo por permanecer o mais alto e o mais distante — semelhante a uma montanha distante que, paradoxalmente, nos é mais próxima que o palpável e o apreendido.

158. Kant, Schelling e Hegel permanecem presos à metafísica, na medida em que jamais colocam propriamente a questão do ser, limitando-se, no máximo, à distinção entre fenômenos e noumena; a diferenciação carece de fundamento porque seu próprio fundamento é sem-fundo, e o que se pergunta não é pela verdade do ser, mas apenas pelo ser do ente enquanto objetividade da experiência — situação ainda mais radical em Hegel e Schelling.

159. A verdade como certeza (Gewißheit) implica ser demonstrável na intuição e válida para todos, razão pela qual o “verdadeiro” do conhecimento é tomado apenas como “aparição”; o conceito kantiano de conhecimento como “aparição” decorre da concepção da verdade como certeza, restando questionar se essa é, de fato, a essência da verdade e a partir de que critério se decide sobre ela.

160. A “vida” biológica em Nietzsche transforma-se, onde o ente é a efetividade e a efetividade é “vontade de poder”, em pulsão (Drang) que apenas anseia pela pressão que a supera, medindo-se tudo pela quantidade de pressão gerada; a arte torna-se, assim, “estímulo” da vida, e todo vivo é avaliado apenas pela sua aptidão a ser adestrado nessa pulsão, resultando um mundo sem mundo e desprezado pela terra.

161. A verdade oculta da metafísica não pode ser compreendida metafisicamente, mas apenas a partir do pensar inicial, sendo somente à luz desse pensar que se torna possível esclarecer o que efetivamente reside na metafísica.

162. A consumação da metafísica reduz a grande batalha em torno da ousia (γιγαντομαχία περὶ τῆς οὐσίας) à disputa entre os anões da “ontologia” e os esbirros da “antropologia”, indicando que, quando o pensar se converte em erudição e se nutre dos resultados das ciências, alcança seu desmando mais vazio, perceptível até pelos irrefletidos.

163. A saga (Die Sage) articula-se em diferentes modos de atenção: ao ser (início), ao ente (entidade, na ausência de início), à história como destino e início, e à história como mero acontecer (Geschehen), sendo a “técnica” a verdade fundamental dessa história entendida apenas como acontecer.

E. A VONTADE DE VONTADE

164. “O ser” na metafísica prossegue historicamente-do-ser em seu desmando, sendo esse prosseguimento determinado, a partir do desprendimento (Entwindung), como um abandono do ser ao sem-verdade; a efetividade (actualitas do actus purus) transita para a essência da vis, isto é, do representar voltado ao esforço, ou seja, da vontade, que permanece velada como vontade de vontade e aparece primeiro como razão, espírito, vontade de amor, negação da vontade, até revelar-se, por fim, vontade de poder.

165. A vontade de vontade, segundo o exemplo de Spengler, constitui a essência extrema da entidade dentro da história da metafísica, plenamente experimentável somente após ocorrida a transição para o outro início, embora já se manifeste mediante desdobramentos parciais da metafísica de Nietzsche, dos quais se destacam O Declínio do Ocidente de Spengler e O Trabalhador, além do ensaio Sobre a Dor, de Ernst Jünger.

166. A vontade de vontade constitui a consumação incondicional própria da “vontade de poder”, ainda presa ao “operar” não compreendido, pois a efetividade do efetivo ainda não retornou à essência pura da subjetividade; o eu-penso equivale ao eu-quero, já que o eu-penso, enquanto eu-vinculo, consiste no pôr-se-diante-de-si — a garantia, o querer-a-si-mesmo —, correspondendo tudo isso à época da irreflexão incondicional.