1.B. Doxa

45. A passagem da aletheia-physis para a ideia sobre a doxa não opõe verdade e falsidade, mas desvelamento (Unverborgenheit) e aparecer, presença no aspecto exterior (Aussehen), residindo no desvelamento enquanto emergência o próprio aparecer, a presença do aspecto exterior, o que sugere permanecer na aceitação do mais próximo naquilo que aparece, vagando por toda essa multiplicidade e apreendendo-a de modo individuado, preservando-a por meio da téchne-logos.

46. A doxa (δóξα) designa o brilho, o luzir, o resplendor, aquilo que emerge de si mesmo e ainda assim permanece consigo, irradiando-se continuamente sem nada entregar ou perder, luzindo não apenas para fora de si numa emergência, mas também acenando de volta para algo escuro, velado, inacessível, sendo o brilho o resplendor do auto-velamento.

47. Os “aparentes” (τὰ δοκοντα) remetem à doxa enquanto entidade “dos” entes, os entes mesmos em seu aparecer como si mesmos, sendo o ente (τò ἐóν) na sua entidade algo “outro” que só é outro na relação aos entes em si mesmos.

48. A proveniência da doxa remonta ao primeiro início, pois nele o seer e a verdade permanecem infundados no fundamento abissal, o seer não ocorre inceptualmente no modo da transição, e o que é primeiro no início é a emergência, de modo que o próprio ser entrega-se ao aparecer (δοκεν), os entes (ta dokounta) são percebidos conforme isso, e assim uma doxa se contrapõe às outras e toda sua multiplicidade se opõe ao hen do puro parecer mesmo, ocasionando a doxa o avanço rumo à ideia.

49. A doxa, entendida como parecer (δοκίμως) que é intrinsecamente um auto-mostrar-se (aletheia-physis), constitui-se também, tomada a partir da coisa que se mostra, como semblante, característica presente em todos os entes tomados por si mesmos: primeiro, como entes, são presentes; segundo, como presentes, aparentam ser meramente eles mesmos e quase o próprio ser, de modo que tudo que emerge entra necessariamente na essência da doxa, a qual não é simples falsidade mas a verdade cotidiana, a verdade mais próxima e necessária.

50. Em Parmênides, as duas opiniões (δύο γνώμαι) constituem, cada uma, aspectos diversos sem o tautón-aletheia, formando sempre apenas entes contrapostos uns aos outros e, assim, sempre outros — alteração; ao dizer-se “nenhum ser sem parecer”, o ser designa emergência, desvelamento, auto-mostrar-se, e apenas esse parecer (brilhar) confere a possibilidade do semblante, sendo ser e parecer aqui equivalentes.

51. A distinção entre aletheia e doxa reside em que a aletheia, como desvelamento, é a essencialização do ser enquanto presença, enquanto a doxa, essência do ta dokounta, é a presença no mais próximo a partir dos entes, distinguindo-se aqui o puro noein — idêntico ao einai — do noûs humano, vacilante e maleável, não se discutindo o conteúdo da doxa mas sua essência, determinada como modo necessário de presença pertencente à aletheia.

52. O que aparece e vem à presença, tomado precisamente como tal — isto é, apenas como se apresenta ao humano e à sua apreensão e determinação usuais —, designado como eoikóta, não constitui mero parecer, mas um vir-à-presença que, no entanto, ocorre como se essencialmente se desse sem presença, dispersando-se na percepção errante dos mortais.

53. O vir-a-ser e o perecer (Parmênides 8,12; 8,27) não constituem determinações autônomas nem fundamentos essenciais da presença liberados por si mesmos, mas, ao contrário, são retidos pela articulação na essência da presença, sendo, na presença, o vir-a-ser um crescer e o perecer o vir-à-presença da doxa como minguar.