1.3 Passagem

13. A consumação da metafísica em Nietzsche não constitui apenas um fim, isto é, a necessidade de um outro início, mas essa mesma necessidade exige que a metafísica, mesmo em sua consumação — e isso significa a verdade dos entes na totalidade —, torne-se ao mesmo tempo essencial e force decisões, ainda que de modo inteiramente velado, sendo justamente isso o que o fim desta época compreende com maior dificuldade, ao aferrar-se, de um lado, a uma rejeição da metafísica pelo positivismo, e, de outro, tornando tão estranha a afirmação da metafísica que ela se torna aterradora.

14. A terra e o mundo não são setores recortados dos entes na totalidade, nem os entes se distribuem entre esses dois setores, mas a terra é essenciar (Wesung) dos entes na totalidade e o mundo é essenciar dos entes na totalidade, pertencendo ambos ao ser dos entes na totalidade, razão pela qual há entre eles a disputa (Streit) que jamais podemos pensar caso representemos a nós mesmos um conflito ou uma contestação.

15. A disputa é pela supremacia, e esta consiste em fazer essenciar o ser, sendo apenas na disputa que aquilo que se avulta é vinculado à supremacia e trazido ao que lhe é próprio: tudo é terra, tudo é mundo, e nem uma nem outra é a essência, sendo ambas o essenciar — supremacia a partir do evento.

16. A relação-de-mundo (Weltbezug), admitida na “terra” tanto por pertencer ao ser quanto por contrapor-se a ele, articula-se com a terra e a vida — aquilo que ama — como o impulso terreno obscurecedor e que se ultrapassa a si mesmo em elevação, enquanto disputa voltada ao mundo.

17. O momento histórico interroga-se pelo que rege — o poder como ditadura —, pelo lugar do “evento” e da “força” para a superação, por um sinal que já apontasse o caminho, e pelo sentido dessa superação do “poder”, que talvez não seja senão a declaração da im-potência diante da atualidade do atual.

18. A soberania sobre a essência do poder e a aniquilação da maquinação pelo evento de apropriação exigem repensar por que a “soberania” continua a dar a medida mesmo aqui, sendo sua origem a própria distinção entre ser e entes, situada no próprio ser.

19. O que é isso — o ser-lançado na clareira? — é a história, e o que se apropria e é apropriado ao permanecer no aberto é a insistência perseverante orientada para um porvir, a partir do ser enquanto ser, o intermédio, o prevalecer da essência da verdade — a história — e a distinção.

20. O ser jamais é “causa” dos entes, no sentido de algo que produz efeito, o que sempre teria de ser da natureza de um ente, sendo o “efeito”, no sentido de trazer à frente e deixar vir à frente, tomado do âmbito dos entes; para a relação entre ser e entes não há correspondência em domínio algum, sendo essa relação singular e única, e a unidade do que é assim “distinguido” a própria verdade “do” ser, na qual os entes, a cada vez, prevalecem em sua “essência” enquanto revelados.

21. O início, que rege sobre tudo o que há de vir, só é enquanto inicia, isto é, o início é o Mesmo e, a cada vez, ele mesmo apenas enquanto retorna a si mesmo, preservando em si o que projeta adiante, a verdade do ser, resguardando-se contra toda reversão, de modo que uma relação com o início só é possível quando este é reposto no que lhe é próprio, naquela preservação protetora da essência da φύσις, sendo respeitado em sua singularidade.

22. A necessidade singular consiste em romper a história mediante o salto na superação da metafísica, ajudando com isso a erguer os entes na totalidade para fora dos gonzos da maquinação, numa liberação para a liberdade em vista da verdade do ser.

23. A história do ser articula-se como a verdade resguardada e sem fundamento dos entes enquanto tais (νοεῖνεἶναι), o ser enquanto οὐσία que se desvencilhou da φύσις, a οὐσία enquanto ἐνέργεια, actus, atualidade, a atualidade enquanto representidade da efetividade, a efetividade e a objetividade (objetivação), a objetivação e o desencadear-se sobre os “entes” (objeto), o poder dominante dos entes e do ser enquanto efetividade — o poder —, o poder e a maquinação, o desencadear-se sobre os entes e o abandono do ser aos entes, a recusa como verdade velada do ser, a recusa e a ressonância do vir-a-ser-apropriado num pertencimento à verdade do ser, o vir-a-ser-apropriado enquanto o próprio ser: o evento, e o evento apropriador enquanto sustentação: o intermédio — nessa história nada se perde, prevalecendo por vezes de modo mais essencial na simplicidade do que já foi.

24. A representidade (Vor-gestelltheit) dos entes como o atual, no sentido de um representar que assegura e certifica, provisão do atual como procurado e efetivo, remonta à ἐνέργεια em Leibniz, que, mantendo a οὐσία, a concebe também como vis, “força”, nem “possibilidade” nem “atualidade”, tampouco como o “entre”, mas como “origem” e aquilo que propriamente é, enquanto nisus, conatus.

25. A entidade (Seiendheit) como representidade significa a objetivação do “atual” (daquilo que produz efeito) em efetividade, pertencendo essencialmente a tal objetivação, como essência de sua verdade, a tecnicidade.

26. A história do ser desdobra-se na sequência ser, φύσις, ἰδέα, οὐσία, ἐνέργεια, actus (atualidade), sendo a narração dessa história situada, de imediato, dentro da interpretação equivocada, há muito cultivada, de que se trataria de um relatar e proclamar, quando a palavra só é “válida” enquanto historial do ser.

27. O ser como sustentação articula-se entre o intermédio e a contra-viravolta transportadora-atribuidora, sendo a natureza dessa contra-viravolta a disputa/contraposição — sustentação —, de modo que, ao insistirmos perseverantemente, somos apropriados no suportar da disputa, da contraposição e da sustentação, num “querer” (?) que o ser possa prevalecer em sua essência.

28. A transição não se dá entre um início e outro, não havendo transição de história no início, sendo todo início algo súbito, e tanto mais longos e ocultadores a preparação, o que se segue e a transição para o súbito; o início só é apropriado eventualmente como início dentro da história — antes disso, subitamente, naquilo que já jaz pronto como o a-histórico da historiografia, mas já como ser que se ergue, e isso somente a partir do outro início, o primeiro.

29. A história “do” ser articula-se na superação (passagem sobre) da metafísica (a entidade), na maquinação, no evento apropriador (o ser), na sustentação, na história (o prevalecer essencial da verdade), no desaparecimento do ser humano (o Da-sein), no lançar-se do Da-sein, no último deus, na doação do empobrecimento e na quietude insondável da singularidade do simples, que prevalece em sua essência em torno da sustentação.

30. Só se pode fazer inteiro a partir do inteiro — e este? Não se trata de suprir o que falta, nem, inversamente, da paixão pela razão, mas de cada qual em si mesmo, a cada vez, em seu contrajogo, a partir da origem — mas como haveria tal origem, sem que se trate tampouco de “inversão”?

31. A lista de nomes que percorre a história do ser é apenas aparentemente uma sequência de títulos, dizendo de uma só vez a simplicidade do evento apropriador, da φύσις à sustentação, sendo o ser humano, nessa história, um estranho em erro, tornado tolo, ademais, pela historiografia dos entes.

32. Nada se desperdiça em interesses, formas de salvação ou “redenção”: a história por vir tem seu início como história do ser mediante a fundação de sua verdade, sendo a mera mudança do ser humano de cristão a pagão, ou de volta ao cristão, incapaz de trazer história alguma à liberdade, tão impotente quanto a alteração dos entes, sendo, ademais, a alternativa entre cristão e pagão ainda uma questão cristã, pois só há paganismo visto de uma perspectiva cristã.