5. Hegel

1. A linguagem conceitual heideggeriana redefine “ser” e “essência” hegelianos como desdobramentos históricos do início grego (ἐνέϱγεια, ἐντελέχεια) e da reinterpretação kantiana da objetividade, situando a “efetividade” (Wirklichkeit) hegeliana e a “objetidade” (Gegenständlichkeit) dentro da história da metafísica e distinguindo-as do uso próprio de “ser” e “seer” (Seyn) em Ser e Tempo.

2. O pensamento de Hegel articula-se em três movimentos correlatos: a tríade tese-antítese-síntese como estrutura do juízo e da conexão; a tríade consciência-autoconsciência-razão como unidade da objetividade e do ser-aí; e a tríade imediatidade-mediação-superação (Aufhebung) como ligação entre as duas anteriores e como origem da absolutidade.

3. O devir hegeliano designa o processo pelo qual algo se torna aquilo que já é, retornando ao seu fundamento e à sua essência mediante uma mediação determinante, processo que Hegel toma como ponto de partida ao pensar o devir do absoluto a partir do ser, entendido como o nada dos entes em sua efetividade absoluta.

4. O pensamento puro do pensar toma a si mesmo e àquilo que pensa em imediatidade como fio condutor e fundamento da projeção da verdade do ser, constituindo um pensar que parte do pensamento absoluto e que se articula com as noções de ser e devir, ser e negatividade, ser e razão.

5. O ponto de vista superior alcançado pela autoconsciência do espírito, desde a Crítica da Razão Pura até a Fenomenologia do Espírito hegeliana, consiste no autoconhecimento como conhecimento da consciência do objeto, o que transforma a antiga metafísica geral na “metafísica propriamente dita” enquanto ocupação do espírito absoluto consigo mesmo.

6. O suposto impacto do idealismo alemão em seu sistema próprio é nulo, por não ter sido compreendido e por se postular como consumação, restando apenas como singularidade histórica que a chamada “vida” jamais se dispôs a compreender.

7. A metafísica concebe o ser como entidade sob a forma da representidade (Vorgestelltheit), sendo a entidade tomada como ser-asserido categorial, capturada no predicado, e as categorias determinadas tanto objetiva quanto subjetivamente como absolutas, o que remete à pensabilidade do ego finito ou do espírito absoluto a serviço da “vida” nietzschiana, unificando o pensar como forma de realização e como fio condutor na perspectiva de Ser e Tempo.

8. A confrontação com Hegel não busca um ponto de vista ainda superior ao do espírito e da metafísica moderna, nem um ponto de vista do espírito em geral, mas antes um ponto de vista do ser-aí (Da-sein) e, por conseguinte, nenhum ponto de vista metafísico da entidade dos entes, e sim do seer, o que exige tomar a posição metafísica fundamental não como mera reflexão incidental, mas reconduzi-la, a partir da questão diretriz do sistema da ciência, à questão fundamental.

9. O começo lógico hegeliano do “ser puro” realiza-se no elemento de um pensamento livre e autocontido, no saber puro tomado como imediatidade e como a última e absoluta verdade da consciência, saber esse que, tendo-se despojado de toda alteridade e diferença, culmina no vazio como o próprio início da filosofia.