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A natureza da confrontação com a filosofia de
Hegel não se pauta por uma invasão externa ou por uma impaciência da reflexão, mas pelo reconhecimento de que seu pensamento constitui a exigência singular e ainda não concebida da história do ser. A filosofia hegeliana apresenta-se como um ponto de vista da autoconsciência do espírito acima do qual não parece ser possível estabelecer um patamar mais elevado, uma vez que sua sistemática já submete e integra toda a filosofia anterior em sua própria estrutura.
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Uma confrontação autêntica que pretenda estar à altura de Hegel deve encontrar seu fundamento oculto na própria filosofia hegeliana, acessando aquilo que para ela permanece essencialmente inacessível e indiferente. Este movimento não se confunde com a crítica historiográfica tradicional, que se limita ao cômputo de inexatidões ou à aplicação de regras de medida externas oriundas de sistemas precedentes como o kantismo ou a escolástica.
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A distinção fundamental do sistema hegeliano reside na elaboração completa de seu princípio através de todos os âmbitos do ente, desde a natureza até a religião, exigindo o trabalho do conceito em oposição à mera intuição ou sabedoria indeterminada. Para Hegel, a verdade só alcança sua forma aborígene quando se torna patrimônio de toda razão autoconsciente através do conhecimento formado e completo, o que torna a confrontação dirigida apenas ao princípio isolado um risco de captar apenas um esqueleto vazio e indeterminado.
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A realidade histórica de uma filosofia não é medida por sua repercussão imediata ou pela formação de escolas e filologias, mas por sua capacidade de fundar originariamente o seu próprio tempo, mesmo que isso ocorra através de inversões ou movimentos contrários. O idealismo alemão e a metafísica de Hegel em particular exerceram uma eficácia tal que fenômenos como o positivismo, o marxismo e até a teologia contemporânea são incompreensíveis sem a consideração de sua influência, manifesta muitas vezes como uma sublevação contra a própria fonte.
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Na fixação da linguagem conceptual para a confrontação, deve-se distinguir o conceito hegeliano de ser do conceito essencial de ser, observando que, para Hegel, a realidade (Wirklichkeit) é a entidade como representatividade da razão absoluta. A famosa máxima de que o racional é real e o real é racional não é uma regra prática sobre fatos contingentes, mas o princípio da determinação essencial do ser como perceptibilidade da razão e representatividade do representar incondicionado.
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O ponto de vista e o princípio da filosofia hegeliana caracterizam-se pelo idealismo absoluto e pela tese de que a substância é sujeito, situando o ser essencial no devir. O devir, para Hegel, é o re-presentar que se re-presenta e o levar-se-a-aparecer, constituindo o fundamento a partir do qual a lógica se desenvolve como a exposição das condições incondicionadas do espírito.
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A determinação fundamental que permite uma meditação crítica e satisfaz a dupla exigência de instalar-se em um ponto de vista originário sem ser externo é a negatividade. É através do exame a fundo da negatividade que se torna possível divisar a sistemática hegeliana em sua força de determinação e, simultaneamente, remontar a um fundamento mais originário que a própria metafísica da subjetividade incondicionada.