Fenomenologia do Espírito – 9-12

9. A consciência fornece “em si mesma” (an ihm selbst) o critério de seu próprio exame, não porque precise desenvolvê-lo posteriormente e a partir de si, mas porque, pensada simultaneamente como autoconsciência cartesiana e como consciência transcendental kantiana, a objetidade do objeto já se funda nas funções unificadoras originárias (sintéticas) da autoconsciência, contra as quais todo objeto deve medir-se.

10. A consciência, ao se comportar em relação ao objeto de que é consciente e, ao referir esse objeto a si mesma como seu próprio si-mesmo, comportar-se também em relação a si, realiza dentro de si a comparação entre aquilo que deve ser medido e o critério que mede, sendo essa comparação, em si mesma, exame — de modo que a consciência examina-se a si mesma, não ocasionalmente, mas sempre, enquanto pensa como autoconsciência em direção à objetidade do objeto.

11. A revisão do percurso interpretativo até aqui recapitula que a Fenomenologia do Espírito, primeira parte do sistema-fenomenologia sob o título Ciência da Fenomenologia do Espírito, converte-se em parte subordinada no sistema-enciclopédia posterior, sendo o alcance dessa mudança para a metafísica do idealismo alemão apenas mensurável quando a essência da própria Fenomenologia estiver suficientemente esclarecida.

12. A experiência (Er-fahren) de que fala Hegel na Fenomenologia do Espírito não se refere a entes acessíveis na cotidianidade, à maneira da ἐμπειϱία aristotélica ou da experiência kantiana, nem constitui, propriamente, um modo de cognição, mas designa “a experiência da consciência” enquanto movimento dialético, curso duplamente entendido como atividade de ir e como passagem explorada (er-gangen) por aquilo que nele viaja: a consciência como representação.