5. A concepção da autopresentação do saber que aparece como um percurso que a consciência natural trilharia em direção ao espírito absoluto, ao modo de um Itinerarium mentis in Deum, embora seja a forma pela qual todas as interpretações anteriores da Fenomenologia do Espírito a conceberam, revela-se filosoficamente inverídica, pois o curso em questão não é aquele que jaz diante da consciência natural como caminhante, mas o próprio curso que o absoluto percorre em direção à verdade de sua aparição completa.
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A consciência natural mostra-se, nesse processo, como um saber que ainda não atualizou em si a verdade do saber e que, por isso, precisa abandonar sua obstinação, ainda que a opinião cotidiana insista em compreender esse caminho à maneira cartesiana, como um caminho da dúvida que visa apenas recuperar e assegurar novamente a coisa tal como era antes de a dúvida ocorrer.
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O caminho da dúvida assenta-se sobre a certeza que a própria dúvida, como crença em si mesma e em seu direito, já pressupõe, ao passo que o curso do saber que aparece rumo à sua verdade essencial já pensa, em seu primeiro passo, em direção à essência da consciência, reconhecendo que essa essência, tomada isoladamente, não oferece esperança alguma de trazer o absoluto, em sua verdade absolvente e absolvida, à aparição.
6. O primeiro passo no curso do absoluto que se traz à aparição exige um outro, ao qual se aplica o mesmo, e assim sucessivamente, enquanto não se absolve a totalidade das figuras essenciais da consciência, de modo que o curso do saber que aparece constitui, de passo a passo, antes um “caminho do desespero”, no qual os estágios anteriores devem ser abandonados e, ao mesmo tempo, preservados, para que a absolvição não seja perda, mas a forma única de alcance do absoluto.
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A superação (
Aufhebung) é tríplice: as figuras da consciência percorridas são, a um só tempo, retiradas do chão (tollere), preservadas (conservare) e transmitidas na sucessão essencial de seu aparecer, sendo “sublatadas” nesse duplo sentido.
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A consciência, ao se apresentar, realiza sua aparição numa história que serve à formação de sua essência, de tal maneira que, nessa formação, a consciência se conhece na completude de sua aparição, constituindo a série de figuras percorridas nesse caminho a história detalhada da formação da consciência até o ponto de vista da ciência.
7. A questão da opinião cotidiana acerca da origem do princípio da completude das figuras e da meta que rege a sucessão dos passos da progressão só pode ser respondida mediante a colocação correta da própria pergunta, uma vez que a meta desse curso não se encontra fora dele nem em seu término, mas constitui o próprio começo do qual o curso parte e a partir do qual dá cada um de seus passos.
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As figuras da consciência não se sucedem de tal maneira que a última apareça por último, sendo a primeira figura já, de antemão, elevada (hinaufgehoben, elevare) na absolutidade do absoluto, de modo que este determina o que aparece como primeiro estágio da aparição de sua própria essência.
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A Fenomenologia do Espírito começa com a certeza sensível não em atenção ao ser humano que nela a princípio permanece, mas porque essa figura do saber constitui a externalização mais extrema em que o absoluto pode se liberar, sendo, por isso, a mais pobre e vazia de suas figuras e a mais distante de sua própria completude, condição básica para que o absoluto se dê a possibilidade de percorrer um curso que é o retorno a si mesmo.
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A superação, segundo sua essência própria e subjacente, é antes de tudo uma elevação (elevare), um ser-alçado ao absoluto, não devendo esquecer-se que o absoluto já está conosco desde a figura mais primitiva da consciência, sendo o conhecer o raio que nos toca como verdade absoluta.
8. No parágrafo 8, que caracteriza a meta do curso da consciência, afirma-se que a consciência é, para si mesma, seu próprio conceito, sendo sua essência a autoconsciência, a qual só é aquilo que é, para si, na medida em que se sabe como autoconsciência na completude de sua essência — esse saber de si mesmo que se sabe é, segundo Hegel, “o conceito”.
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Por só ser sendo seu conceito, a consciência constitui, em suas figuras essenciais, um constante ser-arrancado além de si mesma por si mesma para si mesma, sofrendo essa violência de estragar sua própria satisfação limitada por suas próprias mãos.
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Nesse ser-arrancado para o domínio da verdade de sua própria essência, a consciência mesma vem “à tona” como aquilo que é em sua aparição, apresentando-se e “sendo” enquanto apresentação, sendo o curso dessa autoapresentação marcado pelo traço fundamental da superação no triplo sentido de tomar (tollere), preservar (conservare) e alçar (elevare), sendo este terceiro modo o primeiro e subjacente a todo o processo segundo a coisa (Sache) e a essência.
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A consciência ocorre essencialmente como autoconsciência de antemão na elevação ao absoluto, e só a partir dessa elevação toma seu objeto-de-consciência, podendo, dentro dela, preservar a consciência daquilo de que é consciente como figura.
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A crítica corrente que caracteriza o curso da consciência segundo a tríade tese-antítese-síntese e acusa
Hegel de encenar essa progressão por mera arbitrariedade, por não encontrar na representação cotidiana um fio condutor para a passagem de uma à outra, não pensa filosoficamente, pois ignora que é a síntese que sustenta e guia o processo, e que o domínio daquilo que merece a conservare e exige a tollere já está circunscrito pela violência da elevação que prevalece antes de tudo.
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Para trazer o curso da consciência em sua aparição à presentação, o pensar que a apresenta deve, antes de tudo, pensar a síntese, e somente a partir dela pensar a tese e a antítese, sendo essa síntese e a elevação absoluta não algo que “fazemos”, mas que apenas realizamos, retomando o que já se dissera no primeiro parágrafo: o absoluto já está conosco, e o conhecer é o raio pelo qual a verdade nos toca.
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Pensando de antemão a partir da elevação e síntese primordiais da consciência, obtém-se o fundamento para determinar o tipo de progressão e a totalidade das figuras a serem percorridas, sendo cada figura e cada transição determinadas pela meta do curso, de modo que a negação da figura anterior, realizada na progressão, não é uma negação vazia, mas “negação determinada”, tema tratado por
Hegel no parágrafo 7 da Introdução.
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Por ser a progressão sustentada e guiada pela elevação, ela constitui uma ascensão gradual a estágios cada vez mais elevados, e por ser, em si mesma, uma transição diferenciadora de um estágio a outro, o curso da autoapresentação do saber que aparece, ao separar e diferenciar o inferior do superior, assume o caráter de um exame — cuja proveniência do critério (Maßstab) desse exame, discutida a partir do modo como a opinião comum pensa a tomada de medida (Maß-nehmen),
Hegel esclarece na parte seguinte da Introdução.