13. O conceito hegeliano de “experiência”, introduzido no parágrafo 14 como o movimento dialético que a consciência exerce sobre si mesma, tanto sobre seu saber quanto sobre seu objeto, do qual surge o novo objeto verdadeiro, distingue-se essencialmente tanto da ἐμπειϱία aristotélica quanto da experiência kantiana, ambas dirigidas a entes imediatamente acessíveis na cotidianidade.
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A ἐμπειϱία aristotélica consiste no ter à disposição o pré-ter do “se isto…, então aquilo…”, limitando-se ao saber do que (τὸ ὅτι) sem alcançar o porquê (τὸ διότι), distinção que separa a experiência da
τέχνη e da
ἐπιστήμη.
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A experiência kantiana transforma essencialmente essa familiaridade num conhecimento que determina o objeto através de percepções, síntese cuja unidade sintética constitui o essencial no conhecimento dos objetos dos sentidos, realizando-se na ciência natural matemática de cunho newtoniano.
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Segundo o primeiro período do parágrafo 14, a experiência é o deixar-surgir do “novo objeto verdadeiro” realizado pela própria consciência, movimento em que o objeto que nele surge lhe é devolvido explicitamente como propriedade essencial que sempre lhe pertenceu de modo velado, contendo o novo objeto a nulidade do primeiro.
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Na intuição sensível deste livro aqui, o objeto em si mesmo revela conter também o seu ser-para-a-consciência, sendo esse ser-para-ela nada além da objetidade do objeto, que, ao vir à tona pela primeira vez ao lado do objeto habitual, constitui o objeto “novo” e, por conter a verdade essencial do objeto, também o objeto “verdadeiro”, ao passo que o primeiro objeto, precisamente por permanecer apenas “em si”, revela-se o não-verdadeiro, o nulo.
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Diferentemente da ἐμπειϱία e da experiência kantiana, ambas dirigidas a entes, o objeto da “experiência da consciência” hegeliana é a própria objetidade, cognição não ôntica mas ontológica ou transcendental, que
Kant já preparara ao inquirir pela primeira vez, de modo explícito, o ser dos entes como objetidade, sem, todavia, interrogar a objetidade da própria autoconsciência finita que ele mesmo põe como condição, questão que
Hegel leva além, rumo ao incondicionado que não é mais ele próprio condicionado.
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A experiência assim entendida relaciona-se necessariamente com o infinito, isto é, com a consciência como o não finito, o originariamente uno, o incondicionado e omnicondicionante, sendo a experiência hegeliana, em contraste essencial com
Kant, não apenas ontológica em geral, mas dirigida ao incondicionado em todo condicionamento e à totalidade da relação de condicionamento — o deixar-surgir incondicionalmente transcendental da consciência.
14. A diferença entre a experiência transcendental hegeliana e a experiência usual, introduzida no parágrafo 15, revela que, enquanto a experiência comum efetua a transição de um primeiro objeto para outro objeto já subsistente e encontrado por acaso, corrigindo o primeiro por meio do segundo, a experiência transcendental permanece precisamente no primeiro objeto, deixando-o mostrar-se, ele mesmo, como outro, isto é, em sua objetidade, de tal modo que o novo objeto mostra ter surgido através de uma inversão da própria consciência.
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Essa “inversão da consciência” (
Umkehrung), enquanto “nossa contribuição” (
Zutat), parece à primeira vista perturbar o “puro olhar” (das
reine Zusehen) exigido nos parágrafos anteriores, mas na verdade constitui a condição que primeiro abre e pavimenta a via de visão sobre o absoluto e o caminho de retorno a ele, sendo a pureza do puro olhar não um despojamento de todo fazer, mas a mais alta realização do ato necessário a esse olhar e à sua possibilidade.
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A inversão contém, na verdade, uma dupla reversão: a conversão do objeto em sua objetidade, própria do transcendental em geral, e a reviravolta para a exteriorização exigida pela incondicionalidade e sistemática da consciência transcendental absoluta, reviravolta que primeiro abre o caminho do retorno, uma vez que o absoluto deve distanciar-se de si mesmo e de sua plenitude para deixar aparecer, no que é mais condicionado, sua incondicionada condicionalidade.
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Por isso a Fenomenologia do Espírito começa não por consideração pedagógica ao ser humano, mas com a apresentação da figura mais pobre e menos verdadeira da consciência, a certeza sensível, e termina com o autoconhecimento absoluto do espírito, sendo o curso da obra assim configurado não por nossa causa, mas pela causa do próprio absoluto.
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A distinção constante entre o “para nós” e o “para ela” (a consciência) percorre toda a obra: o “para nós” designa o objeto para os que experienciam transcendental-sistematicamente, olhando para a objetidade do objeto em seu emergir, ao passo que o “para ela” designa a consciência que desdobra livre e historicamente suas figuras como autoconsciência, ambos os âmbitos concernindo, cada qual a seu modo, ao espírito absoluto em sua história ou na historicidade da história de seu aparecer.
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Segue-se daí a proposição conclusiva de
Hegel de que, em razão dessa necessidade, o caminho até a ciência já é ele mesmo ciência, sendo, quanto a seu conteúdo, a ciência da experiência da consciência — de modo que o título deve ser pensado nem como genitivo objetivo nem como meramente subjetivo, mas como o genitivo especulativo-sintético que pensa originariamente o fundamento da unidade de ambos, fundamento que é a própria essência da “experiência” na qual o saber que aparece, a consciência, aparece a si mesmo em seu aparecer como “ciência”.
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A linguagem, que segundo
Hegel sempre exprime imediatamente o universal e assim o afasta de si, não possui formas gramaticais para essas relações da essência da consciência, devendo desaparecer em relação à “consciência mesma” tal como se dissipa como expressão na pronúncia do som, de sorte que somente esse desaparecimento do sentido primeiramente sugerido pelo título permite compreendê-lo verdadeiramente.
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A permanência do termo “experiência” ao longo da obra, apesar do abandono do título, não pode ser contrária ao espírito e à sua “fenomenologia”, pois o espírito é
νοῦς, e a atualidade do νοῦς é, segundo
Aristóteles citado por
Hegel ao final do sistema-enciclopédia, a vida — de modo que, em termos modernos, a atualidade do espírito é a vida.
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A experiência, determinada a partir da essência da consciência que é o espírito que aparece, e assim “vida” em seu aparecer a si mesma, tem sua essência a partir da essência “da vida”, condensando-se em nove proposições diretrizes:
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a experiência é pervagari, um percorrer viajante de trajetos;
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esse percorrer não se atém a trilhas já feitas, mas abre, ao viajar através dos cursos, as próprias passagens pela primeira vez;
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essa experiência que percorre e abre é experiência no sentido originário de πεῖϱα, o envolvimento com algo com a intenção de ver o que dele resulta, aparecendo, sendo esse envolvimento uma confrontação (
Auseinandersetzung) “dialética” na medida em que o pôr-em-pedaços traz à luz aquilo que é posto à parte;
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como envolvimento que deixa aparecer, a experiência põe o que dela resulta (o novo) em relação com o que veio antes, sendo um pesar, sondar e examinar;
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por atravessar sempre uma decisão, a experiência é em cada caso uma correção, notificação sobre o que é certo e errado, verdadeiro e não verdadeiro, deixando surgir a cada vez um novo objeto verdadeiro;
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as experiências não ocorrem por si mesmas, mas somos sempre nós que as sofremos ao modo de um proceder e empreender, sendo a experiência um experiri, um experimentum, que, quando assume caráter de ataque autopotenciado sobre as aparências, gera o “experimento” no sentido moderno de intervenção técnica, sendo a experiência, além de pesagem e exame, também um arriscar-se;
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ao arriscar-se e envolver-se, a experiência intervém naquilo que aparece, produzindo precisamente o que aparece em seu aparecer, sendo essa produção interveniente e apreensora a serviço do aparecer a essência do trabalho, de modo que a experiência é essencialmente trabalho, e o conceito mesmo, “trabalho do conceito”;
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o caráter laborioso da experiência implica que todo experienciar contém um “atravessar” no sentido de um sofrer e suportar, sendo a riqueza da experiência determinada pela força de sofrer;
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unida a esse momento de “atravessar”, a experiência é “dolorosa”, não como consequência psicofísica, mas como essência mais íntima do experienciar, na qual todos os momentos anteriores têm sua unidade, sendo a dor a essência do saber enquanto passagem constante pelas correções que cada experiência contém, de modo que toda experiência, mesmo a aparentemente “boa”, é essencialmente uma desilusão (
Enttäuschung), pois a consciência, sendo autoconsciência, nunca é diferenciação indiferente de si mesma, mas igualdade a si somente como ser-outro em relação ao outro, fundamento essencial da cisão que aparece em todo estágio da consciência enquanto esta não é absoluta em sentido absoluto.
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Diante desse conceito pleno de experiência, o conceito empírico dos empiristas revela-se apenas o sedimento insosso e ressecado de uma bebida outrora viva, permanecendo em aberto, sem resposta possível, por que
Hegel deixou desaparecer o título Ciência da Experiência da Consciência, restando-nos essa questão como impulso estranho para uma reflexão que se vê lançada à confrontação com a metafísica absoluta e assim preparada para a dor do dirimir em relação a ela.