1. A Fenomenologia do Espírito hegeliana publicada em 1807 sob o título completo Sistema da Ciência. Parte Um. A Fenomenologia do Espírito apresenta um corpo textual precedido por um extenso Prefácio e por uma deliberação posteriormente intitulada Introdução, cujo título original nas primeiras cópias, Ciência da Experiência da Consciência, foi substituído por Hegel, ainda durante a impressão, por Ciência da Fenomenologia do Espírito.
2. A mudança do título decorre de uma razão de peso, a saber, a perda do papel de “Parte Um” do sistema pela Fenomenologia do Espírito, uma vez que o próprio Sistema se modificara nesse ínterim no pensamento hegeliano, conforme o anúncio de 1807 que previa um segundo volume com a lógica especulativa e as ciências da natureza e do espírito.
3. Entre 1807 e 1812 o sistema determinado pela Fenomenologia do Espírito — designado brevemente “sistema-fenomenologia” — sofreu uma transformação que culmina, em 1817, na publicação da Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio, obra cuja razão íntima consiste na mudança do sistema para a configuração que Hegel considerou definitiva e assim manteve.
4. Da leitura desse prefácio depreendem-se quatro conclusões decisivas: a Enciclopédia constitui, no fundo, não um manual, mas a configuração do sistema novo e definitivo, doravante chamado “sistema-enciclopédia”; este sistema não mais toma a Ciência da Fenomenologia do Espírito como sua primeira parte, mas sim a Lógica; a Ciência da Lógica, mencionada explicitamente no prefácio, recebe uma posição ambígua, pois ainda parecia ser a segunda parte do sistema-fenomenologia, quando na verdade já era a primeira e fundamental parte do novo sistema-enciclopédia; e a Fenomenologia do Espírito deixa de ser sequer mencionada no prefácio à Enciclopédia, por não mais constituir nem a primeira nem qualquer parte principal do sistema.
5. O abandono do sistema-fenomenologia já por ocasião da publicação da Lógica em 1812 pode ser presumido da ausência, nessa obra, do título completo Sistema da Ciência e de sua designação como “Parte Dois”, conclusão corroborada pela Propedêutica Filosófica, organizada por Karl Rosenkranz, que revela o sistema-enciclopédia já estabelecido entre 1808 e 1811.
6. O sistema-enciclopédia definitivo compreende três partes — a ciência da lógica, a filosofia da natureza e a filosofia do espírito —, sendo esta última subdividida em espírito subjetivo, espírito objetivo e espírito absoluto, e a filosofia do espírito subjetivo, por sua vez, articulada em alma, consciência e espírito.
7. A expansão do sistema-enciclopédia nas edições subsequentes de 1827 e 1830 inclui o discurso proferido por Hegel na ocasião de sua posse como professor em Berlim, cuja sentença conclusiva caracteriza a orientação geral do sistema-enciclopédia e da metafísica hegeliana em geral, ao afirmar que a essência do universo, a princípio oculta e fechada, não possui poder algum capaz de resistir à coragem do conhecimento, devendo abrir-se e oferecer suas riquezas e sua profundidade ao gozo do conhecer.
8. A construção do sistema-enciclopédia revela um realinhamento decisivo com a estrutura fundamental da metafísica antiga: a primazia da Ciência da Lógica corresponde à metaphysica generalis; a filosofia do espírito absoluto corresponde à conclusão da metaphysica specialis, ou seja, à theologia rationalis; a filosofia da natureza corresponde à cosmologia rationalis; e a filosofia do espírito subjetivo e objetivo corresponde à psychologia rationalis, estrutura essa já observada no sistema-fenomenologia, ainda que apenas em sua segunda parte.
9. A questão da necessidade interna dessa transição e de seu significado metafísico, bem como a da equivalência velada entre os dois sistemas dentro da metafísica hegeliana, exige uma meditação estranha ao horizonte da erudição historiológica sobre Hegel, meditação essa que busca sugerir que essa metafísica nos concerne, hoje e no futuro, com a mesma imediatidade do dizer mais antigo do pensamento ocidental.
10. A ciência do consciente de si de que trata a peculiaridade da tarefa da Fenomenologia do Espírito não escapou ao próprio Hegel, que não se enganou quanto à sua dificuldade essencial, razão pela qual muniu a obra de uma Introdução especial precedida de um Prefácio sem precedentes comparáveis na história do pensamento ocidental.
11. A função de prefácios e introduções, conduzir ao interior da obra e oferecer aos que lhe são externos uma ponte para adentrá-la, realiza-se sem dificuldade nas obras científicas, porquanto a representação cotidiana e o pensamento científico permanecem voltados diretamente para os entes; mas uma introdução ao pensar filosófico é impossível, pois inexiste passagem gradual e deliberada do pensar cotidiano para o pensar pensante, dado que este trata do ser, o qual jamais pode ser encontrado entre os entes como um ente.
12. A elucidação do que seja a Fenomenologia do Espírito vale-se, na ausência de conhecimento prévio da obra, do auxílio que o próprio Hegel oferece na forma da Introdução, tomando-a como explicação do título suprimido Ciência da Experiência e da Consciência, mantido apenas em poucos exemplares da primeira edição e substituído pela versão definitiva Ciência da Fenomenologia do Espírito.
13. Para alcançar clareza sobre esse ponto, impõe-se elucidar previamente o que significa o termo “consciência” na metafísica moderna, designação nem de todo óbvia para conscientia, o saber que também conhece todos os modos de comportamento do homem na medida em que se referem à mens, o “espírito”, o qual se exprime a si mesmo, isto é, como um si-mesmo, ao dizer “eu”.
14. A consciência não é mera perceptio, um colocar-diante apreensivo (Vorstellen), mas apperceptio, um colocar-em-direção-a-si-mesmo que também nos apreende, sem que o si-mesmo assim co-representado ingresse na consciência posteriormente e além daquilo de que a consciência também é consciente.
15. O saber que o ser humano é um si-mesmo, capaz de dizer “eu” e de ter “autoconsciência”, sempre foi conhecido pelo pensamento ocidental, como atesta o fragmento heraclítico ἐδιζησάμην ἐμεωυτόν, “investiguei a mim mesmo”; contudo, esses “diálogos” da alma “consigo mesma” entre os gregos e os “solilóquios” agostinianos no cristianismo diferem fundamentalmente da “consciência” que, como autoconsciência, isto é, como certeza-de-si, constitui a essência do conceito moderno de verdade, de objetidade e de efetividade.
16. A elucidação do título Ciência da Experiência da Consciência a partir da Introdução não pode, na presente ocasião, realizar-se por meio de uma interpretação textual formal e contínua como conviria, devendo bastar provisoriamente uma visão de conjunto da estrutura da Introdução, composta de dezesseis parágrafos organizados em cinco partes, das quais apenas as quatro primeiras serão aqui elucidadas.