Metafísica 32-41

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Metafísica e Niilismo. Tr. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.

32. O fim da metafísica deve ser concebido apenas a partir do começo, ambos originados da essência da verdade do seer enquanto acontecimento apropriativo, o que significa conceber o fim a partir da superação enquanto história do seer.

33. A clareira do seer distingue-se por sua unicidade, principialidade, não-desocultamento, plenitude, proximidade essencial, raridade e caráter espantoso, repousando toda a história da metafísica sobre a não-fundação da alétheia (αλήθεια) que acontece apropriativamente na recusa velada do seer.

34. Nietzsche e o fim da metafísica ocidental articulam-se a partir do conceito de fim como acabamento da essência incondicionada em meio à inessência, mostrada nos temas nietzschianos do niilismo, da vontade de poder, do eterno retorno do mesmo, do super-homem e do método psicológico, culminando na dizimação da essência da verdade e no abandono histórico-ontológico do ser.

35. O fim da metafísica como acabamento em meio à inessência incondicionada, na metafísica de Nietzsche, desenvolve-se em quatorze momentos que vão do niilismo europeu como desvalorização dos valores supremos até a obstaculização da verdade do seer pelo homem-corporeidade-espírito-alma.

36. A metafísica de Nietzsche enquanto acabamento da metafísica não decorre de uma rejeição da metafísica, mas do fato de Nietzsche levá-la ao seu acabamento através da consideração artística do mundo, na qual a arte figura como a mais elevada expressão da vontade de poder e o devir como constância do inconstante.

37. O acabamento da metafísica através da instauração de valores enquanto niilismo articula-se em onze momentos, desde a pergunta sobre como a metafísica chega a seu acabamento até a sentença fundamental de que a arte é mais valorosa que a verdade.

38. O acabamento da metafísica realiza-se na transvaloração de todos os valores sobre o fundamento da nova instauração de valores a partir da vontade de poder, ocultando o esquecimento do ser através da incondicionalidade do pensamento valorativo, de modo que o niilismo, concebido por Nietzsche como instauração de valores, constitui na verdade, histórico-ontologicamente, o derradeiro estágio e a derradeira consequência do niilismo, cuja essência consiste no desrespeito frente ao nada.

39. O seer enquanto acontecimento apropriativo caracteriza-se pelo apropriar-para o interior do ser-situado, fundando a clareira do seer enquanto propriedade que constitui o fundamento do eu e do nós, essencializando-se como clareira essencializante da situação.

40. A metafísica de Hegel, sendo completamente lógica, realiza a essência da metafísica ocidental até seu acabamento, restando apenas o passo em direção à sua inessência incondicionada, passo este levado a termo por Nietzsche, no contexto da relação entre physis (φύσις) e técnica (τέχνη), do mundo romano (actio) e do cristianismo (creatio).

41. A metafísica constitui a articulação da história ocidental enquanto história do abandono do ser característico do ente que se elabora em esquecimento, sendo a perturbação velada da physis (φύσις), exigindo, para a experiência histórico-ontológica desta essência, o saber dos conceitos fundamentais.