HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Metafísica e Niilismo. Tr. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
32. O fim da metafísica deve ser concebido apenas a partir do começo, ambos originados da essência da verdade do seer enquanto acontecimento apropriativo, o que significa conceber o fim a partir da superação enquanto história do seer.
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O fim enquanto domínio incondicionado da inessência sobre a essência manifesta-se na verdade do ente acabando na subjetividade incondicionada e na inquestionabilidade do ser, ao passo que a inessência corresponde à inversão do platonismo e ao desvio para o interior do caos enquanto vontade de poder, culminando na antropomorfia incondicionada do “trabalhador”.
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O fim enquanto domínio da inessência identifica-se com o abandono do ser característico do ente concebido como recusa e esquecimento, configurando o niilismo pensado histórico-ontologicamente.
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O fim enquanto enrigecimento da via de escape produz a aparência de grandes reviravoltas que não passam de firmes recaídas, sendo a inessência mais extrema do começo o puro devir enquanto maneira mais elevada da constância.
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O fim enquanto finitização exige ser pensado multiplamente a partir da história do seer e de seu instante de superação da metafísica.
33. A clareira do seer distingue-se por sua unicidade, principialidade, não-desocultamento, plenitude, proximidade essencial, raridade e caráter espantoso, repousando toda a história da metafísica sobre a não-fundação da alétheia (αλήθεια) que acontece apropriativamente na recusa velada do seer.
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Através desta não-fundação, a recusa abre espaço para a modulação da alétheia em direção à
homoiosis (ομοίωσις),
adaequatio,
certitudo, objetividade e justiça, soterrando os caminhos até a
physis (φύσις) e conduzindo a superação da metafísica até a inverdade da inessência.
34. Nietzsche e o fim da metafísica ocidental articulam-se a partir do conceito de fim como acabamento da essência incondicionada em meio à inessência, mostrada nos temas nietzschianos do niilismo, da vontade de poder, do eterno retorno do mesmo, do super-homem e do método psicológico, culminando na dizimação da essência da verdade e no abandono histórico-ontológico do ser.
35. O fim da metafísica como acabamento em meio à inessência incondicionada, na metafísica de Nietzsche, desenvolve-se em quatorze momentos que vão do niilismo europeu como desvalorização dos valores supremos até a obstaculização da verdade do seer pelo homem-corporeidade-espírito-alma.
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A transvaloração de todos os valores interpreta-se como reinstauração da vontade de poder enquanto valor fundamental, sendo o conjunto dos valores sempre e apenas enquanto devir, e a vontade de poder essencializando-se como eterno retorno do mesmo, configurando o niilismo extremo-clássico-ekstático.
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O super-homem representa a subjetividade incondicionada, enquanto a valoração destrói a verdade através da desertificação incondicionada de sua essência, tornando a verdade um valor necessário e, por isto mesmo, uma nulidade incondicionada.
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O niilismo constitui o mais elevado triunfo do “espírito” enquanto subjetividade incondicionada, sendo a fuga em direção ao espírito cristão e eclesiástico a figura mais insidiosa e derradeira do materialismo, incapaz de liberar o ente para o seer.
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O homem da metafísica, enquanto corporeidade, espírito e alma, obstaculiza a verdade do seer, alcançando no super-homem seu poder mais elevado e no homem divino (Cristo) sua impotência mais tenaz, em uma luta que ainda pertence veladamente ao seer enquanto superação da metafísica.
36. A metafísica de Nietzsche enquanto acabamento da metafísica não decorre de uma rejeição da metafísica, mas do fato de Nietzsche levá-la ao seu acabamento através da consideração artística do mundo, na qual a arte figura como a mais elevada expressão da vontade de poder e o devir como constância do inconstante.
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O pensamento anti-metafísico permanece sempre anti-metafísico, levando a metafísica ao acabamento à medida que a inverte e expurga através desta inversão, substituindo metafísica e religião pelo eterno retorno do mesmo enquanto meio de cultivo e seleção.
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A doutrina do eterno retorno do mesmo representa pela primeira vez propriamente a constância do devir e sua ausência de finalidade, sendo esta ausência não falta, mas privilégio da libertação que, contudo, fomenta a fixação de metas e da verdade enquanto valor.
37. O acabamento da metafísica através da instauração de valores enquanto niilismo articula-se em onze momentos, desde a pergunta sobre como a metafísica chega a seu acabamento até a sentença fundamental de que a arte é mais valorosa que a verdade.
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A metafísica e a diferenciação constituem o fundamento da instauração de valores em sua cunhagem moderna e subjetiva, sendo a di-ferenciação (
Unterscheidung) e a decisão (
Entscheidung) inexpressas pelo esquecimento do ser, e este esquecimento a própria essência do niilismo enquanto repúdio ignoto do nada que pertence à essência do ser.
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O ser concebido enquanto vontade de poder só se apresenta ao pensamento sob o caráter do poder que determina tudo como meios e condições de si, exigindo que o pensamento seja valorativo e instaure as condições de conservação e elevação do poder incondicionado.
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O valor próprio à conservação é a verdade enquanto asseguramento de um constante, e o valor próprio à elevação é a arte enquanto esclarecimento, de modo que a sentença “a arte é mais valorosa que a verdade” constitui a sentença fundamental do acabamento da metafísica.
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A nova instauração de valores não é consequência, mas fundamento da transvaloração, uma vez que esta última é apenas a interpretação da própria relação histórica com a metafísica precedente.
38. O acabamento da metafísica realiza-se na transvaloração de todos os valores sobre o fundamento da nova instauração de valores a partir da vontade de poder, ocultando o esquecimento do ser através da incondicionalidade do pensamento valorativo, de modo que o niilismo, concebido por Nietzsche como instauração de valores, constitui na verdade, histórico-ontologicamente, o derradeiro estágio e a derradeira consequência do niilismo, cuja essência consiste no desrespeito frente ao nada.
39. O seer enquanto acontecimento apropriativo caracteriza-se pelo apropriar-para o interior do ser-situado, fundando a clareira do seer enquanto propriedade que constitui o fundamento do eu e do nós, essencializando-se como clareira essencializante da situação.
40. A metafísica de Hegel, sendo completamente lógica, realiza a essência da metafísica ocidental até seu acabamento, restando apenas o passo em direção à sua inessência incondicionada, passo este levado a termo por Nietzsche, no contexto da relação entre physis (φύσις) e técnica (τέχνη), do mundo romano (actio) e do cristianismo (creatio).
41. A metafísica constitui a articulação da história ocidental enquanto história do abandono do ser característico do ente que se elabora em esquecimento, sendo a perturbação velada da physis (φύσις), exigindo, para a experiência histórico-ontológica desta essência, o saber dos conceitos fundamentais.