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A orientação hoje fortemente acentuada, embora não unívoca, para a realidade da vida, o fomento e o incremento da vida, bem como o discurso corrente e muito cultivado sobre vida, sentimento vital, vivência e experiência vivida são os sinais, de motivação múltipla, da situação espiritual presente, e o que importa aqui é apontar os momentos a partir dos quais a problemática da filosofia atual se determina predominantemente.
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O que se revela decisivo é o despertar acentuado de uma consciência histórica e sua configuração experiencial concreta e abrangente nas ciências históricas do espírito: a realidade da existência como vida em devir, em desenvolvimento, em diferenciação e em constante enriquecimento interior passa a integrar cada vez mais o teor determinante da experiência vital factual, fazendo compreender o presente como uma fase ou etapa de uma “vida total”, enquanto normas e valores são vistos e dissecados como produtos de um pensamento evolutivo, sendo a explicação histórica tomada simultaneamente como decisão objetiva das questões.
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Essa concepção fundamental de todas as configurações vitais e elementos da existência como produtos de um desenvolvimento — que relativiza toda validade decisiva do conhecimento — foi reforçada pelo desenvolvimento da biologia, que, ao lado das ciências históricas do espírito, expandiu o pensamento evolutivo ao ser humano e às comunidades humanas, dando origem à sociologia; a biologia gerou também uma psicologia fisiológica que buscava construir a vida psíquico-espiritual a partir de elementos simples e que aspirava a ser a ciência do espírito mais geral, servindo de base tanto para a historiografia quanto para a filosofia.
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Contra essa pretensão da psicologia naturalista se levantou forte oposição que levou, por um lado, à ideia diltheyana de uma psicologia compreensiva e à investigação epistemológica da estrutura das ciências do espírito e da cultura, e, por outro, a partir de uma renovação da filosofia kantiana, a um predomínio das questões do a priori, da legalidade da razão, do dever, da validade e dos valores, com ênfase crescente na autonomia da vida espiritual e contenção do pensamento evolutivo mecanicista, culminando no avanço da psicologia da vivência.
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A intrincada interação desses motivos e contramotivos conduz ao predomínio da realidade da vida espiritual e da vida em geral, e a problemática da filosofia contemporânea está centrada na vida como fenômeno originário: ou a vida é posta como o fenômeno originário absoluto, ao qual toda objetividade remete como objetivação e manifestação — é o caso das filosofias da vida de orientação biológica ligadas a James e
Bergson, de orientação nas ciências do espírito ligada a
Dilthey e de síntese das duas orientações em Simmel; ou a vida é vista como cultura, como manifestação que se realiza e deve realizar-se em vinculação a princípios e valores normativos, visando a uma sistemática apriorística universal da razão, como pretendem a Escola de Marburgo, Rickert e, no desdobramento mais recente dessas ideias,
Husserl — e entre essas três orientações transcendentais observa-se uma convergência crescente de ano para ano em direção a uma sistemática da razão e dos valores como filosofia da cultura.
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O primeiro grupo é em parte combatido com vigor pelo segundo, embora este último tenha muito aprendido com o primeiro, e distingue-se ainda pela função eminente e orientadora que a problemática lógico-epistemológica nele desempenha.
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Oswald
Spengler, que pretende oferecer a última grande filosofia do Ocidente e apresenta seus traços fundamentais na ideia de uma simbólica universal, não representa, quanto ao que é principial e fundante, senão um derivado dos motivos da primeira corrente da filosofia da vida, sustentado por um continuísmo orientado e dinâmico; sua filosofia é completamente atrasada e amplamente devedora das filosofias que menciona, mas ainda mais das que silencia, e seu livro se apoderou da ignorância notória e da superficialidade jornalística da plebe culta atual, ao passo que mesmo os capazes de julgar não conseguem sair da ambivalência entre admiração excessiva e rejeição brusca, por não conseguirem ver e apreender o que é principial.
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A própria teoria de
Spengler não é outra coisa senão uma síntese enfaticamente acentuada dos motivos principais das filosofias da vida e da cultura — cultura como objetivação e expressão da vida (
Dilthey), como unidade orgânica da vida criadora (
Bergson) e como contemplação estilística das formas expressivas (Breysig, Lamprecht) —, sendo a ideia de cultura como expressão e símbolo de uma alma simplesmente exagerada e dogmaticamente universalizada na tese de que tudo o que é, é símbolo, ilustrada com o princípio da matemática funcional y = f(x).
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Spengler não viu nem resolveu os problemas da filosofia contemporânea, mas os recobriu por uma generalização violenta, sem sequer alterar o horizonte problemático da filosofia, muito menos conquistá-lo originariamente — e por “originariamente” entende-se aqui não “nunca antes visto” ou “inaudito”, mas conquistado em sentido especificamente filosófico; sua menção serve apenas para indicar uma configuração típica da situação problemática em vias de desvio.
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A menção dos dois grupos principais da filosofia contemporânea serve apenas para indicar de onde deve partir uma caracterização da situação problemática atual, e essa situação, tal como formulada expressa ou implicitamente pela filosofia contemporânea, não pode satisfazer por si mesma, mas precisa ser dissolvida em questões últimas e reconduzida à origem, a fim de que daí se ganhe uma situação filosófica fundamental e, nela, a concreta formulação do problema que nos ocupa.