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Todo esforço de fundamentação radical da filosofia tende a assegurar a ela o estatuto de saber absoluto, de ciência primeira e última, traçando diretrizes para o trabalho subsequente — foi assim que a pesquisa fenomenológica gerou a ideia de “filosofia como ciência rigorosa”, que, na situação histórico-espiritual em que a fenomenologia se impôs, significou uma delimitação frente a outras orientações filosóficas reunidas sob o título de “filosofia de visão de mundo”.
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Essa separação entre filosofia científica rigorosa e filosofia de visão de mundo não negou a possibilidade, a legitimidade e a necessidade da formação concreta de uma visão de mundo na vida factual com suas necessidades espirituais e anímicas, nem excluiu o trabalho cognoscitivo da filosofia científica de seu aproveitamento para a vida espiritual concreta — ao contrário, visava justamente elaborar uma fundação autêntica da vida e do ser espiritual em sua totalidade, por meio de uma pesquisa rigorosa e cumulativa, capaz de esperar e de se conter em seus objetivos, sem se deixar seduzir por enceramentos prematuros ditados por necessidades sentimentais.
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A questão de saber se a ideia de filosofia como ciência rigorosa está plena e necessariamente motivada na atitude fenomenológica fundamental fica em aberto por ora; o que importa, de início, é compreender a tensão entre filosofia científica e filosofia de visão de mundo.
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O fenômeno “visão de mundo” pertence inteiramente à estrutura fundamental da experiência de vida factual: entendida como o nexo vivo e concreto de motivações, tomadas de posição e mundos de vida que domina a situação de uma existência, ela não é um produto teórico, mas algo que cresce e declina com a vida concreta e a partir da experiência factual, sem qualquer objetividade intersubjetiva ou trans-histórica — de modo que falar da visão de mundo de uma personalidade, comunidade, geração ou época significa objetivar a vida concreta de uma maneira que a filosofia ainda não elucidou.
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A filosofia de visão de mundo pode significar três coisas distintas: a configuração criativa e a articulação intersubjetivamente comunicável de uma visão de mundo; a extração teorético-científica dos objetivos e valores supostamente atemporais da vida a partir da história, disponibilizando-os para as necessidades de um presente espiritual; e, por fim, o testemunho público de uma personalidade acerca de sua posição espiritual em seu tempo.
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Todas as três formas não excluem o trabalho científico rigoroso, antes o exigem sempre — ora implicitamente, ora com ênfase metodológica explícita — e daí se concluiu que a separação entre filosofia científica e filosofia de visão de mundo se deixaria facilmente superar numa filosofia de visão de mundo científica, que não se limitasse a uma imagem de mundo meramente pessoal e contingente, nem ficasse presa a investigações isoladas sem horizontes decisivos finais.
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Essa síntese, porém, revela-se um compromisso inevitável, pois a separação entre filosofia científica rigorosa e filosofia de visão de mundo — ou, nos termos de
Jaspers, entre filosofia contemplativa-científica e filosofia profética — não está ela mesma plenamente esclarecida nem é radical, porque não se perguntou se os dois fenômenos “ciência” e “visão de mundo” podem sequer ser vinculados primariamente à ideia de filosofia.
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A separação deve ser recusada não porque possa de fato ser superada, mas porque não deveria ter sido feita de modo algum, sendo inautêntica em sua raiz: ela se “efetua” numa dimensão que é secundariamente derivada e reificada em relação ao originário no qual a filosofia se explicita e no qual ela permanece.
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Ambos os termos da separação bloqueiam o acesso à ideia da filosofia fenomenológica enquanto forem tomados como ponto de partida fixo e não problemático para a pergunta pela essência da filosofia; a fórmula “filosofia científica — filosofia de visão de mundo” é o expoente de uma estrutura da problemática filosófica que, com certas interrupções, governa a filosofia desde
Platão, e para que essa fórmula desapareça como ponto de partida não originário, a estrutura que a motiva precisa ser primeiramente destacada e depois destruída — tarefa para a qual a análise se restringe à situação filosófica presente, onde todos os momentos decisivos dessa estrutura se concentram, sendo que a explicitação radical da problemática fenomenológica saberá tomar a filosofia grega e a moderna desde
Descartes sob o aspecto destrutivo, de modo que a destruição da filosofia e da teologia cristãs se prepare com clareza.